Terceiro dia de NOS Primavera Sound

12 JUNHO, 2016 -

Ao terceiro dia de um NOS Primavera Sound recheado de bons concertos, é impossível não se chegar cansado. É patente na cara do público, na maior quantidade de pessoas na zona das refeições, na grande quantidade de pessoas que já assiste a concerto sentada (ou mesmo deitada), que este é o último dia do festival. Mas não foi por isso que houve menos acção. Num dia com nomes como AIR, Explosions in the Sky, Battles e Car Seat Headrest, houve ainda muito para ver antes de finalmente entrar em modo de recobro.

E o dia, para nós, começou com Cate le Bon no palco ATP. (O primeiro concerto do dia foi o de Manel). Ainda que Linda Martini estivesse, segundo nos chegou, a dar show no palco NOS, ficámos para ver toda a prestação da galesa que nos pôs na disposição certa para abordar o resto do dia, com os seus arranjos calmos e doces, perfeitos para usufruir, sentados na relva, do sol que nos agraciou neste dia.

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Não conhecíamos Algiers, sem ser de nome, mas, segundo as nossas pesquisas, seria algo como ter um tratado Marxista enfiado numa orelha e um órgão de igreja enfiado na outra. Dito isto, nunca pensámos que essa experiência pudesse ser tão dançável.

A banda lembrou-nos de uns Young Fathers com mais rockalhada e activismo, com guitarras ruidosas e excertos de discursos sobre racismo a passarem entre canções.

Apresentaram o álbum de estreia homónimo, lançado em 2015 e louvado por várias publicações musicais, perante um público que parecia estar a gostar, apesar do carácter abrasivo de algumas canções.
A presença desta banda confirmou ainda mais o carácter eclético do festival, se é que tal fosse necessário.

Passando ao palco NOS, aguardamos a chegada dos Chairlift, que estiveram presentes na edição de 2012, para um concerto mais modesto no antigo Palco Club.
Sem grandes floreados, o duo de Caroline Polachek e Patrick Wimberly apresentou-se com um guitarrista e um saxofonista/teclista, atacando logo três canções do mais recente Moth. A partir daí, passou por hits anteriores, como Amanaemonesia, I Belong in Your Arms ou Bruises, intercalados com novas pérolas como Romeo ou Crying in Public.

O som não estava ideal, com um baixo demasiado proeminente, quando aquilo de que se precisava era de uma batida possante que nos fizesse dançar. Apesar disso, o reconhecimento das músicas pelo público foi o suficiente para fazer do concerto uma experiência feliz. Essa felicidade era exacerbada pelo notório contentamento da banda em estar de regresso ao Parque da Cidade.

A apoteose de Ch-Ching foi rapidamente quebrada pela correria desmedida para apanhar Battles num bom local, mesmo em frente à bateria monstruosa de John Stanier. O trio não vinha a Portugal desde 2012, pelo que o regresso era bastante esperado.

La Di Da Di, álbum do ano passado, foi o motivo para o regresso. As músicas desse álbum encontram-se bem polidas ao vivo. A simbiose entre os membros é tão grande, que quase adivinham o som que os companheiros irão produzir a seguir. Isso, por vezes, resulta em pequeninas falhas, que na nossa perspectiva, apenas os tornam mais humanos. Isso é importante na medida em que a música dos Battles anda sempre a cruzar a barreira entre homem e máquina, pelo que assim sabemos que estamos na presença de pessoas e músicos exímios. Stanier é um dos maiores bateristas da actualidade. A sua noção de ritmo e dedicação é fenomenal.

Os destaques de canções vão para a electrizante Futura, uma The Yabba apoteótica e, claro, o estandarte dos concertos dos Battles, Atlas, canção extremamente celebrada pelo público.

