Stefan Zweig, o reinventor do Humanismo

16 FEVEREIRO, 2017 -

Stefan Zweig foi um dos escritores mais prestigiados e profícuos nas décadas de 20 e 30, tornando-se biografado no filme “Stefan Zweig: Farewell to Europe“, da alemã Maria Schrader. No entanto, constrangimentos ligados à ideologia nazi levaram-no a exilar-se em alguns países americanos, incluindo no Brasil. No que toca à sua produção literária, este austríaco redigiu diversos romances que cruzavam as suas preocupações e apoquentações sociais e existenciais. Esta sensibilidade apurada levou ao seu suicídio, efetuado em conjunto com a sua esposa. Uma despedida forçada do continente que nunca deixou de sentir, mesmo à distância de um oceano turbulento e ebulido na sua alma.

Stefan Zweig nasceu em Viena no dia 28 de novembro de 1881, no seio de uma família judaica relativamente abastada. A sua formação pessoal e académica deu-se numa fase em que existia uma crescente produção literária, artística e científica na Europa Central, evidenciada por nomes como Franz Kafka ou Carl Jung, e pela obra dos pintores austríacos Gustav Klimt e Egon Schiele. Zweig licenciou-se assim em filosofia na Universidade de Viena e, com somente vinte e dois anos, tornou-se doutor nessa área com uma tese sobre o francês Hippolyte Taine, um dos principais proponentes do positivismo desenvolvido pelo seu compatriota Auguste Comte. Durante estes anos em que se formou e em que se dedicou à escrita, Zweig privou com figuras como, por exemplo, Sigmund Freud.

Não obstante as suas raízes, a religião não foi fulcral para o seu crescimento, sendo que os seus pais não seguiam os ditames da tradição judaica. Mesmo assim, o diálogo literário sobre estas origens consta na sua obra, abordando-as no seu livro “Buchmendel” (1929), conto que aborda a vida de um vendedor de livros cuja atenção que os outros lhe atribuíram mudou repentinamente do pré para o pós-guerra. Apesar de convicto internacionalista e europeísta (conforme clarifica a sua autobiografia de publicação póstuma “The World of Yesterday“), não foi alheio ao sionismo (teoria que defende a autodeterminação do povo judaico e a existência de um estado independente para este), mantendo boas relações com Theodor Herzl, criador da ideologia sionista e, na altura, editor literário do principal periódico vienense “Neue Freie Presse” e embaixador da publicação de alguns ensaios da autoria de Zweig.

Durante o período bélico, entre 1914 e 1918, o autor trabalhou nos arquivos do Ministério de Guerra austro-húngaro, apesar de assumir uma postura publicamente pacifista. Em 1920, Zweig casou-se pela primeira vez com Friederike von Winternitz, que chegou a publicar um livro sobre o seu ex-marido após a morte deste. O divórcio ocorreria em 1938 e, logo no ano seguinte, o escritor contrairia matrimónio com a sua secretária Elisabet Almann, já fora do seu país.

Esta ausência do seu país deveu-se ao tal exílio, motivado pela ascensão ao poder germânico de Hitler, e que levou a que as suas obras fossem queimadas em praça pública. Assustado com a ideologia antissemita, Zweig deixou a Áustria em troca de Inglaterra, vivendo tanto em Londres como em Bath. Esta emigração não foi a única que se associou à sua vida, juntando-se a esta a ida para o outro lado do Atlântico, vivendo em Nova Iorque e em New Haven durante dois meses, aqui como convidados da Universidade de Yale. Pouco depois, em agosto de 1940, Zweig e Almann passaram a viver no Brasil, numa montanha outrora povoada por emigrantes alemães de nome Petrópolis e designada por cidade imperial. Apesar da distância física das suas origens europeias, as angústias sentidas pelo crescimento galopante da intolerância e do autoritarismo nazi, Zweig tornou-se cada vez mais deprimido e descrente em relação àquilo que seria o futuro da humanidade. Assim, e no dia 23 de fevereiro de 1942, o casal foi vítima de uma overdose de barbitúricos e da sua reação tóxica, tendo o autor deixado uma nota na qual transpira o desespero pelo que seria o futuro da cultura e da estabilidade europeias e onde é reforçado o valor e a alegria do trabalho intelectual como forma idílica de fechar a vida. A casa onde este casal se suicidou, ainda no Brasil, designa-se agora por Casa Stefan Zweig e é nada mais nada menos do que um centro cultural.

A tragédia do intelectual é que se sente atraído pela plenitude da vida e tem de ficar atado à sua tarefa, ligado aos deveres que impõe a si mesmo, amarrado ao ordenado, ao prosaico.

