Super Bock Super Rock: ao segundo dia, o rap e o hip hop dominaram o Parque das Nações

15 JULHO, 2017 -

Se o primeiro dia se vestiu a rigor com as t-shirts dos Red Hot Chili Peppers, o segundo levou os outfits mais urbanos até ao Parque das Nações. Expressões felizes, muitos telemóveis em punho para registar tudo, e muito mais cuidado com a indumentária. Era o dia dos sons mais urbanos. O rap, o hip hop e o trap estavam de volta ao Super Bock Super Rock. Um dia recheado para os fãs dos géneros, que contou com nomes como Pusha-T, Akua Naru, Slow J e o incontornável Future. 

Foto de Super Bock Super Rock.

Keso teve a cargo a missão de abrir o palco LG e o MC nortenho não desapontou. Começou o concerto sentado, acompanhado por DJ Spot mas foi de pouca duração, erguendo-se pouco tempo depois. No meio de samples e uma batida pacata começou a primeira música, e Keso cantou-a com muita emoção. O sentimento de Keso foi algo que transpareceu fielmente durante toda a actuação. “Queria agradecer as pessoas que conhecem as músicas. Estou fascinado por chegar a Lisboa e ter este props. E também compreendo as pessoas que não conhecem as músicas”, declarou a certa altura, visivelmente contente com o apoio do considerável público que ali se juntava para ver o rapper cuspir barras. O seu repertório passou por Ksx2016, o seu potente álbum lançado o ano passado.

Depois de temas como “Oiçam” (“A próxima música fala sobre o meu rumo ao estrelato. Cheguei aqui, agora sou uma estrela”, disse no meio de risos), “Insólito” ou “Na Rua Tenho Acústica”, a actuação mudou de atmosfera: “Depois desta parte, vamos começar uma parte em que eu vos expresso assumidamente o meu ódio pela humanidade” diz quase sarcasticamente antes de começar “Insulto Deliberado”. “Gente e Pedra” deslizou a seguir. “O hip-hop está vivo ou não?”, pergunta depois de soar “Segundo Capítulo”. Se não estiver, sabemos quem chamar, e o rapper do Porto certamente estará à altura.

Foto de Super Bock Super Rock.

Depois de Pusha T e Jessie Reyez terem espalhado magia no palco EDP, Slow J seguia-se. Mal a música ambiente foi silenciada, o palco foi varrido por assobios de uma multidão ansiosa por ver João Coelho brilhar. “Não Me Mintas” de Rui Veloso sob a forma de Slow J abriu o concerto seguido de “Arte” a todo o vapor, potente, possante e incrível. Em “Casa”, Slow J fez uma advertência ao público: “Eu posso instruir quem nunca esteve num concerto de Slow J, quando nós estamos em casa toda a gente é família”. E que família que ali estava junta. O público entregou-se completamente ao MC, a cantarolar a linha de contrabaixo intoxicante em “Tinta da Raíz” ou através do seu calor vocal que se fundiu com a voz de Slow J em “Menina Estás à Janela”. E a massiva multidão que ali se juntou para ver o artista não foi indiferente ao mesmo: no final de “Sonhei para Dentro”, enquanto o beat desliza, João Coelho fitou a multidão, verdadeiramente entusiasmado pela quantidade de pessoas que vibram com os seus temas.

O concerto contou com a participação do talentoso Nerve que veio cantar o seu verso em “Às Vezes” e Gson e Papillon também surgiram para participar em “Pagar as Contas”, mas os três artistas foram “amaldiçoados” por problemas nos microfones. Mas não foram recebidos com menos calor por isso. Em “Origem”, notou-se mais uma vez a excelente entrega de Fred, e a bela adição da sua bateria na música ao vivo. Se estiverem confusos se isto é rock, hip-hop, não se preocupem, está tudo bem” diz antes de se ouvir os já conhecidos acordes iniciais de “Cristalina”. Para terminar, “Vida Boa” fez o público saltar e vibrar e foi a música que mais bateu. Com um sorriso, João Coelho despediu-se e estava acabada a participação musical de Slow J nesta edição do Super Bock Super Rock. Ou talvez não: em Beatbombers, Slow J juntou-se a DJ Ride e Stereossauro para mostrar ao vivo a faixa em que participa no álbum dos DJ’s. Foi a cereja no topo do bolo depois de uma excelente actuação no palco EDP.