Para surpresa de alguns, ainda não batiam as 21:15 e já o palco Pitchfork estava cheio com pessoal à espera de Car Seat Headrest. Quando Will Toledo, a jovem mente deste projecto, entra em palco, acompanhado da sua banda, o público vibra. E é nesse estado que vai estar ao longo de todo o concerto, entoando as músicas e acompanhando as palavras do músico americano de 23 anos. Apesar de chegar com 10 álbuns no bolso, a setlist prende-se essencialmente no que lhe trouxe maior projecção, Teens of Denial, deste ano. As letras simples e jovens, adolescentes por vezes, são fortes e tocantes, as guitarras vão aumentando de cadência e as músicas acabando em êxtase. A presença do público leva até o baterista a dizer que, apesar de estarem metade das pessoas que estavam no concerto na versão de Barcelona do festival, na semana passada, aqui se faz o dobro do barulho. No fim, saem do palco, mas o público aplaude, continua a entoar Something Soon, última música do concerto, e consegue ainda trazer ao palco a banda, mas apenas para um agradecimento, porque tempo para mais performance já não existia. O indie rock tem aqui alguém com quem contar para os próximos anos.

Por volta das 22:30, tínhamos o regresso dos monstros do hardcore Drive Like Jehu no palco. e a ópera punk dos Titus Andronicus no palco Pitchfork. Nós escolhemos a música dos franceses AIR, que tomaram o palco NOS por volta dessa hora.

Possivelmente a banda mais reconhecida dos géneros downtempo e chillout, as suas canções possuem melodias que parecem saídas de sonhos lindíssimos. Como excelente exemplo, temos o sonho japonês de cerejeiras em flor em Cherry Blossom Girl.

Infelizmente, nem sempre o concerto foi adequado ao ambiente de festival. Não por culpa da banda, que já se sabia ser assim (e aliás, deram um belo concerto no seu género), mas pelo público, que por vezes não se deixava cativar pelas canções tranquilas de Nicolas Godin e Jean-Benoît Dunckel. Quando as batidas eram mais proeminentes, o foco lá regressava para a banda e não para conversas alheias.

O final do concerto foi a parte mais cativante, com uma melhor reacção por parte do público a êxitos como How Does it Make You Feel?, Sexy Boy e Kelly Watch the Stars.

Após AIR foi altura de nos deslocarmos para o lado, para o palco Super Bock, para vermos o concerto dos americanos Explosions in the Sky (que, num óptimo português ensaiado, até se introduziram como Explosões no Céu). Com os olhos fechados e o corpo a abanar, seguiram-se os diálogos de guitarras, às vezes etéreas, outras vezes bem sonoras e furiosas, que deambularam pelo Parque da Cidade durante este concerto. Ficou a faltar tempo para mais já que, tal como em Car Seat Headrest, os aplausos que pediam encore só trouxeram um dos membros da banda a pedir desculpa por não poder tocar mais porque outra banda ia começar no palco NOS.
Essa outra banda era Moderat, junção do duo Modeselektor com o artista Apparat, que conclui a programação do palco NOS.

Trouxeram a sua electrónica dançável e inteligente, acompanhados de um espectáculo visual incrível. Foi provavelmente a maior wild card do festival, dado que, apesar da credibilidade indie do projecto, a música não é aquilo a que o Primavera Sound nos habituou. Com todas as boas intenções do projecto, o concerto nem sempre foi inspirado, com segmentos fenomenais intercalados com momentos mais normais que não inspiravam tanto à perda de controlo do corpo. Esperava-se um espectáculo ligeiramente mais interessante.

Apesar disso, o público dançou e mostrou-se entusiasta, ao som de canções como Running ou Bad Kingdom. Foi uma boa forma de celebrar o óptimo festival que o Primavera Sound estava a ser.

Ty Segall foi seguido um pouco cá atrás, lá na frente o público vibrava, com frequentes crowd-surfs que levaram o artista até a dirigir-se, antes de uma música, aos seguranças, pedindo-lhes que parassem de puxar pessoas que não iam caindo e perguntando-lhes em que escola tinham andado para aprender o seu trabalho. Não foi a primeira vez que os seguranças incomodoram, em concertos como o de Parquet Courts, no primeiro dia, também foram várias as vezes em que quiseram sobrepor-se ao concerto, impondo a sua autoridade sobre um público que vibrava sobre o concerto. Em Ty Segall tal voltou a suceder, mas músicos e público continuaram a festa, com o frontman numa pose e comunicação a fazer lembrar a de Mac DeMarco, ainda que o estilo de música não se assemelhe.

Texto de: Bernardo Crastes e Miguel Fernandes Duarte

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