Terceira temporada de ‘BoJack Horseman’ regressa hoje ao Netflix

22 JULHO, 2016 -

subtítulo: bojack horseman é o melhor conteúdo criado para o netflix de sempre.

disclaimer: primeiro que tudo, uma explicação acerca do porquê de me alongar neste chunga. bojack horseman é importante. e qual a razão para isso? acredito que a tristeza se impõe, tal como a melancolia, a depressão ou o desconforto. foda-se, quanto do nosso progresso está nessa energia negra e na ruptura que daí advém? nesses autênticos rasgões? nós somos o quanto explodimos e se ainda não sabiam isso está na hora de pegar fogo aos vossos colchões de yoga. com isto dito, este é um tratado sobre a importância da emoção num conteúdo, seja ele qual for. tudo isto é sobre pureza, uma realidade profunda que só sentimos na ficção. e pode ser triste ou não. aliás, sobretudo quando é triste. é que isso importa tanto, mas saber lidar com isso importa mais ainda, toda a tristeza importa e paro por aqui porque decerto já leram o livro do desassossego e sabem do que falo – espero que não o tenham lido inteiro sem uma obra mais leve pelo meio, é que chega a sufocar, a deixar as marcas de dedos no pescoço. e agora, antes que me falte a voz:

bojack horseman

eu vi a série bojack horseman duas vezes. são apenas duas tempoadas no netflix, com uma terceira a estrear neste mês de julho. há episódios que já vi cinco vezes e episódios que só vi duas. de qualquer forma, só a repetição já é um feito, sobretudo quando já ninguém lê nem relê, sobretudo quando se sobrevive na internet, sobretudo quando se é um conteúdo.

num mundo em que seres humanos convivem com animais, antropomórfico é o termo para isto, bojack horseman é um cavalo cuja fama galopante terminou com o seu papel principal numa sitcom dos noventas. quando entramos na história surge a hipótese de bojack reencontrar a sua relevância através da escrita de uma biografia e é aí que conhecemos diane nguyen, a sua ghostwriter – em português é aquela pessoa que escreve um livro por ti. a relação dela com o rival de bojack, um cão chamado mr. peanutbutter que também foi uma estrela no passado, acrescenta muita storyline e coração partido. quase tanta como as aventuras entre bojack e a sua agente, uma gata com que namora e desnamora. para além de todos estes temos o todd, um rapaz super los angeles que vive na mansão lá nos hills com o nosso protagonista.

é uma série que alinha com a convenção do género de trazer mensagens sérias sob a capa da animação, mas é a forma brutal como destrói a sociedade do self – uma obsessão pela celebridade e pela fama no imediato – que a eleva para um patamar de juiz decide onde percebemos que tudo isto são enredos fáceis e que a vida imita mesmo o que se passa na telenovela e não o que se passa nos sopranos ou no breaking bad.

Bojack4

personagens 

bojack horseman é um cavalo alcoólico e quarentão, cuja carreira já deu o que tinha a dar. pronto, é isto. tornou-se amargo, deprimido e sem encanto face ao mundo que escolheu. estão a ver crescer? pronto é isso, mas com ainda mais azar – porque ser rico não é tudo. é mau para com toda a gente, até para quem gosta dele. lembra-vos alguém? sim, vocês. eu não sou assim.

diane nguyen é uma escritora insignificante. ok, aqui sim, como eu, mas só se vocês não me estivessem a ler. diane é meio oriental, é feminista e é a minha personagem favorita da série. a sua tirada anti cultura de celebridade enquanto diz que não pensa muito no assunto revela o sociólogo atento que há em cada um de nós. sofre em demasia com a sua amizade por bojack e com o amor que este lhe dá em troca. acaba tudo isto a escrever o que ninguém devia escrever por nós.

princess carolyn é uma verdadeira gata. persa. pink. agente de bojack e sua namorada on e off, já foi uma agente top em hollywoo, mas ainda tem dificuldade em gerir da melhor forma a sua carreira, os seus interesses românticos e o seu estilo de vida. quem não tem? relembra-nos que ainda vamos todos a tempo de uma verdadeira vingança corporativa.

mr. peanutbutter é um cão, mas um cão muito específico. como qualquer labrador dourado é feliz, enérgico e repleto de uma simpatia contagiante – ou deveras irritante. ao longo da série vamos vê-lo irritar bojack, sobretudo através dos seus endeavours: ter um reality show e uma espécie de preço certo sobre ele próprio são bons exemplos disso. digam-me que ele é burro demais para diane, digam-me.

