‘Silence’, a provação da fé num excelente filme sobre religião

23 JANEIRO, 2017 -

Sonho antigo de Martin Scorsese, Silence finalmente chega às salas de cinema depois de ter passado mais de duas décadas desde que começou a ser idealizado pelo realizador. Baseado na obra homónima de 1966 de Shusaku Endo, este novo filme de Martin Scorsese onde dois padres jesuítas portugueses viajam até ao Japão tem mais de Apocalypse Now de Francis Ford Coppola que propriamente de The Wolf of Wall Street, o seu anterior sucesso nas salas de cinema. A fórmula de entretenimento mais convencional – mas meritório em igual porção – cai aqui em Silence dando espaço a um filme mais soturno, atmosférico, inquietante, e que encontra questões sem nunca dar respostas.

Nos momentos iniciais do filme, Martin Scorsese priva-nos do elemento visual, mas dá-nos o auditivo. Com a tela em preto, temos o som de grilos, o som da vegetação e das ondas. Sabemos estar entre a natureza ainda que não o possamos ver. Pouco depois, essa perfeita “banalidade” de sons absolutamente naturais é irrompida pelo som do sofrimento, da dor. O homem está entregue a si mesmo e aos seus limites físicos e ideológicos.

O Padre Ferreira (Liam Neeson), que nos aparece no início do filme, é posteriormente acusado de ter apostatado, renunciando assim à fé cristã. A base desta notícia são rumores que chegam até ao Padre Valignano (Ciarán Hinds) e que este prontamente são comunicados ao Padre Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e ao Padre Francisco Garupe (Adam Driver), discípulos de Ferreira que, não acreditando no sucedido, partem rumo ao Japão na busca do seu mentor.

Scorsese não se coíbe de nos chocar na altura de mostrar as atrocidades e torturas por que passavam aqueles que se atreviam a acreditar numa religião que não aquela permitida no Japão durante o século XVII, os kirishitans. Logo ao início, Rodrigues pergunta aos aldeões “como é que vocês conseguem ser cristãos no meio de tanto perigo?” “Rezamos em segredo”, respondem-lhe. A crueldade com que as imagens nos chegam, não são para efeitos meramente visuais. Esses momentos existem para chocar e para, em última instância, nos provocar a dúvida sobre a qual se debate em parte o filme: “Seríamos nós capazes de praticar a nossa religião ou a nossa fé no meio de tanto perigo?” ou ”até que ponto aquilo em que acreditamos se irá sobrepor ao medo resultante das ameaças a que somos alvo?” Mas mais, o filme coloca-nos ainda sobre a difícil decisão de caracterizar como verdadeiramente cristão abdicar da própria fé em prol de outros, ou manter a mesma apesar de tudo.

O que é então este “silêncio”? Será uma consequência de uma inacção de uma entidade superior ou, em vez disso, uma manifestação por si só que nos deixa com o nosso próprio silêncio e existência? Não é só isso que Silence questiona, debruçando-se também sobre o valor do perdão através de uma prestação até certos pontos cómica de Kichijiro (Yosuke Kubozuka), incapaz de manter as suas promessas e lealdade para com o Padre Rodrigues, correndo de seguida para o mesmo pedindo-lhe perdão, funcionando assim como um personal Judas do mesmo.

A temática alarga-se ao longo do filme para a liberdade religiosa levantando também questões interessantíssimas em relação a qual o direito que a igreja teria para levar avante os seus objectivos em terras alheias ou “o sonho egoísta da Igreja em tornar o Japão cristão”, como é referido em certa altura. Os melhores diálogos surgem entre Rodrigues e algumas das personagens japonesas, nomeadamente Inoue (Issei Ogata) e o seu tradutor, interpretado por Tadanobu Asano que juntos proporcionam as melhores interpretações ao longo do filme a par da de Adam DriverYoshi Oida. Inoue e Rodrigues discutem a certa altura sobre o papel da religião de cada um no Japão. O interessante aqui é que Martin Scorsese apesar de na maior parte do filme mostrar a perseguição de que eram alvos os cristãos, aqui perante a “outra parte”, recusa-se a tomar partidos pois finalmente temos a outra versão dos factos e uma reflexão por parte das duas personagens do papel de cada uma das suas religiões no Japão.

Ao analisar este Silence, torna-se quase inevitável não o comparar também ao filme de 1971 (Chinmoku, no seu título original), igualmente baseado na obra literária de Shusaku Endo. Se boa parte da obra segue o mesmo registo, é interessante ver como este filme de Scorsese se perde – e nos perde, enquanto espectadores – num aspecto em que o filme de Masahiro Shinoda teve uma das suas grandes valências. Ao contrário de Chinmoku, este novo Silence foge à premissa dada pelo seu próprio titulo ao abusar de momentos de narração ou de imagética desnecessária usada para nos explicar aquilo que as expressões dos actores deviam conseguir demonstrar por si mesmas. O filme acaba por andar à deriva e perder o seu foco entrando também num facilitismo que não lhe era pedido. Sinais dos tempos ou não, Silence opta por explicar e dizer aquilo que deveria ficar em… silêncio, além de deixar arrastar a sua parte final, algo onde Chinmoku funciona melhor com o seu desfecho mais frio e sem optar pela luz e simbolismo como no final de Silence.

Andrew Garfield, apesar de em certas alturas estar em melhor plano que em Hacksaw Ridge, não tem a profundidade psicológica necessária para a personagem em questão, sendo essa mesma incapacidade disfarçada por todo o conflito superior de que faz parte e por uma representação da época muito bem construída pela equipa de produção do filme.

A mestria de um realizador pode ter várias manifestações. Em Silence, essa mesma mestria destaca-se pela forma como Martin Scorsese consegue tornar numa obra apetecível a todos os públicos um filme que pela sua temática tinha tudo para falhar. Fabricando aqui um dos melhores filmes sobre religião ao mesmo tempo em que questiona os limites da mesma, o realizador americano teve ainda a ousadia de se debruçar sobre um conflito interior e questionamento da fé sob pena de lhe ser apontado uma falta de ritmo que hoje em dia é quase censurável. Tanto faz qual é a temática de um filme ou se a mesma nos diz algo de especial. Se no final houver qualidade, a experiência será sempre (muito) positiva. Talvez seja esta a grande lição a retirar deste filme, além de tudo o que ele aborda.

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