‘The Art of Slowing Down’: A estreia vigorosa e em ascensão de Slow J

27 MARÇO, 2017 -

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“Eu nunca fui guloso, só quis algo mais que amigo/ Fazer ao Rui Veloso o que o Ronaldo fez com o Figo”, ouve-se em “Comida”, uma das melhores músicas de The Art of Slowing Down (T.A.O.S.D.), o novo projecto de  Slow J. À semelhança de Cristiano Ronaldo, João Batista Coelho é um trabalhador incansável, facto que não deixa de referir quando fala sobre o seu ofício. E, à semelhança de Rui Veloso, incute um enorme sentimento na sua prestação vocal. Quer ser todos os dias “um gajo que faz o que lhe apetece”, mas nunca esquece o trabalho árduo que advém dessa escolha. Não é só um rapper, mas o rótulo de cantor também não lhe assenta, apesar de a excelente música “Cristalina” desafiar essa falta de categorização. O artista deambula por esses dois mundos, usando o arsenal que tem ao seu dispor da forma mais acertada. Depois de o seu incrível trabalho em The Free Food Tape ter encantado Portugal inteiro, podemos afirmar sem sombra de dúvida que acertou em cheio na união desses dois universos vocais. O seu primeiro projecto garantiu que há vigor e novidade no mundo das rimas e, com a sua produção característica e flow dominante, Slow J confirmou que estamos perante o início de uma nova fase, um novo capítulo na história do hip-hop português.

T.A.O.S.D. surge dois anos depois da mixtape que a antecedeu e, à semelhança do seu trabalho anterior, a produção levada a cabo maioritariamente por Slow J é um dos pontos fortes deste álbum. O que a define é a atenção ao detalhe, há um cuidado especial na construção de cada beat soberbo que compõe o álbum. Slow J mistura mundos instrumentais além de mundos vocais nas suas músicas, seja uma guitarra exageradamente distorcida com uma batida comprimida em “Arte”, o semba angolano, o universo digital do hip-hop e o auto-tune em “Casa”, uma sample de tradicional guitarra portuguesa aliada a uma batida trap ameaçadora em “Sonhar para Dentro”, ou um magnífico solo de trompete e uma batida jazz cheia de groove a acompanhar o rap biográfico de “Biza”.

Mas não só do detalhe vive o mundo instrumental de T.A.O.S.D.: há um espelhar do sentimento que a música desperta. Em “Às Vezes”, a letra fala-nos de uma depressão que se entranha, com o intérprete a fazer-se de forte ao enterrar a sua dor em vez de sucumbir aos seus efeitos. A batida desta música é seca e “tímida”, taciturna, adequando-se perfeitamente aos temas discutidos e dando ainda mais valor às palavras. Em “Vida Boa”, single do álbum, verifica-se o oposto: o beat é “opulento”, a lembrar música trap; é um instrumental grandioso e sonante que reflecte um sentido de cumprimento das obrigações e do desfrutar dos frutos, do apreciar de um pôr-do-sol e de uma cerveja, de olhos postos no mar e em tudo o que de bonito existe nele. E finalmente, em “Pagar as Contas”, outro dos singles, a batida é sufocante, desconcertante, um soturno desassossego de percussão fragmentada que acompanha fielmente Slow J e os convidados Gson e Papillon. Além da produção, a voz cantada de Slow J também ganha outra preponderância, mostrando que não só de rap vive este artista. Nas músicas mais intimistas, como “Serenata” ou “P’ra Ti”, surge acompanhada por uma guitarra, mas o seu canto está espalhado um pouco por todo o álbum.

Os temas discutidos falam do crescimento de Slow J, enquanto pessoa e enquanto artista, mostrando um lado conceptual mais definido do que em The Free Food Tape. Uma das coisas que faltava a esse projecto era consistência, definição, um foco musical. E apesar de T.A.O.S.D. progredir nesse aspecto de organização de ideias, ainda há um certa falta de intuito no álbum. Músicas como “Biza” podiam ser mais desenvolvidas; o solo de trompete entretém, mas falta um verso final potente para rivalizar com o brilho do instrumento de sopro. Além disso, os interlúdios pouco acrescentam ao álbum: “Beijos” não se relaciona com a música que a precede nem com a que surge a seguir, e quebra cedo a pujança do álbum, soando depois de “Casa” como um abrandar forçado de velocidade. O outro interlúdio, “Último Empregado”, faria mais sentido se fosse incorporado em “Pagar as Contas”. Finalmente, “P’ra Ti”, não sendo um interlúdio, faz-se passar por isso; tem uma mensagem positiva de auto-estima e confiança, mas acaba por não acrescentar nada de novo à lista de músicas do álbum.

T.A.O.S.D. começa com uma pergunta para o ouvinte e uma afirmação assertiva de José Mujica, político uruguaio: a revolução só vale a pena ser feita se levar à mudança radical, se existir uma revolta completa face ao paradigma actual. Num universo de culto a um hip-hop que pouco tem mudado nos anos que foram passando, surge um artista fresco, destemido na sua abordagem e metódico na sua construção musical, pronto a deixar a sua marca na música portuguesa e a liderar a marcha musical de mudança. Embalado pelas palavras de Mujica (que vai soando um pouco por todo o álbum), Slow J vai quebrando barreiras, evitando “gavetas” e desenhando o seu percurso curioso e prazeroso de se ver e ouvir. As suas músicas são muito pessoais e o flow é avassalador na maioria dos casos, deixando o ouvinte perplexo pela maneira como joga com as palavras e com rimas bem construídas. Mas o mais interessante é que não é só de hip-hop que vive este artista. Ainda agora chegou aos palcos e já se estende além da arte a que é associado.

A  sua ambição desmedida é transmitida fielmente pela sua música, combinando influências e criando instrumentais que são o melhor dos mundos onde vão buscar inspiração, acompanhados de canto, voz ou um soar simbiótico dos dois. T.A.O.S.D. ainda não é o expoente máximo da criatividade e talento de Slow J, mas cumpre todos os requisitos de um bom álbum e acalma a espera do apogeu criativo do jovem artista. Já se inicia uma nova etapa, mas teremos de esperar pelo próximo trabalho para a sua chegada definitiva, para a consagração bem-vinda e merecida de um dos artistas mais interessantes no panorama musical português.

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