‘Suicide Squad’: disfuncional e cheio de clichés

7 AGOSTO, 2016 -

Hollywood e os grandes estúdios apostam cada vez mais (e erradamente) numa trailerização dos seus filmes, que, não interferindo directamente com a qualidade dos mesmos, fazem pelo menos uma de duas nocivas coisas a quem os quer ver: aos mais facilmente impressionáveis (uma categoria em que, admitamos, é fácil cair) cria expectativas excessivamente elevadas e que dificilmente serão cumpridas; aos mais susceptíveis e melindrosos com o conteúdo do mesmo, retira-lhes grande parte da experiência ao dar-lhes já quase toda a história. Em ambos os casos. o trailer, como produto de marketing que é, faz o seu trabalho. A promoção é. para estes grandes estúdios, o mais importante, e o resultado final (o filme em si) deixou de importar, sendo a forma como é vendido a razão última para se declarar o sucesso ou não do mesmo e não a forma como é recebido pelos fãs.

Do trailer, dado há já largos meses, mantém-se a portentosa e corpulenta banda sonora. Ainda assim, deve haver um equilíbrio, pois tendo um importante papel ao longo do filme chega até a sobrepor-se ao diálogo em algumas das cenas iniciais. Já não se trata de um trailer e a banda sonora deve ter o seu próprio e natural espaço, não um forçado criando sensação de sobreposição. No entanto não é um problema que a Seven Nation Army dos White Stripes não possa resolver agregando novamente o público criando o consenso de que está tudo bem (ainda que por poucos segundos).

Os reais problemas vêm no que se passa em ecrã. O realizador David Ayer, realizador de filmes como Harsh Times, Fury, Training Day ou o excelente End of Watch, foi aqui confinado a um espaço reduzido de tempo e liberdade criativa que tornaram este Suicide Squad numa obra forçada e de escrita leviana, fácil, despachada, simplista e repleta de clichés desnecessários em momentos em que se pedia algo anárquico como de resto são os anti-heróis desta história. Suicide Squad, salvo alguns momentos que o já falado trailer faz questão de nos mostrar previamente, não tem o tom imprudente, psicadélico e até Deadpool-esco que toda a história deveria ter.

Desde logo, a apresentação dos principais intervenientes da história é praticamente reduzida à dos dois principais criminosos desta Task Force X reunida por Amanda Waller (Viola Davis): Deadshot (um muito bem conseguido Will Smith) e a infame Harley Quinn (Margot Robbie). Os antecedentes de cada um deveriam ter sido mais explorados, sobretudo face à pouca possibilidade que há de terem filmes sobre si, ao contrário dos acima referidos. Captain Boomerang (Jai Courtney), Killer Croc (Adewale Akinnuoye-Agbaje), Katana (Karen Fukuhara) e El Diablo (Jay Hernandez), foram confinados a míseros segundos de apresentação, sendo que pelo menos este último mostra, nas suas poucas falas, mais conteúdo que a maioria dos seus pares, o suficiente para o tornar numa das agradáveis surpresas (pela positiva) deste filme. Já Spliknot (Adam Beach) tem apenas o tempo estritamente necessário em ecrã para que se possa dizer que fez parte do filme e constatar a sua habilidade especial (escalada).

Salvo algumas linhas de texto que parecem de inspiração momentânea e prontamente seguidas por uma qualquer frase absolutamente dispensável, lembrando-nos que não estamos na presença de um filme com cabeça, tronco e membros, e El Diablo, Harley Quinn, mas sobretudo Deadshot e Amanda Waller, são os poucos pontos de referência. As suas personagens foram enormemente mal exploradas no filme, ficando o desejo de os poder ver num que seja minimamente pensado e criterioso, como este Suicide Squad não foi. As apresentações estão feitas, fica a faltar conhecê-los realmente.

Ao contrário do que era previsível, o Joker acaba por ser outra das desilusões. Jared Leto habituou-nos a conquistar o grande ecrã (recordamos, entre outros, o seu fantástico papel em Dallas Buyers Club), mas este Joker, por mais injustas que sejam as comparações, não consegue ser minimamente marcante como foram Jack Nicholson ou Heath Ledger. Não só pelo aspecto algo teen e frágil que não se antevia nas imagens que ao longo dos últimos meses foram saindo sobre este Joker, mas também pelo pouco tempo em cena e pela pouca capacidade de se mostrar minimamente ameaçador, gangster ou qualquer outro adjectivo que se lhe impusesse que fosse. Prejudicado ou não pelas parcas vezes em que aparece, o peso de interpretações marcantes como as já citadas colocava em cima dos ombros de Jared Leto a obrigação de conseguir tornar a personagem do Joker um pouco sua também. Tal não aconteceu, pelo menos neste Suicide Squad onde apenas serviu de adereço à sua amada Harley Quinn (nem que o pretexto fosse apenas o de trocarem umas mensagens via SMS durante tiroteio).

Num filme onde a Viola Davis é a verdadeira badass, a Margot Robbie é a musa irreverente que se pedia que fosse. Uma musa que soube vestir a pele da personagem resultando num dos verdadeiros (e poucos) destaques meritórios neste filme. Margot Robbie conquistou o ecrã e a Harley Quinn, tornando-a sua. Falar do número de close shots das suas (curtas) saias pode ser bem-intencionado, mas apenas vai ajudar a que se retire crédito e atenção de uma das reais coisas de valor que o filme tem: a prestação da actriz australiana. O humor sarcástico, negro e visceral de Harley encaixa-lhe na perfeição. Já Will Smith, além de uma das poucas personagens com algum conteúdo (ainda que forçado como numa das cenas finais), é um Deadshot à altura que nos dá (a par de El Diablo) algumas das melhores cenas de acção de todo o filme.

Como se o filme não fosse já criticável por tudo o que o tem rodeado, a vilã Cara Delevingne consegue ainda assim ser o aspecto mais negativo entrando na categoria de pior vilã com que a DC já nos presenteou. O único filme onde a Enchantress poderia ser uma boa vilã seria provavelmente num qualquer remake de Ghostbusters, nunca num filme como este. A batalha final só poderia resultar no que acabou por acontecer: alguns pormenores de qualidade pelos sujeitos do costume, sentimentalismos de vão de escada à mistura, sequências de batalha absurdas e slow-motions completamente desnecessários. Tudo isto está misturado na parte final confeccionando uma receita forçada, para se ser simpático.

Com tudo isto recai agora sobre os ombros da Wonder Woman o peso de conseguir reunir finalmente consensos num filme desta vaga DC. A prestação de Gal Gadot em Batman v Superman assim o faz antever. Esperemos que quem está por trás do filme também esteja à altura. Em Suicide Squad isso não aconteceu e acabou por resultar num produto final pior que Batman v Superman.

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