Super Bock Super Rock: Deftones agitaram, Seu Jorge acalmou e Fatboy Slim dançou

16 JULHO, 2017 -

O derradeiro dia da 23ª edição do Super Bock Super Rock tinha os Deftones à cabeça, por isso, muita malta “da pesada” deslocou-se até ao Parque das Nações. Este foi o dia em que se passearam t-shirts das mais variadas bandas que compõem uma subcultura bastante viva no nosso presente. Muitos acumularam-se junto às barracas das cervejas, outros fizeram fila para saltar num trampolim, com a ambiente estar visivelmente diferente em relação aos primeiros dois dias do festival. O último dia de festa contou também com Fatboy Slim, Foster The People, Seu Jorge, entre outros.

Foto de Super Bock Super Rock.

Bruno Pernadas foi o homem escolhido para iniciar o último dia do Super Bock Super Rock. O guitarrista e compositor brilhou acompanhado por um septeto de músicos exímios. A “odisseia”, segundo o próprio, foi levada a cabo maioritariamente por músicas de Those Who Throw Objects at the Crocodiles Will Be Asked to Retrieve Them, mas passou também por “Première” e “Ahhhhh” do seu álbum How Can We Be Joyful in a World Full of Knowledge?, lançado em 2014. Homem de poucas palavras e muita música, cumprimentou descontraidamente o público a certa altura: “Olá, olá, olá. Vocês estão aí atrás por causa da sombrinha, não é? Eu também estaria.” Foi um concerto executado com grande mestria, especialmente a nível instrumental. Os momentos instrumentais de pausa em músicas como “Spaceway 70” ou “Valley in the Ocean” foram milimetricamente sincronizados entre os vários intérpretes, sob a liderança focada de Bruno Pernadas. Terminou com “Galaxy” e despediu-se educadamente. “Obrigado por terem vindo, vocês aí atrás também!”, sem esquecer quem se refugiou mais longe do palco para escapar ao calor. Mas seja à sombra ou ao sol, ao som de Bruno Pernadas e companhia está-se sempre bem.

Foto de Super Bock Super Rock.

Silva proporcionou um concerto digno de ser a banda sonora do pôr-do-sol no último dia do festival. A tarde escorregou prazerosamente para dar lugar à noite numa bonita harmonia musical proporcionada pelo artista brasileiro, que divaga entre dream pop e synth pop. Através de músicas como a bonita “É Preciso Dizer” ou a alegre “2012”, transpareceu a sua voz bonita e uma intensidade na entrega que se traduziu numa descontracção musical em palco. O público não era muito mas quem ali estava rendeu-se ao encanto de Lúcio Silva, especialmente quando o artista interpretou “Meia Lua Inteira”. Incentivou o público às palmas e homenageou fielmente o grande Caetano Veloso, com um timbre que fazia lembrar o artista brasileiro nos seus dias de juventude. Na recta final, “Capuba” soou fantástica, perfeitamente adequada ao final de tarde e elevada pela doce voz de Silva, que com uma música bem funky preparou a noite que se avizinhava com muito estilo.

Foto de Super Bock Super Rock.

Ao chegar ao palco LG, sou cumprimentado por um solo agudo e uma intensidade fervorosa que se topava ao longe. Os Stone Dead estão a fazer a festa. No palco EDP, Silva embalou-nos até o sol desaparecer e à porta da MEO Arena a banda portuguesa arranca-o de órbita com a sua sonoridade fugaz. Estava presente uma multidão larga, talvez atraída por todo este “barulho” rock. Os rapazes de Alcobaça vieram apresentar Good Boys, o seu novo álbum lançado no mês passado, com toda a distorção, bateria exacerbada e riffs deliciosos que o projecto tem. A entrega visceral do vocalista foi um dos pontos altos do espectáculo, bem apoiado por uma banda frenética e um baterista que também cantou com potência e liderou alguns dos temas. “Candy” soou especialmente crua e entusiasmante. Para terminar, um final possante com direito a moche, e auxiliada por gritos animalescos de um dos membros da banda a meio da última música, concluindo assim uma robusta actuação com muita dedicação e vigor da parte dos Stone Dead.

Foto de Super Bock Super Rock.

Os Black Bombaim tiveram o previlégio de tocar na hora mágica, propositado ou não, a verdade é que a música do trio minhoto encaixa que nem uma luva à hora do lusco-fusco. Acompanhados por um brilhante saxofonista, que atribuiu uma camada jazzy aos riffs de guitarra longos e psicadélicos. O público que assistia junto ao modesto palco LG reagiu de forma incansável, com muitos passos de dança durante quase uma hora. Um excelente aquecimento para os muitos que aguardavam por Deftones.

Foto de Super Bock Super Rock.

