‘Sidereus Nuncius’: Uma epopeia científica pelo telescópio de Galileu

7 MARÇO, 2017 -

O aroma primaveril de Março proporciona momentos de grande inspiração que levam à criação de grandes obras poéticas e de conteúdo lírico. Poderíamos falar da publicação de Os Lusíadas em Março de 1572, do primeiro número da revista Orpheu fundada por Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro e Almada Negreiros em Março de 1915, ou ainda, se quisermos ser mais abrangentes, do primeiro álbum dos Beatles Please Please Me em Março de 1963, ou do lendário álbum The Dark Side of The Moon dos Pink Floyd em Março de 1973.

Todos estes são exemplos de obras com lirismo e musicalidade que nos são bastante familiares e que foram dadas a conhecer ao mundo no mês de Março de diferentes anos. Não é por nada que o dia mundial da poesia se comemore no dia 21 deste mesmo mês, dada a tamanha divulgação de obras de conteúdo poético que surgem nesta época. No entanto, existem ainda outras obras que foram lançadas no mês de Março e que, embora não estejam directamente relacionadas com a poesia ou com o lirismo, possuem conteúdos e elementos que as tornam equiparáveis a grandes obras líricas. Seria interessante recuar até ao mês de Março do longínquo ano de 1610 onde, um ilustre cientista italiano, nascido na cidade de Pisa e que ocupava um cargo de matemático na Universidade de Pádua, recebera uma espécie de orçamento para a construção de telescópios mais poderosos, preparando-se assim para dar a conhecer uma das obras científicas mais vanguardistas de uma era. Esta obra seria inspirada nas suas observações telescópicas, tudo graças às lentes e aos conhecimentos de óptica que adquirira bem como fundamentos teóricos e pressupostos em que se baseara. Sidereus Nuncius, que traduzido do latim para o português significa “O Mensageiro das Estrelas”, seria o nome da obra que ficaria para sempre associada a um dos mais icónicos e brilhantes cientistas de todos os tempos: Galileu Galilei.

Falar de Galileu é muito mais do que falar num simples cientista que se tornou ilustre pelas suas teorias e pela observação dos astros. É falar de alguém que começou por alicerçar os fundamentos da física que hoje conhecemos, que desenvolveu métodos de observação astronómica nunca até à data alcançados, que impulsionou a ciência moderna e que desafiou um sistema inquisitório que visava impor a tese de uma teoria planetária geocêntrica e perseguir aqueles que tentavam provar que de facto a Terra girava em torno do Sol e não o contrário, teoria esta já bastante remota e de origem Ptolemaica e Aristotélica. Galileu, mais do que um ícone da física, da astronomia, da matemática e da ciência, é uma figura que representa a audácia, a ousadia e a coragem que muitas vezes a ciência teve que tomar. A teoria heliocêntrica, oficialmente proposta por Nicolau Copérnico, ganhava seguidores, assim como a ciência ganhava homens dispostos em prová-la. Foi então que, em Março de 1610, Galileu elaborou um manuscrito sobre as suas observações e intitulou-o de Sidereus Nuncius, um nome que daria o impacto necessário a uma obra científica que é vista como uma autêntica odisseia espacial. O título e os detalhes de Sidereus Nuncius fazem com que esta seja mais do que uma obra científica: é também uma odisseia repleta de elementos que lhe confere carácter poético. Assim, este foi o primeiro tratado científico baseado em observações astronómicas realizadas com um telescópio, e contém os resultados de observações da Lua, de observações detalhadas de constelações e nebulosas, e da descoberta das luas de Júpiter, sendo este o ponto alto da obra. Estas observações telescópicas pareciam resolver definitivamente a questão da verdadeira natureza das zonas nebulosas do céu, explicando Galileu que eram exactamente o que se observava também na Via Láctea, cuja verdadeira natureza causara sempre alguma controvérsia.

Tudo começa com uma observação precisa do astro que nos é próximo. As diferentes fases da Lua são o ponto de partida desta viagem tão fascinante e enternecedora. Os relevos irregulares da superfície lunar são bem representados em esboços feitos pelo próprio Galileu, onde é possível verificar-se as crateras bem definidas. Estes esboços foram determinantes para um melhor conhecimento daquele que é o nosso satélite, o astro que nos é mais próximo e que nos acompanha todas as noites. Porém, este apenas era o início da viagem do mensageiro que nos levaria a um mundo totalmente desconhecido. As estrelas, as constelações e outros astros que eram conhecidos pouco detalhadamente foram minuciosamente desvendados nesta obra.

