Sugestões para leituras de Verão

21 JULHO, 2016 -

Verão. Para muitos a altura do ano em que mais lêem, há mesmo quem afirme não ter tempo durante o resto do ano e use esta estação como expurgador literário.

É a altura do ano em que faz calor (por norma), em que filas de carro se deslocam em direcção ao mar e à areia (e de volta para casa). Quem não goste de ler na areia, pode sempre sentar-se na espreguiçadeira, ou então somente no sofá, trazer a limonada (ou outra bebida à escolha) e recostar-se na busca do seu próximo livro preferido.

Se para alguns a lista de livros por ler é enorme e o difícil é escolher, outros há que não sabem mesmo o que ler. Para ambos, juntei nesta lista algumas sugestões de leituras para o verão (ou para qualquer uma das outras estações, o verão é só um pretexto).

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A Amiga Genial, de Elena Ferrante

Nos últimos tempos tem estado em todo o lado no mundo da literatura. O que é curioso, especialmente sabendo que Elena Ferrante não é mais que um pseudónimo de alguém que ainda não assumiu a identidade desta escritora italiana. Inevitavelmente, tal gera curiosidade. Mas, mesmo sendo um factor fortíssimo no apelo desta obra, Ferrante tem feito o furor que tem feito por ser excepcional e por ter na sua escrita uma força fabulosa. A historia vem-lhe das entranhas.

Este é o primeiro volume de uma tetralogia, no qual acompanhamos a infância e adolescência das duas amigas Lenù (a narradora) e Lila, que mantêm entre si uma relação de amor/ódio, num misto de ciúme, dedicação e compreensão uma pela outra. Se ainda não aderiram à febre Ferrante, não vejo melhor altura que esta para se ser transportado para o meio de Napóles; para o meio da gritaria e da violência, mas também para o meio de uma busca identitária.

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Cidade Aberta, de Teju Cole

Um jovem psiquiatra nigeriano, emigrado nos Estados Unidos da América, vagueia pelas ruas da cidade de Nova Iorque, primeiro, mas também pelas de Bruxelas e Lagos (a Nigeriana, não a portuguesa), enquanto reflecte sobre o espaço, físico e mental, que o rodeia; desde os pássaros que observa, à história dos locais onde se encontra e às pessoas que conhece pelo caminho. Teju Cole leva-nos, através de Julius, numa exploração das construções humanas: as físicas, como edifícios; as mentais, como as que usamos para interpretar o mundo; ou até as que misturam ambos os domínios, como a arte. As várias camadas sobrepõem-se num dos mais perfeitos e subtis exemplos de como a realidade daquilo que somos pode ser, afinal, uma ficção por nós construída e mantida.

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O Retorno, de Dulce Maria Cardoso

A descolonização de Angola (e das outras colónias portuguesas) contada do ponto de vista de um rapaz, que, com a sua família, se vê obrigado a verificar que a bela metrópole da qual toda a vida ouviu falar, afinal não é melhor local que a Luanda que o viu crescer.

Rebenta a guerra e Rui e família são obrigados a sair à pressa de África. Apanham um avião e vêem-se alojados num quarto de hotel no Estoril. Um microcosmos que traz Africa até Lisboa, de onde nunca sairá. O espaço onde Rui vai crescer.

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O Marinheiro que Perdeu as Graças do Mar, de Yukio Mishima

Um escritor obcecado com a beleza, a perfeição e a honra. Viveu tarde demais para ser um Samurai, mas é sem dúvida um dos maiores guerreiros da literatura Japonesa. Suicidando-se através de seppuku quando falha uma tentativa de golpe de estado para restaurar o imperialismo japonês, deixa-nos uma obra perturbadoramente bela.

Neste livro particular leva-nos a acompanhar essencialmente duas personagens: o adolescente Noburu, bom aluno na escola mas secretamente parte de um grupo de rapazes violentos, e o marinheiro Ryuji, o novo companheiro da sua mãe.

Noburu vê em Ryuji um exemplo daquilo que gostava de ser, um exemplo de honra e dedicação a causas maiores, a exaltação do mar, mas as coisas mudam quando se apercebe que nem tudo é tão simples como parece.

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Não Posso nem Quero, de Lydia Davis

Lydia Davis é uma escritora de pormenores, e é sempre a partir deles que constrói as suas histórias, algumas com extensão de várias páginas, outras de apenas uma linha, naquilo a que se pode chamar flash fiction. São acima de tudo retratos humanos, muitas vezes com um desconcertante sentido de humor satírico à mistura. Altamente original, provavelmente da ficção mais inteligente e precisa vinda de terras americanas. Vão dar por vocês a soltar gargalhadas ou a torcer a cara pela aparente simplicidade com que algo tão trivial consegue dar origem a algo tão bom.

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Guerra e Paz, de Lev Tólstoi

Se por um lado se querem leituras leves no verão, por outro, qual a melhor altura para atacar os maiores colossos que não aquela em que temos mais tempo para lhes dedicar?

Já muito foi dito sobre esta obra, desde o seu tamanho, que a coloca entre as maiores da literatura mundial, à variedade que povoa toda a história. Um relato da vida de várias personagens, de diversas famílias, durante o período marcado pela invasão Napoleónica à Rússia, em 1812, é, acima de tudo, uma reflexão acerca do lugar do Homem no mundo. Há de tudo para nos deliciarmos: desde os enormes serões, salões e bailes da aristocracia russa do séc.XIX, com as respectivas intrigas, às mais exaustivas descrições bélicas, já que ao mesmo tempo que se vai acompanhando a vida em Moscovo e São Petersburgo, se vai acompanhando a campanha do exército Russo.

E mais, o que pode ser melhor que mergulhar em campos de batalha nevados, enquanto se está sob o sol tórrido, na areia?

 

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