Foto de Super Bock Super Rock.

O Palco EDP estava ali para receber malta com t-shirts largas, chapéus do avesso ou as clássicas bandanas. Akua Naru sabia para quem estava a tocar e foi directa ao assunto: “o espírito do hip hop está aqui!”. A soul e o rap misturam-se na voz da norte-americana que se fez acompanhar por uma banda daquelas que, mais parecia retirada de um qualquer bar de Nova Orleães. Nos momentos de intervalo entre as canções, Akua Naru aproveitou para espalhar mensagens de amor que “é o que mais importa”. A pala do Pavilhão de Portugal não é propriamente amiga da acústica, no entanto, o saxofonista de Naru, soltou o melhor solo de saxofone que alguma vez já ecoou pelo icónico espaço projectado por Siza Vieira. “How Does It Feel Now?”, uma balada com a alma blues dedicada a todos os apaixonados na plateia, e por sua vez, uma ode ao amor, temática muito referida no repertório da artista. “Estão a fazer-me sinal e só temos mais quinze minutos” avisou Akua Naru que se atirou para sonoridades mais funk e dançáveis. Estava assim feita a despedida do concerto que teve mais de orgânico, – no Palco EDP – neste segundo dia do festival.

Foto de Super Bock Super Rock.

Língua Franca une o hip hop que o Atlântico separa, mas o idioma aproxima. Capicua e Valete juntaram-se a Emicida e Rael, para um tributo ao género cantado na nossa língua. A actuação do colectivo enfrentou uma plateia muito bem composta e claramente de olhos postos na presença de Valete. Depois de “Maria Capaz” e “Vayorken”, a maior excitação veio com a aparição do rapper da Amadora. “Fim da Ditadura” apesar de ter mais de uma década de vida, estava na ponta da língua de todos os presentes, e foi por isso, o ponto alto do concerto. Ainda houve tempo para Valete experimentar ao vivo o novo “Rap Consciente”. Pelo meio de críticas à futilidade dos “rappers de hoje em dia”, Valete aproveitou para deixar uma alfinetada na valorização da mulher para além do seu corpo, e claro, serviu de mote para “Medusa”. A chegada dos MC’s brasileiros, começou a desmoronar a plateia, que gradualmente foi abandonando o Palco EDP.

Foto de Super Bock Super Rock.

Para concluir a mostra de hip-hop do segundo dia desta edição do Super Bock Super Rock, Future encerrou o palco principal do festival. O rapper de Atlanta veio apresentar Future e HNDRXX, os seus dois álbuns lançados no início deste ano. O concerto começou com uma série de glitches informáticos a iluminarem a Meo Arena nos ecrãs. Future surgiu sozinho, desprovido de DJ ou banda, de palco vazio, acompanhado ocasionalmente por três dançarinos em certos temas. Talvez derivado disso, o concerto soou aborrecido, uma amálgama de temas do artista misturados numa espécie de set do trap que o artista produz. A actuação decorreu a um ritmo frenético através de músicas como “Rent Money”, “Good Dope” ou “Commas”, mas foi desprovida de algo mais pessoal e de uma entrega mais expressiva de Future. Quando o ouvimos dizer “This a crazy crowd right here!”, uma das poucas pausas na alta cilindrada trap da actuação, soou como mais uma coisa ensaiada, um momento em que a batida previamente gravada está no pause.

O artista pareceu distante dos seus fãs, que se entregaram incondicionalmente nesta estreia do rapper em terras portuguesas, mais entusiasmados e energéticos que o MC. Se no dia anterior faltaram temas no concerto de Red Hot Chili Peppers, no concerto de Future foram demasiados: trinta e quatro temas divididos por uma hora, alguns representados por trinta segundos de música, sendo que Future depressa partia para outra música. “Mask Off”, a música com que encerrou o espectáculo brindando o público com um show de confetis, foi um dos poucos pontos altos. Foi demasiado sem a profundidade necessária, esta estreia desapontante de uma das maiores estrelas da música trap da actualidade.

Fotografias retiradas da página oficial do festival no Facebook.

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