Televisão: aposta das empresas de tecnologia está a mudar o consumo

21 AGOSTO, 2017 -

Apple disponibiliza mil milhões de dólares para começar a produzir conteúdos de infotenimento. Empresa de tecnologia passa assim a competir num mercado cada vez maior e mais diversificado, no qual as tecnológicas competem entre elas e também com as empresas de media tradicionais

As grandes empresas de tecnologia estão a mudar o consumo de televisão. Depois da Amazon e do Facebook, é a Apple que quer entrar no negócio e concorrer com as empresas tradicionais de media na produção de conteúdos originais e de streaming. Mas também estas últimas, como a Disney, estão a posicionar-se neste mercado, em que a competição é grande e diversificada.

O “Wall Street Journal” (WSJ) noticiou ontem que a Apple tem um orçamento de mil milhões de dólares para produzir filmes e séries em 2018. O valor é perto de metade do que a HBO – empresa da Time Warner – gastou em conteúdos no ano passado e semelhante ao da Amazon para 2013, ano em que esta anunciou a sua decisão de produzir conteúdos originais.

Mas, este ano, a empresa liderada por Jeff Bezos já tem um orçamento aproximado de quatro mil milhões de dólares – o dobro do anterior para o vídeo e o triplo para os conteúdos originais, um montante mais próximo do da Netflix, que é de seis mil milhões de dólares.

Os mil milhões de dólares orçamentados pela Apple para entrar neste negócio serão geridos pelos veteranos de Hollywood Jamie Erlicht e Zack Van Amburg, contratados à Sony pela Apple em junho para liderar a estratégia de vídeo e aquisição de conteúdos.

Os custos para a produção deste tipo de conteúdos poderão ascender aos dois milhões de dólares por episódio de uma série de comédia, ou a mais de cinco milhões por episódio se a série for dramática. A produção de um episódio de “A Guerra dos Tronos” custa 10 milhões de dólares à HBO.

Reavivar o negócio

De acordo com o “WSJ”, que cita uma fonte conhecedora do assunto, as receitas superiores a 215 mil milhões de dólares em 2016 permitem à Apple aumentar o seu orçamento para o novo negócio e os dois gestores já começaram a reunir-se com agentes de Hollywood e a estudar quais as séries que a Apple pode vir a adquirir.

A empresa parece empenhada em reavivar o seu negócio televisivo – aluga filmes e séries através do iTunes –, que tem sido desafiado pela subida de serviços de subscrição de vídeo como os da Netflix. No ano passado, o iTunes gerou receitas de 4,1 mil milhões de dólares, mas a percentagem que veio do aluguer de filmes e vídeos baixou dos 50% que tinha em 2012 para menos de 35%.

A Apple ambiciona que o conteúdo original impulsione o aluguer de filmes e de outros serviços do iTunes – uma componente vital dos serviços da Apple, que incluem a App Store, o Apple Pay e o Apple Music. O objetivo da empresa liderada por Tim Cook é duplicar o valor deste negócio para 50 mil milhões de dólares em 2020.

Desporto em direto

Mas para chegar a este valor, além da Netflix e da Amazon, terá de concorrer também com novos players neste mercado, que tal como a Apple são de base tecnológica.

Na semana passada, o Facebook lançou o Watch, uma plataforma de vídeo com conteúdos próprios e transmissão de desporto em direto, como os da Major League Baseball, a principal liga de basebol dos EUA.

A transmissão de desporto em direto foi também uma aposta da Amazon, que chegou a acordo com a NFL, a principal competição de futebol americano, para a transmissão de dez jogos de quinta-feira à noite. O acordo, de 50 mil milhões de dólares, estipula que estes jogos só sejam transmitidos em exclusivo no Amazon Prime Video.

Para disponibilizar conteúdos próprios, o Watch tem parcerias com diversos produtores e os direitos sobre os programas. Estes terão transmissão gratuita e anúncios publicitários nos intervalos. As produtoras parceiras da rede social vão receber 55% das receitas obtidas com a publicidade e o Facebook fica com os restantes 45%.

“Pensamos ser possível repensar muitas experiências através das lentes de construção de uma comunidade – incluindo ver vídeos”, diz o presidente executivo da maior rede social do mundo, justificando a decisão de entrar neste mercado cada vez mais competitivo. “Ver um programa não tem de ser passivo. Pode ser uma oportunidade de partilhar uma experiência e de aproximar as pessoas que se interessam pelas mesmas coisas”, acrescentou Mark Zuckerberg.

Comunidade

Com a nova plataforma, os mais de 1,3 mil milhões de utilizadores da maior rede social do mundo poderão procurar vídeos fora do mural de notícias, criar listas de programas a seguir e optar por seguir determinados artistas, marcas ou publicações.

O Facebook procura assim replicar o sucesso de vídeos curtos e virais, aumentando a atenção da comunidade na qual as pessoas partilham a sua opinião sobre os programas. O utilizador recebe notificações com as novidades sobre os programas que segue.

No anúncio do novo canal de vídeo lê-se que “o Watch é uma plataforma para todos os criadores e publishers encontrarem uma audiência, construírem uma comunidade de fãs e ganharem dinheiro com o seu trabalho”.

Streaming De acordo com a Cisco, o vídeo deverá representar 82% de todo tráfico da internet em 2021, o que leva a um crescente aumento dos gastos com publicidade no vídeo social, que deverão chegar aos 4 mil milhões de dólares este ano e subir de forma consistente nos próximos anos.

Ainda assim, os analistas preveem alguma relutância das principais empresas de media em fazer parcerias com o Facebook, uma vez que conseguem mais receitas disponibilizando os seus conteúdos nos próprios sites.

No início do mês, a Disney retirou os seus filmes da Netflix para lançar o seu próprio serviço de streaming. O anúncio foi feito durante a apresentação dos resultados do trimestre, numa altura em que a multinacional se debate com quedas nas receitas, sobretudo na internet, onde a descida foi de 9%.

Artigo escrito por Magalhães Afonso, publicado no nosso parceiro jornal i

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