todd chavez é um desempregado de vinte e poucos anos que vive na casa de bojack desde que lá foi a uma festa. é vítima de bullying de bojack, mas ao longo da série vai descobrir uma série de lugares fantásticos em actividades tão distintas como músico de ópera rock ou comediante de improviso. também faz tours a casa do bojack como se fosse david boreanaz que lá vivesse – tudo por uns trocos extra.

a vibe contemporânea

há algo no ambiente, na vibe e no feeling desta série que ultrapassa tudo o que é ficção. há um outline invísivel que separa o colorido do cartoon deste vazio saturado em que vivemos.

isto é o que nós somos. este grande abismo. uma profunda necessidade de validar a nossa existência – e de formas tão disparatadas como um blogpost onde aplicaste algum do teu raciocínio elaborado durante horas inteiras de absorção de conteúdo intelectual.

o bret não tinha noção do quanto o hedonista, o nihilista e o libertário se iam assumir. pior ainda, que se iam assumir por detrás de uma grande camada de tédio, acompanhada por uma frase feita, prestes a ser despejada no instagram ou no tumblr. demasiado blasé para ser verdade. too cool to care.

esta geração aproxima-se perigosamente das saudades do tempo que não viveu, tal e qual como o bojack. não sei se é por culpa desta tendência nostálgica dos etsys da vida, mas nós somos os nossos iphones que estão constantemente na nossa mão, somos os snaps que fazemos em demasia, somos um reflexo na piscina onde só estamos nós a pausar. queremos dizer aconteceu quando algo ainda está a acontecer.

há qualquer coisa de LA em 2016 que consegue captar as ambições adolescentes e juvenis que continuam a pairar numa série de crianças, jovens e adultos que levaram com ondas e ondas de internet, de memes e de um ideal idílico de descanso nas palmeiras onde o vazio se torna saboroso, por muito que não se preencha. e por muito que uma carreira e um sonho sejam um pôr do sol no horizonte.

é essa a verdadeira vitória de bojack horseman, o barómetro com que capta as pessoas, a economia criativa, mas também os nossos desejos mais simples e verdadeiros. nós somos os nossos maiores traumas. e somos tão especiais que podemos ser aves raras entre humanos e nem assim nos reconhecemos – será de sermos o fruto de uma mudança tão radical? ou do peso de sermos únicos?

há uma obsessão com o sucesso e com a fama, e todos nós sabemos isso. só que a melhor parte é que qualquer um de nós podia conversar com bojack horseman à beira da piscina – e qualquer um de nós pode ser tão ou mais complexo do que ele é.

bojack-horseman-2

um mundo antropomórfico 

isto não tem nada a ver com ser furry ou não ser, ou se calhar até tem, mas há qualquer coisa de único em termos animais e pessoas a interagirem em cartoon como se nada fosse. quer dizer, único não é o termo quando isto é looney tuney e entra numa categoria dos clássicos da animação, mas ainda assim permite uma caracterização refrescante das personagens através do animal que são.

e muitas vezes não é assim tão fácil. se nos grandes nomes da animação as personalidades eram quase vazias e inseridas dentro destes habitáculos animais, aqui temos a certeza que há detalhes daquela rã gorda ou daquele veado fofo nesta personagens. podem não ser assim tão fáceis de encontrar, ou não serem assim tão fáceis de encontrar num mundo de aparências como o nosso, mas rãs gordas têm tiques de rãs gordas, veados fofos são veados fofos.

o inevitável pode ser muito divertido. e até pode descrever-nos.

a importância da escrita

há demasiados detalhes nas duas primeiras temporadas de bojack horseman que exemplificam a qualidade da sua escrita. mas vou contar-vos um exemplo algo críptico.

se virmos os frames do escritório do melhor amigo de bojack em diferentes flashbacks, reparamos que os motivos quase basquiat estão em crescendo no seu tríptico. bojack é visto como feroz, depois como amoroso e depois como um humano complexo. é claro que com as traições que ainda vai cometer, ou que ainda vamos descobrir que cometeu, permitem certos rasgos nas telas que descobrimos, mas será por acaso que o quadro mais rasgado é onde bojack é tratado como interesse romântico? pois é.

eu sou louco por pequenos detalhes e paranóias que ajudam a conspirar com uma narrativa, tornando-a moldável e modulável, e em bojack horseman sou servido disto em doses generosas e repletas de informação valiosa. há segredos que contam histórias e são, para um olhar atento, o subtexto de várias temporadas.

porque a humanidade está presente em cada uma das nossas acções, mas também está presente em cada um dos nossos fingimentos – vá, podemos chamar-lhes interpretações.

