‘Suicide Squad’ não é assim tão mau

5 AGOSTO, 2016 -

Marcámos presença no dia de estreia do aguardado filme da DC, Suicide Squad. Com a sua realização a cargo do génio de David Ayer e com um elenco de luxo com nomes como Jared Leto, Margot Robbie, Will Smith, Viola Davis ou Cara Delevingne, este é talvez o filme mais aguardado do ano (até agora), e as expectativas mantiveram-se muito elevadas durante o decorrer dos meses. Pouco mais de um ano após a chegada do primeiro trailer do filme, finalmente tivemos a oportunidade de o ver no grande ecrã, e apesar deste filme não ser a cereja no topo do bolo (bolo esse que seria Batman v Superman: Dawn of Justice), não é de todo mau, e a imprensa não tem feito justiça às imensas qualidades e pontos fortes desta produção.

Suicide Squad tem lugar imediatamente após os eventos de Batman v Superman, sendo que a única coisa que é necessária saber é que no final do mesmo, Superman morre. Amanda Waller, movida pela expectativa e receio que o próximo meta-humano possa não estar do lado do bem, convence o governo norte-americano a criar uma força especial constituída por criminosos e psicopatas com poderes extraordinários. Os primeiros 20 minutos do filme focam-se em explicar ao público de maneira rápida mas eficaz os nossos vilões favoritos, algo que Batman v Superman não fez, uma decisão que gerou muitas críticas negativas na comunidade cinéfila.

Talvez a melhor maneira de começar esta crítica seja tirando o elefante branco da sala: este filme é bom, ao contrário do que se diz no Rotten Tomatoes e noutros meios de comunicação. Este é um filme que com certeza entreterá a grande maioria das pessoas (não só fãs hardcore) que se deslocarem ao cinema para o ver. Comparações com o outro badalado filme da DC, Batman v Superman, são escusadas, pois o caso do filme do duelo de titãs, como já referimos, é um diferente, um em que percebemos que o filme foi feito para ser visto pelos fãs, não pelo geral movie goer. Este é um caso totalmente diferente, e que neste aspeto é um caso de sucesso. Sendo um filme capaz de entreter o típico movie goer, consegue também saciar a fome e a vontade de ver as coisas bem feitas dos fãs das bandas desenhadas e filmes animados (foco central do negócio da DC até aos dias de hoje, ao contrário de outras companhias). Existem certamente pontos fracos neste filme, como existem em quase todos, mas nunca será um filme pior do que Daredevil ou Fantastic 4, como alguns críticos dão a entender. Com estas falhas, Suicide Squad tornou-se ultimamente num bom filme baseado em bandas desenhadas, e um que ficará para a história pela originalidade do seu conceito mais do que pela genialidade da sua execução. Conseguiu ser um filme aliciante, mas não o home run que a DC quis fazer.

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Sendo este um filme sobre vilões, falemos primeiro sobre isso mesmo: não devemos entrar na sala de cinema à espera de encontrar um (ou melhor, apenas um) espetacular e memorável vilão. Toda a premissa deste filme é a de nos fazer questionar todos os dilemas morais que tornam os vilões humanos, ultimamente fazendo-os parecer mais heróis do que assassinos psicopatas. Tendo já isto em conta, é óbvio que esta super equipa mede forças contra um mal maior que ela própria. E não é por acaso que este ficou tanto tempo em secretismo, não é por acaso que não foi largamente publicitado, como todos os outros membros deste filme: este vilão não é genial. Nem necessitava de o ser, pois o foco do filme não é o tradicional, em que uma equipa tem de chegar um pouco mais longe do que pensava ser possível para derrotar um mal inimaginável de forma a salvar o mundo. Esta passa a ser a história secundária de um filme que se foca nas relações pessoais e problemas morais de um batalhão de pessoas que por variadíssimas razões viveram fora da lei durante décadas. Dizer muito mais sobre este vilão seria dizer a mais, e estragar alguma da piada do filme. Apenas estejam preparados/as para que este seja o principal ponto fraco do filme, sendo que o plano e percurso deste vilão nunca aparece bem definido, é um personagem com algumas falhas na sua conceção, alguém sem um objetivo bem definido. O que nem sempre é um mau aspeto, alguns dos maiores vilões da história do cinema tiveram o seu nome marcado na mente dos entusiastas da sétima arte com prestações sem um grande objetivo ou intuito que não o de causar destruição (sendo o Joker de Heath Ledger o expoente máximo desta categoria). Não sendo sempre algo de repreender, neste caso é, e este vilão podia ter sido melhor explorado (ressalvamos novamente que este não é de todo o ponto principal do filme).