Pela sua itinerância, Stefan Zweig tornou-se num literato bastante conhecido pelas regiões por onde passou, tanto pela Europa como pela América. Apesar disso, nunca se tornou célebre em terras de sua Majestade, assim como se foi desvinculado das atenções norte-americanas. Porém, e por iniciativa de algumas editoras nacionais, as suas obras voltaram a ser difundidas e revalorizadas. Quanto ao estilo literário em si, a crítica divide-se em opiniões tanto positivas como negativas. As positivas valorizam a sua simplicidade, o humanismo que as suas palavras transportam e a eficácia das mensagens no sentido do leitor. Quanto às opostas, classificam o seu estilo como pobre e ligeiro, sem a devida tensão e densidade emocional. Apesar deste conflito, expressa-se uma linha identitária da sua personalidade criativa, onde narrativas consistentes se consolidam na tal humanização que as suas palavras transportam. A carga emocional, apesar de leve e superficial em algumas obras, cresce em dimensão na metamorfose que tem lugar na alma de Zweig, na tal espiral motivada pela repressão política e social.

Como obras notáveis da sua autoria, surgem “Amok”, “Letters from an Unknown Woman” (ambas de 1922 e tendo a segunda uma adaptação cinematográfica em 1948, dirigida por Max Ophüls), “Confusion” (1927), “Beware of Pity” (1939) e “The Royal Game” (1941, antecipando a sua morte). No primeiro livro, Zweig aborda elementos da psicanálise, suscitados e explorados pelo seu relacionamento com Freud, e aborda uma obsessão por uma mulher que leva o protagonista à loucura. O termo “amok” deriva da língua malaia e significa um ataque em massa repentino perpetrado por um indivíduo em relação a pessoas ou objetos. A outra obra, de 1922, leva a que um leitor de uma carta escrita por uma mulher de quem se esqueceu o encaminhe para a história de vida dessa mulher. Por sua vez, “Confusion” estuda a relação de um estudante e de um professor que muito lhe ensina, tornando-se no seu ídolo; “Beware of Pity” tem a curiosidade de ser uma das principais fontes do filme “Grand Budapest Hotel” (2013), de Wes Anderson, e conta a história de um jovem tenente que visita o castelo de um rico aristocrata húngaro e que se apaixona pela sua filha, paralisada, mas que receia publicitar esse amor pelo receio da opinião alheia. Por fim, a sua última obra navega por um abismo narrativo (do original mise en abyme, popularizado por André Gide), numa prolongada analepse no qual se descreve as peripécias da personagem Dr. B, misteriosa figura que derrota o campeão mundial de xadrez Mirko Czentovic. Já no Brasil, construiu uma pequena obra (“Land of the Future“, de 1942) onde analisou com detalhe e precisão a realidade e a cultura do país. Como colecionador inveterado de manuscritos, reuniu autógrafos de compositores, como Johann Sebastian Bach, Richard Wagner ou Joseph Haydn

Para além das narrativas, também algumas biografias do seu cunho pessoal foram celebrizadas, escrevendo sobre Erasmo de Roterdão, Fernão de Magalhães ou Maria Antonieta, esta última transposta para um filme de 1938, realizado por W.S. Van Dyke. A autobiografia (“The World of Yesterday“) que deixou é reconhecida atualmente como um artefacto importante relativamente a como se vivia na Europa Central no final do século XIX e no início do século XX. A relação próxima com o compositor musical Richard Strauss levou a que se aventurasse na redação de libretos, em especial “The Silent Woman” (1935), onde encarou os obstáculos impostos pelo recém-chegado nazismo. No libreto em si, escreveu sobre um capitão da marinha retirado e as suas aventuras e desventuras com o sobrinho e com uma chegada de uma ardilosa mulher. A obra tornar-se-ia banida por conter o nome de Zweig, judeu de nascença, nos créditos do programa da ópera.

Stefan Zweig é um dos espelhos daquilo que foram anos muito profícuos na evolução e produção científica e cultural. Na literatura, com diversas obras da sua autoria, o austríaco deixou a sua marca com uma vasta gama de temáticas e de métricas discursivas. Sofrendo na pele as agruras de um cidadão judeu nos anos 30 e 40, foi com especial e particular comoção que sentiu e viveu as divergências desses tempos. Uma obra que, apesar das críticas e das turbulências, se perpetuou como fonte inestimável de um tempo que, pelas melhores e piores razões, será sempre memorável.

Trailer do filme “Stefan Zweig: Farewell to Europe“, da alemã Maria Schrade, que estreia em Portugal a 23 de Fevereiro:

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