Eis que os Deftones entraram de rompante e a agarrar o público pelo colarinho, atiraram-se de cabeça a “Headup”, e nem se quer foi preciso esperar muito para os primeiros empurrões nas filas da frente. O delírio da multidão de fãs veio imediatamente a seguir, “My Own Summer (Shove It)” estremeceu com o pavilhão. As duas faixas de “Around The Fur” foram correspondidas por uma moldura humana bem composta. Parecia tudo pronto para um show de riffs pesados e letras nostálgicas entoadas pelo vozeirão de Chino Moreno. De realçar, que os cabeças-de-cartaz deste terceiro dia, apresentaram-se com um jogo de luzes impressionante. O quinteto californiano liderado por Chino Moreno estava ali para tocar e foi isso que fizeram durante pouco mais de uma hora, sem muitos rodeios e conversas, apenas um ou outro “obrigado” pelo meio. “Digital Bath” voltou a puxar pelas vozes na plateia, também “Diamond Eyes” teve direito a coro. A maior apatia gerou-se com “Phantom Bride”, a faixa do mais recente álbum não teve uma recepção muito calorosa. “Knife Prty” trouxe o público de volta e Chino Moreno foi ter com ele. Apertos de mão, abraços, crowdsurfing, telemóveis em punho e pessoal a cantar ao microfone com o vocalista, deu para tudo. O regresso ao palco acontece com “Change (In The House Of Flies)” e mais uma vez o coro volta a afinar-se: “I have watched you change. It’s like you never…”

Chino sempre “gingão” com o cabo do microfone e quando era para gritar lá se agachava, a presença do vocalista é contagiante. Assim que soaram os primeiros acordes de “Back To School” ninguém ficou indiferente e a reacção foi unânime: gritos, assobios e muitos saltos. Em “Be Quiet and Drive (Far Away)” também houve berros em conjunto por: “I don’t care where just far!” O encore trouxe o riff de “Bored” e claro que, seguidamente, abriu-se um moshpit no meio da multidão. A faixa de “Adrenaline” já tem 22 anos, mas ninguém se esqueceu da letra e o ponto alto do concerto foi mesmo ali, a duas músicas do fim. A bonita “Teething”, e por fim, “Engine No. 9” encerraram uma actuação que soube a pouco, julgando pelos muitos que assobiaram assim que as luzes acenderam.

Foto de Super Bock Super Rock.

Depois de Black Bombaim terem “incendiado” o palco com o seu rock psicadélico exacerbado e de alta potência, os Sensible Soccers “apagaram o fogo” da maneira mais suave possível, encerrando o palco LG com muito carisma e valor. Há qualquer coisa estranhamente intimista na electrónica da banda nortenha, uma atmosfera relaxada preenchida por uma miríade de sons e instrumentos que se complementam uns aos outros. Há espaço para guitarras em delay (“Bolissol”) e linhas de baixo que ditam o ritmo, misturando este universo digital com algo mais “acústico”, e soa tudo muito orgânico e fluido. Tocaram vários temas do seu álbum mais recente, “Villa Soledad”, lançado o ano passado, e a faixa título mostra como trabalham bem a progressão musical, acrescentando intensidade de forma controlada e bem estruturada. Tímidos, deixam uma voz robótica introduzir a banda, e interpretam os temas sem grande interacção com o público. Mas o pequeno grupo de pessoas que os vê, de pé ou sentados, não parece importar-se com isso. A banda deixa a sua sonoridade entusiasmante falar por si. Quase no final da actuação de Sensible Soccers, os Deftones terminaram o seu set explosivo e as pessoas que vão saindo param para ouvir o que se passa fora da MEO Arena, curiosos e atraídos pela batida intoxicante sem grande espalhafato. Quem disse que um “metaleiro” não dança?

Foto de Super Bock Super Rock.

Depois de os Deftones terem agitado o Palco Super Bock, chegava a vez de Seu Jorge acalmar, também ele, os ânimos no Palco EDP. Envergando o mesmo guarda-roupa que utilizou no filme “Life Aquatic with Steve Zissou”, Seu Jorge entre em palco de guitarra e chávena de chá nas mãos. Sempre simpático e modesto, o compositor brasileiro conseguiu prender o muito público que se movimentou até ali. No entanto, a audiência não estava propriamente virada para um concerto único. Muitos de costas voltadas para o palco, conversando alto e quase silenciando Seu Jorge. O músico brasileiro foi contando aventuras dos bastidores do filme pelo meio, apresentou “Starman” como sendo a “favorita do realizador Wes Anderson”. E “Lady Stardust”, uma adaptação que fez para dedicar à actriz Cate Blanchett, que estava grávida durante a rodagem do filme. No final, com a plateia mais despida, Seu Jorge despede-se com “Life on Mars?”.

Foto de Super Bock Super Rock.

Fatboy Slim tinha a cargo a importante tarefa de encerrar o festival. E o DJ britânico não desapontou. Norman Cook trouxe a Portugal um set incrível, quase noventa minutos de puro deleite musical. Era impossível estar sentado com toda a groove que preencheu a MEO Arena. Ouviram-se músicas tão variadas como o remix de “Ascension” dos Gorillaz, “Eye of the Tiger”, “Radio Gaga” dos Queen e até “Blitzkrieg Bop” dos Ramones. A virtude e mestria de Fatboy Slim na mistura de música está nos pequenos momentos em que deixa a sua marca na mistura, a maneira como consegue invocar sentimento com uma união musical prazerosa. Ouvimos “Gangster Trippin” do artista misturado com “Fancy” de Iggy Azalea e a implacável marcação de tempo foi a única coisa constante, o set foi camaleónico, em constante mudança e a saltitar de música em música. Além de um excelente conjunto de músicas, a actuação foi acompanhada por um espectáculo visual incrível. Luzes tresloucadas cobriram a MEO Arena de visuais intensos, e excertos de filmes, séries e outros tantos programas também apareceram nos ecrãs. A certa altura viu-se um ecrã de erro com as palavras “Attention, you have raved too hard”. Se isso de facto aconteceu, a culpa foi de Norman Cook que com a sua mistura intensa fechou esta edição do Super Bock Super Rock em altas.

Fotografias retiradas da página oficial do festival no Facebook.

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