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Falámos do principal ponto negativo deste filme, e de facto ele tem outros: por vezes este filme tenta ser mais do que aquilo que deve ser, à la Batman v Superman, por vezes encontramo-nos em pontos baixos em que a ação parece não desenvolver muito (exatamente o oposto de Batman v Superman), e por vezes a palete de cores e o design do cenário fazem-nos semicerrar os olhos para conseguir apreciar a beleza que de facto ficou escondida por detrás de camadas de escuridão que em muitos momentos não eram necessárias. Agora falemos das coisas boas do filme. Tal como todos nós temos preferências quanto a atores, realizadores, criadores de bandas sonoras e muitos outros cargos da produção do cinema, também todos nós, mesmo que não pensemos muito nisso, temos uma ideia de como uma personagem deve ser quando retirada das linhas da banda desenhada e levada para um ecrã. Foi isso que criou divisão entre fãs e críticos em Batman v Superman (e também em Man of Steel), e é certamente isso que cria divisão novamente neste filme. Abordando uma imagem de uma banda desenhada como um frame de um filme, por cada imagem que temos nas páginas, ficam 23 outras por mostrar, isto apenas num segundo de vídeo. É normal que cada pessoa construa na sua mente essas 23 restantes imagens (é essa a beleza da banda desenhada) e é isso que leva a que várias pessoas imaginem a mesma personagem de maneiras diferentes. Falando como um fã de longa data do trabalho da DC Comics, todos estes personagens encheram essas 23 imagens da maneira que eu esperava, e que eu queria ver no cinema. Não só neste filme, mas também no resto do ainda pequeno universo cinematográfico da DC Comics. Este elenco é absolutamente sólido, repleto de prestações brilhantes, no sentido de se aproximarem quase ao milímetro do que eu (e certamente muitos outros fãs) esperava que fossem os movimentos, gestos e maneirismos dos personagens que até agora só tinha visto em impresso ou levados ao ecrã através da animação.  A estreia da favorita dos fãs Harley Quinn no grande ecrã foi genial, sendo Margot Robbie perfeita para o papel, aliando uma grande parecença física com as últimas versões da vilã a uma prestação em frente às câmaras que terá sido até hoje a mais desafiante da carreira da ainda jovem atriz. Esta versão da vilã, sem querer dizer demais, mostra-nos tão bem o seu lado psicopata como o seu lado humano, algo que tinha sido pouco explorado até agora nas bandas desenhadas, mas que foi encarado neste filme com precisão cirúrgica. Will Smith foi talvez o motor deste filme, o papel mais bem conseguido e a prestação mais invejável por parte dos seus colegas. Smith interpretou a mais recente versão de Flloyd Lawton, mais conhecido como Deadshot, um assassino por contrato que não falha um único tiro. Esta encarnação da personagem é munida de um forte sentido de justiça, apesar de a fazer pelas suas próprias mãos, algo que traz muita piada ao personagem. Há muito que não éramos presenteados com a versão carismática e brilhante do Will Smith dos blockbusters de verão, e David Ayer foi simpático o suficiente para nos dar essa prenda. Viola Davis, vencedora de um Óscar da Academia, não viu o seu talento ser deitado fora ou subvalorizado, o que era um medo real do público que não está a par da implacável Amanda Waller (personagem que Davis interpreta). A atriz assinou uma performance muito sólida e levou ao ecrã a melhor versão de Amanda Waller de que há memória.

