‘Tangerine’, um marco no cinema contemporâneo

28 JUNHO, 2016 -

Poderia até passar despercebido pelas salas de cinema portuguesas, como passou despercebido para a Academia, marcada pela polémica #OscarsSoWhite, e que injustamente se esqueceu de Tangerine. Isso em nada retira o valor que o filme de Sean Baker que estreia esta quinta-feira em Portugal tem. Baker, que em obras anteriores se tinha já focado em abordar temáticas não convencionais como Take Out (de 2004), sobre imigrantes ilegais e Starlet (2012), abordando a pornografia, volta mais uma vez a despertar a nossa atenção e a centrar os nossos sentidos numa obra diferente, por várias razões.

Desta vez, temos uma compassiva história de duas prostitutas transgénero e da sua desventura em véspera de Natal pelas ruas de Los Angeles. O contexto e cenário criado para que a história filmada inteiramente durante um mês por três Iphones 5s (sim, Iphones) seja um conto de fadas do cinema independente contemporâneo. O filme é de resto produzido sob a alçada dos irmãos Duplass, “heróis” do cinema independente e de onde Tangerine bebe.

Com uma típica linguagem coloquial própria (imaginamos nós) de street corners e ruas de subúrbios de uma LA de cores vivas e aguerridas, Tangerine centra-se nas pessoas, seus principais intervenientes, e nas suas situações como centro de um drama/comédia, fazendo-nos criar uma real ligação com o que se passa num ecrã que nos dá cinema como meio de uma história quase real e longe dos efeitos e subterfúgios típicos da produção mais comercial feita e realizada em Hollywood.

Centrando-se na ágil e viva narrativa criada por Sean Baker e Chris Bergoch, a mesma é transportada para ecrã através das excelentes e enérgicas performances de Sin-dee (Kitana Kiki Rodríguez) e Alexandra (Mya Taylor). Através de um plano-sequência inicial numa Doughnuttery onde Alexandra conta à sua amiga Sin-dee Rella, que acabou de sair da prisão, descobre que o seu “namorado” e chulo namora agora com uma não transgénero “branca”, uma “real bitch, like…vagina and everything”.

Com a ajuda de Alexandra, que não quer “dramas” (que no entanto serão inevitavelmente uma constante ao longo de todo o animado filme), as duas amigas vão tentar saber do paradeiro da nova amante (que apenas sabem que o seu nome começa pela letra “D”) do chulo de Sin-dee, e deste último também.

Ao mesmo tempo, como acção secundária do filme, seguimos ainda Razmik (Karren Karagulian), um taxista arménio casado, pai de filhos e com uma queda por prostitutas transgénero, em especial por Sin-dee.

É redutor classificar o filme só pela história sem falar dos meios com que nos traz a mesma assim como será também redutor não dar principal e primordial importância a qualquer um desses factos sob pena de não lhes darmos a devida atenção.

A inovadora forma como Tangerine foi gravado com recurso a smartphones desperta em nós uma saudosa vontade de dar asas aos cineastas que existem em todos os amantes de cinema para que façam uso das tecnologias que têm à mão (literalmente) e possam também eles construir obras e dar espaço à sua criatividade.

Além disso, é merecedora de elogios a capacidade de Sean Baker em trazer-nos um filme tão agradável com tão poucos meios, e é de exultar a leveza com que foge a possíveis julgamentos e juízos de valor sobre os elementos que compõem a sua obra. É por isso que este filme foge a rótulos desnecessários como sendo de “cinema de intervenção” ou de campanha pró-LGBT. Tangerine traz o real e Baker livra-se com destreza dessas incidências que poderiam advir na sua obra e guiando-nos na perfeição – como se fossemos excepcionalmente levados a tal – para uma tomada de atenção única sobre as personagens, sobre as suas frustrações, tristezas, peripécias, risos, choros e dramas, muitos dramas que resultam num filme de “F” grande.

Mais do que vitalidade e ousadia em ecrã, o visionamento de Tangerine torna-se também obrigatório por todos os motivos já citados. Em estreia esta quinta-feira, em exclusivo no cinema Medeia Monumental.

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