A constelação de Oríon é a primeira constelação sobre a qual Sidereus Nuncius se foca, onde Galileu descreve com a maior minuciosidade as suas observações. Galileu afirma que no seu telescópio é possível ver-se dez vezes mais estrelas desta constelação do que a olho nu. Na constelação Touro apenas se conseguiria ver seis estrelas a olho nu e através de seu telescópio Galileu conseguiu ver cerca de trinta e cinco. Publicou cartas de estrelas destas constelações e do conjunto de estrelas Plêiades, mostrando algumas das estrelas observadas com maior detalhe. A passagem por estes conjuntos de corpos celestes foi o suficiente para serem desvendadas características importantíssimas que até à data se desconheciam sobre elementos astronómicos que eram conhecidos desde a antiguidade.

O clímax desta viagem é atingido quando Galileu relata a descoberta de corpos celestes que não eram visíveis à nossa escala, a partir da Terra, nomeadamente Júpiter e as suas luas. Através de pequenas ilustrações, Galileu mostra a trajectória destes elementos planetários ao longo de vários dias. Relatou a descoberta de quatro objectos que pareciam formar uma linha recta de estrelas. Na primeira noite de observações detectou uma linha de “três pequenas estrelas” próximas de Júpiter e que eram paralelas à eclíptica. As noites seguintes trouxeram arranjos diferentes com o aparecimento de “uma nova estrela”, totalizando quatro estrelas ao redor de Júpiter. Ao longo do texto, Galileu deu ilustrações das posições relativas de Júpiter e das supostas estrelas que giravam em seu torno, utilizando um círculo aberto para representar Júpiter e asteriscos para representar as quatro estrelas à medida que surgiam, tudo isto em observações telescópicas feitas entre Janeiro e o início de Março de 1610. As posições destes corpos celestes relativas a Júpiter variaram de noite para noite e, apesar de serem vistas como corpos cintilantes, seriam mesmo quatro luas de Júpiter (hoje conhecem-se cerca de 67).

Toda esta emocionante viagem faz com que Sidereus Nuncius seja uma epopeia científica, mostrando assim a ousadia e a coragem no desvendar dos mistérios desconhecidos do mensageiro e herói Galileu, que se sujeitou a ser perseguido e julgado pelos tribunais do Santo Ofício. A inquisição, que procurava impingir algum do dogmatismo de toda uma era Pré-Renascentista, perseguia não só os cristãos-novos, mas também aqueles que tentavam desafiar as verdades absolutas assumidas pela Igreja. Depois da publicação de Sidereus Nuncius, Galileu muda-se para Florença, onde permaneceu até à sua morte. Publicou ainda uma série de obras que contribuíram para novos avanços científicos, de entre as quais se destaca também Diálogo sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo, escrita em italiano, e onde fala sobre a inércia da queda dos corpos (isto é, que os corpos caem à mesma velocidade independentemente da sua massa). Estes foram os pressupostos utilizados nas leis de Isaac Newton anos mais tarde. Galileu acabou por morrer em 1642 depois de uma vida inteiramente dedicada à ciência e em constante fuga ao Santo Ofício, onde foi várias vezes perseguido e até julgado. O dedo do meio da sua mão direita foi conservado e encontra-se no Museu Galileu em Florença, sendo este um símbolo da sua eternidade passados quase quatrocentos anos depois da sua morte.

Galileu conseguiu inspirar cientistas que sucederam nas suas pesquisas, assim como filósofos, escritores e até mesmo poetas. O poema mais conhecido sobre Galileu, da autoria do ilustre poeta António Gedeão e intitulado como Poema Para Galileu, remete-nos também para um lado da ciência, do sonho e do modo poético como Galileu nos inspira.

As aventuras pelo espaço foram, todas elas, conduzidas pelo sonho, o sonho de chegar às estrelas, o sonho de ir mais além, o sonho que comanda a vida, como diria o próprio António Gedeão no seu poema A Pedra Filosofal. Foi com o sonho que chegámos ao espaço, à Lua e até a Marte, e numa altura em que a NASA descobriu recentemente sete planetas exteriores ao sistema solar que são semelhantes à Terra, tudo aponta para a continuidade da permanente viagem do Mensageiro das Estrelas. O sonho de conhecermos mais sobre os mistérios do universo permanece, tal como o sonho permaneceu em toda a vida e obra daquele que foi provavelmente o homem e o cientista mais sonhador de sempre: Galileu Galilei.

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