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Os restantes membros do elenco assinam também eles papéis sólidos e bem conseguidos – até Jai Courtney consegue ser muito melhor do que aquilo a que nos habituou em filmes como Terminator: Genisys ou a saga Divergent. Certamente foi um alívio para os fãs, e conseguiu ser uma das personagens que mais cativou o público das salas de cinema. Com um pequeno mas sólido papel no filme, Ben Affleck volta a mostrar que consegue ser a melhor versão de Batman no cinema (leia-se melhor como a mais próxima do material de fonte), e fez-nos salivar por mais (continua a ser tão estranho dizer isto de Ben Affleck).  Se alguém merece uma crítica mais dura, esse alguém é Cara Delevingne. O mais triste neste caso é que é impossível culpar a atriz por causa desta prestação. Cara viu-se inundada nos efeitos especiais que a sua personagem pedia, e também nas distorções vocais que a ela foram aplicadas sem grande razão de ser.

Chegamos ao momento da verdade para os leitores: a primeria encarnação de Joker desde a verdadeira obra-prima que foi a performance de Heath Ledger em The Dark Knight. Os filmes são algo subjetivo demais para serem catalogados como bons ou maus. Esta analogia anda de mãos dadas com o Joker de Jared Leto, o homem sobre quem caiu a tarefa impossível de voltar a interpretar o personagem que ficou na história pelas mãos de Ledger. E apesar de não vermos tanto como esperávamos deste personagem, pode-se dizer o mesmo do que se diz sobre o Batman de Ben Affleck: este é um Joker mil vezes mais fiel àquele criado por Bob Kane em 1940 do que o do seu predecessor. Se o geral movie goer vai gostar tanto ou mais desta versão do palhaço do crime já é outra história, mas para os fãs de longa data da DC Comics, este é o verdadeiro Joker, tal como Ben Affleck é o verdadeiro Batman. É de louvar esta lealdade redescoberta da DC aos seus personagens, uma jogada pensada para agradar os fãs – aqueles que, como tem sido nas últimas décadas, com ou sem Suicide Squad, têm mantido a empresa viva e a assinar material de qualidade, seja dentro ou fora do ecrã. Ultimamente, a prestação de Jared Leto, e a sua receção por parte do púbico servirá de amostra modelo para a receção de Suicide Quad no geral, e esta pode ser comparada à de Batman v Superman: este foi um filme feito para os fãs (sendo que, como já referido, consegue entreter o público mais geral) e que respeitou os seus desejos e expectativas. Trata-se de um filme genial para os amantes de longa data destas personagens, repleto de pequenos acenos de cabeça e apontamentos que nos levam às bandas desenhadas mais famosas da história da DC Comics, e fazem um muito melhor trabalho do que a trilogia de Nolan (para dar um exemplo) em levar as personagens da gigante americana fielmente ao ecrã. Pode, no entanto, não ser do agrado de todos, mas em nenhuma circunstância este filme pode ser classificado como tão mau ou pior do que os que definiram os horrores que se podem fazer ao género (voltam a surgir Daredevil e Fantastic 4, curiosamente ambos da Marvel).

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No seu melhor, os filmes baseados em bandas desenhadas podem ser das mais memoráveis e teátricas experiências disponíveis para o público do cinema. No seu pior, representam tudo o que está mal no mundo moderno de Hollywood e fazem-nos sentir vazios por dentro, tristes e despidos de algo que significa muito para os fãs. Suicide Squad não está em nenhuma destas categorias, mas certamente se aproxima mais da primeira, sendo que tudo depende das expectativas e perspetivas da pessoa que se encontra a ver o filme. Pode não ser este o filme que vem salvar todo o Universo da DC Comics, mas os vilões não foram feitos para salvar o mundo. Neste caso, conseguiram concretizar uma tarefa que se adivinhava por si só complicada: impedir que este universo se afundasse, muito devido aos críticos que se tentam passar por fãs. Ah, e fiquem na sala durante os créditos!

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