Terrorismo, imitações e novos ataques. O perigo está nos media?

22 AGOSTO, 2017 -

Português foi abatido pela polícia francesa depois de ameaçar várias pessoas com uma faca. Em Marselha, um homem atropelou mortalmente uma mulher de 42 anos numa paragem de autocarro. Até que ponto existe um efeito contágio e quem é mais vulnerável? Alguns estudos têm alertado para o problema das imitações no terrorismo, mas ainda não há respostas definitivas. Em 1985, Margaret Thatcher pediu um código de conduta aos media que ainda está por implementar a uma escala global.

A imagem correu as redes sociais. Num escaparate da Catalunha, os proprietários recusaram pôr à venda jornais com primeiras páginas sensacionalistas sobre o atentado de Barcelona. O sensacionalismo é sempre condenado no código deontológico dos jornalistas, mas a fronteira em casos de terrorismo deve começar ainda mais cedo? Até que ponto existe um efeito de contágio depois da mediatização de atentados? E quem é mais vulnerável: pessoas que partilhem as causas dos atacantes ou quem seja psicologicamente instável e se reveja, de alguma forma, nas imagens e histórias de vida dos seus perpetradores?

Nos últimos anos, tem havido algumas tentativas de clarificar a questão e não têm faltado apelos para um acordo global na forma como os media reportam atos terroristas. Um dos pedidos mais icónicos tem três décadas e é citado na literatura que se debruça sobre o assunto: passava um mês do sequestro do voo 847 da Trans World Airlines quando, diante de uma plateia de advogados de Londres, Margaret Tacher defendeu que deveria haver um código voluntário sobre a forma como a imprensa segue estes acontecimentos. A primeira-ministra comparou a publicidade dos media ao oxigénio que alimenta os terroristas e defendeu que é preciso deixá-los “morrer à fome”.

Nas últimas décadas, o terrorismo passou a estar no centro da agenda internacional mas continua sem existir esse acordo. No ano passado, depois do ataque de Nice, um grupo de publicações francesas acordou parar de publicar imagens de autores de ataques e os seus nomes, para evitar “possíveis efeitos de glorificação póstuma”, disse o diretor do “Le Monde” Jerome Fenoglio. Este ano, em março, a UNESCO lançou um manual sobre a cobertura do terrorismo, onde pede cautela nas publicações. “Nestes tempos difíceis, com audiências fragmentadas e muitas organizações de comunicação social a passarem por desafios financeiros graves, os jornalistas devem resistir à pressão de mediatizar de forma sensacionalista as matérias para atrair olhares, ouvidos ou cliques”, lê-se no preâmbulo do documento, que não tem qualquer caráter vinculativo. “Devem manter uma perspetiva global e prestar atenção às palavras que usam, aos exemplos que citam e às imagens que mostram (…) e acima de tudo devem evitar criar divisão, ódio e radicalização nas duas margens da sociedade”.

Contágio?

Além da componente de os media poderem ser um meio de propaganda, até que ponto há um efeito de contágio? Depois do atentado nas Ramblas e na marginal de Cambrils, houve pelo menos quatro incidentes na Europa com contornos semelhantes. Na Finlândia e na Rússia, dois homens esfaquearam indiscriminadamente pessoas que encontraram na rua. Em França, um português de 48 anos foi abatido pela polícia em Châlette-sur-Loing, a Sul de Paris, depois de ameaçar várias pessoas com uma faca. Segundo a imprensa francesa, o homem, que não foi ligado a qualquer indício terrorista e teria problemas mentais, terá mesmo ameaçado colocar bombas em toda a vila antes de ser cercado pela polícia no sábado, numa operação que vai agora ser objeto de um inquérito. Já ontem, em Marselha, um homem abalroou duas paragens de autocarro, atropelando mortalmente uma mulher de 42 anos. Também sem aparentes ligações terroristas, o condutor foi detido e estaria a ser acompanhado por problemas psiquiátricos.

Um dos trabalhos mais detalhados sobre o efeito de contágio no terrorismo foi publicado em março pelo Centro Internacional de Contraterrorismo (ICCT – The Hague). Os autores, Nicholas Farnham e Marieke Liem, quiseram estudar até que ponto o efeito de contágio descrito nos anos 70 no suicídio se verifica também nos ataques terroristas suicidas. Para tal, analisaram 881 ataques entre 1970 e 2007, optando assim por excluir o período posterior onde além dos media tradicionais passarem a existir redes sociais.

Apesar de terem detetado alguns clusters de ataques, em particular no Médio Oriente, em que parece haver vários ataques idênticos após a mediatização de um ataque inicial, concluíram que são precisos mais estudos e uma maior catalogação dos atentados para haver respostas definitivas. Ainda assim, fica um pedido de cautela. Os autores lembravam que nos preparativos do ataque de Nice, no ano passado, o autor deste atentado Mohamed Bouhel terá feito pesquisas online sobre outros ataques, nomeadamente do massacre em Orlando um mês antes e de um ataque em janeiro daquele ano em que um carro tinha abalroado uma esplanada em Nice. Os autores explicam neste trabalho os mecanismos que poderão levar à imitação. “Situações como esta dão fundamento à ideia de que casos cobertos pelos media podem fornecer uma narrativa cultural. Alguns indivíduos podem falsamente identificar-se com o protagonista (por exemplo sofrer de depressão, ter problemas financeiros ou sentir-se sozinhos) e copiam a ‘solução’ (no caso o ato violento) fornecido naquela narrativa”, exemplificam. “Um leitor ou espectador em risco pode ser levado, se partilhar fatores de risco, a replicar os ataques e assim ganhar uma posição de prestígio e um sentido de heroísmo entre os seus pares extremistas – um fator chave usado pelas organizações terroristas quando recrutam bombistas”.

No estudo “Can a Copycat Effect be Observed in Terrorist Suicide Attacks”, Farnham e Liem explicam ainda que é preciso distinguir ataques atribuídos a organizações de outros levados a cabo de forma independente, os casos de lobos solitários que parecem encaixar melhor num cenário de imitação. Mas alertam que este modelo de atuação de “resistência sem liderança” é precisamente um dos métodos advogados por organizações como o Estado Islâmico ou Al Qaeda, que incentivam os seguidores a cometer atos de terror de forma independente, por serem também mais difíceis de travar.

Apesar de as conclusões do estudo não serem taxativas, deixavam-se algumas recomendações à imprensa. No fundo, ter o mesmo cuidado que se deve ter com os casos de suicídio: não os apresentar com uma narrativa que os legitime. “Por exemplo, o perpetrador do atentado não deve ser retratado como um indivíduo em risco que resolveu as suas frustrações cometendo um suicídio violento. Ligar o ato do suicídio terrorista a algum aspeto do seu contexto pode dar aos espetadores futuros a capacidade de se solidarizar com o perpetrador e cometer o mesmo ato suicida.”

Já em julho foi publicado um artigo com uma visão mais definitiva na revista científica “Journal of Public Economics”. Michael Jeffer, o autor da Universidade da Austrália Ocidental, analisou a cobertura do “The New York Times” de dias com ataques terroristas em 201 países num período de 43 anos. Concluiu que por cada artigo adicional há mais 1,4 ataques na semana seguinte, com uma média de três vítimas. “O resultado é robusto e parece ser pouco provável que os ataques sejam simplesmente antecipados. Se os terroristas não receberem atenção mediática, vão atacar menos”, conclui.

Artigo escrito por Marta F. Reis, publicado no nosso parceiro jornal i

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