‘Shake the Shudder’, dos !!!, é música para dançar mas não para se ouvir

26 MAIO, 2017 -

Os !!! (conhecidos como ‘chk chk chk‘) continuam a lançar música com um único objectivo: pôr quem os ouve a dançar. Este último, Shake the Shudder, não é excepção. Após os devaneios mais electrónicos e limpos dos dois álbuns anteriores, este novo recupera a crueza do início da carreira, reminiscente do dance-punk que explodiu no início da primeira década deste milénio, muito graças à editora DFA Records, co-fundada por James Murphy, dos LCD Soundsystem. Isso deve-se tanto à sonoridade mais barulhenta, como à produção granulosa e suja.

Esta abordagem faz o álbum assemelhar-se à experiência de ver a banda ao vivo. As canções de ritmos rápidos seguem-se sem grandes pausas para respirar, e o vocalista Nic Offer dá-nos tudo aquilo que tem em performances despreocupadas, mas apaixonadas; como podemos ver na capa, na qual se encontra em notório sofrimento. O mérito deste álbum, então, reside precisamente no modus operandi da banda, mas em pouco mais do que isso. Parece existir mais para providenciar uma nova fornada de canções para os !!! destilarem nas suas incendiárias performances, do que como um esforço por si só.

A intenção de pôr o povo a dançar é tão nobre como qualquer outra, mas convinha que viesse acoplada a alguma carga emocional, a uma mensagem crucial ou até a alguma experimentação, dado que os álbuns não só se dançam, mas também se ouvem, e este perde bastante nessa componente. Ouvir este álbum quando não se pode dançar livremente não é tão entusiasmante, pelo que o ouvinte acaba por ficar cansado sem sequer se mexer, e vai ouvir outra coisa, sem que Shake the Shudder cause grande mossa.

Não que o álbum não tenha a sua quota-parte de bons momentos, como o baixo sujíssimo e a batida chicoteadora da óptima “Things Get Hard”, que se mantém fiel à música em câmara-rápida da banda sem perder interesse; ou “Imaginary Interviews”, que paira sobre teclas de lounge music até ao refrão e coda gloriosas, numa espécie de música de praia em speed. A inclusão de trompetes em “R Rated Pictures” fecha o álbum numa nota leve que permite desenjoar de toda a movimentação do LP.

A banda está claramente a divertir-se ao fazer este conjunto de canções, mas essa diversão não passa totalmente para o ouvinte. Em certas ocasiões, algumas canções até soam demasiado sérias, em termos de estrutura, numa contradição estranha com a posição que a banda assume. Faltam mais momentos brincalhões, como a letra absurdamente divertida de “What r u up 2day?”, em que uma voz processada de criança canta “I can’t seem to find my toys”. A infusão de vozes negras femininas poderia ser um trunfo de genuína diversão, mas é desperdiçado em inclusões genéricas e demasiado lineares, que não se distinguem de tantas outras prestações soul.

Longe de ser um álbum sofrível, Shake the Shudder simplesmente passa por entre as frestas do cérebro e do coração, directamente para os músculos das pernas. Dificilmente regressaremos aqui sem ser pontualmente – talvez como banda sonora para festas de piscina – dado que há muitos outros álbuns interessantes no mesmo género, incluindo dos próprios !!!. Como alternativa, sugerimos o álbum seminal S.T.R.E.E.T. D.A.D., de uma das bandas embriónicas dos !!! – Out Hud – que faz uma mistura de punk e electrónica de uma forma mais inteligente.

No entanto, não perderemos o concerto que a banda dará no festival Vodafone Paredes de Coura, pois será, decerto, uma festa bastante animada. Estamos curiosos para ver os calções com que Nic Offer nos presenteará.

Edição subsequente (27/5/2017): chegou-nos à atenção que os !!! cancelaram a sua actuação no festival Vodafone Paredes de Coura.

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