é claro que com episódios em que temos o escritor j.d. salinger a voltar da sua morte fingida para escrever uma trivia de sucesso com direito aprime time ajuda à festa. e ajuda a perceber que a escrita é boa e louco. porque é tudo tão aleatório, mas tão tão bom. e divertido, por muito triste que a série seja. é neste limbo que está o seu triunfo – no sentido que faz mesmo assim. e fazer sentido quando se é quase surrealista só lembrava ao pessoal do café gelo.

em jeito de consolidação deste argumento da escrita, deixo aqui os meus três one-liners favoritos destas duas primeiras temporadas:

3)

“i believe it was benjamin franklin who said “you have reached the end of you free trial membership at benjaminfranklinquotes.com.“

2)

“she’s coming, pour me a celebration drink, she’s not coming, pour me a desolation drink. what are you doing, it’s the same scotch!”

1)

“you know, it’s funny; when you look at someone through rose-colored glasses, all the red flags just look like flags.”

extra)

“i want to do things with you. sober things. clothed things. things during daylight hours.”

interpretando

as comparações com birdman 

há uma beleza inerente à forma como bojack horseman e riggan do birdman são exactamente uma e a mesma pessoa. é claro que a internet delirou com isto, mas vamos por partes:

ambos são alcoólicos, deprimidos e borderline suicidas.

ambos são celebridades que tiveram o seu sucesso no passado e que estão washed out no começo das respectivas histórias.

ambos estão a agarrar-se desesperadamente a algo que seja a sua salvação – a peça no caso de riggan, a biografia no caso de bojack.

ambos estão agarrados, ainda mais do que aos estupefacientes, a uma beleza perdida em algo que não conseguem ultrapassar e onde retornam.

ambos têm pessoas que dependem deles e que os relembram de todas as quebras na personalidade deles.

ambos têm mais talento do que eles próprios percepcionam.

ambos têm uma visão arrogante de quem está à volta deles, sendo narcisistas com frequência e aproveitando-se dos outros idiotas à sua volta.

é divertido como duas possibilidades tão distintas em termos de estilo podem ser levadas a cabo da mesma personagem central. é também mais um tónico dos tempos, admirar o fracassado em busca de algo, quando a nossa busca de sempre é por ser algo mais do que só um fracassado.

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um branding soberbo 

já viram a pinta desta merda?

o acaso do bojack estar a vestir aquele look icónico do miami vice? a forma como cada flashback está saturado de referências da época? eles sabem que estes são os tempos em que as referências se mastigam a si próprias. não é por acaso que a música com que os terminam os episódios de bojack horseman tenha sido gravada por uma conhecida banda indie, não é?

não é por acaso que a engrenagem do hype que ligaram e arrancaram para a segunda temporada só tenha parado em cannes. sintam a dica, criar o site do bojack como se fosse mesmo dele, depois o twitter, depois os memorandos e as recordações e nós, fãs e sedentos de detalhes, já estamos agarrados e a partilhar. parabéns.

bojack horseman é cool porque é bom e é genial em cada uma das suas nuances. e num tempo em que tudo quer ser uma oferta cultural, não dá para adormecer durante os tpc’s.

para fechar resta-me dizer que sabia que ia escrever muito quando me dedicasse a falar sobre esta que é a melhor série de sempre do netflix, mas também não estava à espera de uma recensão crítica assim. mas esta é um cavalo encantador que responde aos mails das pessoas que lhe pedem posters com um headshot assinado em .jpeg e que pede para não o venderem, senão vai ficar mesmo triste. é uma série em que todos percebemos que uma das personagens são dois miúdos empilhados a fingir que são um adulto, mas em que percebemos pelo seu discurso que podia ser o donald trump. e é uma série em que a crítica queria dizer mal de tudo, mas teve de se redimir com grandes notas face à beleza da ironia e à verdade que ela pode carregar. todo um sucesso, e um blogpost, que só pode inspirar bojack.

Chungaforever é um blog onde Alexandre S. Couto escreve sobre cultura pop e as mais diversas banalidades do nosso tempo. É também a versão mais badass do autor. Podem encontrar este e outros textos aqui na Comunidade Cultura e Arte ou no seu blog.

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