Será o palco só para profissionais?

25 MAIO, 2017 -

As “borboletas” na barriga tiram a vontade de comer. É a primeira vez que vão subir a palco. Para trás ficaram uns quantos meses de ensaios. Gritam pelo nome da escola. Os professores dizem que está quase na hora. Vestem-se. Maquilham-se. Voltam a olhar para o guião do teatro. Fazem uma última audição das músicas que servem de banda sonora aos passos de dança. Afinam instrumentos. Preparam os pincéis, as tintas e os sprays. Lá fora, a claque está pronta para entrar. Vão até à última ponta da cortina. Veem os pais, os avós, os amigos, os professores (aqueles de que gostam e de que não gostam) e os funcionários da escola. Abre a cortina. O espetáculo vai começar.

Esta é só uma das treze noites de um festival artístico chamado “Escolíadas Glicínias Plaza”, onde milhares de jovens de Aveiro, Coimbra e Viseu têm hipótese de pisar o palco de quatro salas de espetáculos da região centro. Alunos, professores e funcionários, oriundos de escolas secundárias e profissionais, públicas ou privadas, encenam, coreografam, compõem, produzem e interpretam. A associação Escolíadas trata apenas de fornecer os meios técnicos para que os artistas possam experimentar uma coisa que carece na educação em Portugal: artes.

Só este ano participam nas Escolíadas 21 estabelecimentos de ensino. Em palco 75 pessoas, por escola. Fora de cena é impossível contabilizar os números. Entre cenários, figurinos e pormenores logísticos, é envolvida uma boa parte da comunidade escolar. Já em termos de público não restam muitas dúvidas: noites esgotadas atrás de noites esgotadas. Na Casa da Cultura de Ílhavo, as três sessões deste ano esgotaram em 45 minutos e no Centro de Artes e Espetáculos da Figueira da Foz, não foi muito diferente. No Multiusos de Viseu, a sala mais recente de Escolíadas, o público vai crescendo aos poucos. Este ano a bilheteira de Viseu ficou “taco a taco”, com a das outras duas salas.

Para ver o quê? Teatro, música e/ou dança, artes plásticas e… claques. Desse lado, ao falar em claques, já se pensa em futebol não é? Não podiam estar mais enganados. A prova de claque é uma simbiose entre as coreografias carnavalescas e o conceito de “cheerleading”, famoso nos EUA.

Cada escola tem de prestar provas em todas estas áreas. Uma peça de teatro com um máximo de 13 minutos, uma prova de música e/ou dança com um máximo de sete minutos, uma prova de artes plásticas realizada numa hora e as tais claques, que estão presentes em palco durante toda a sessão e que têm dois blocos de minuto e meio para se fazerem sobressair. Tudo isto num conceito de educação não formal, a fim de suprir as limitações curriculares das escolas.

Já lá vão 27 anos e 28 edições. Corria o ano de 1990 quando as Escolíadas entraram pela porta da discoteca “Outro Mundo” na Quinta dos Três Pinheiros, Mealhada. Com o crescimento do festival artístico, o acolhimento de mais escolas e a necessidade de proporcionar melhores condições ao público, em 2010, as Escolíadas passaram a realizar-se, progressivamente, em salas de espetáculos. Hoje, a Casa da Cultura de Ílhavo, o Centro de Artes e Espetáculos da Figueira da Foz, o Teatro Aveirense e o Multiusos de Viseu recebem as noites (e tardes) “escoliásticas”. Ainda há um desfile de claques, no centro comercial aveirense que dá o naming ao evento, e uma gala de entrega de prémios, no Cine-Teatro da Mealhada.

“O aluno descobre o homem e o professor descobre o jovem”

Daniel Pennac, um dos mais conceituados autores franceses da atualidade, comparou os alunos do século XXI a cebolas:

“O que entra na sala de aula é uma cebola: algumas camadas de tristeza, de medo, de inquietação, de rancor, de raiva, desejos insatisfeitos, de renúncias furiosas, acumuladas sobre um fundo de passado humilhante, de presente ameaçador, de futuro condenado. Reparem, vejam-nos chegar, o corpo em transformação e a família dentro da mochila. A aula só poderá começar realmente depois de poisarem o fardo no chão e descascarem a cebola. É difícil de explicar, mas às vezes basta um olhar, uma palavra amiga, um comentário de adulto confiante, claro e estável, para dissolver estas mágoas, aliviar os espíritos, instalá-los num presente rigorosamente indicativo.”

Pedagogicamente, Cláudio Pires, presidente da Escolíadas Associação e mentor do festival artístico, afirma que as Escolíadas propiciam a descoberta do “homem e do jovem”, para lá da relação entre aluno e professor.

Fomos ouvir duas escolas presentes na edição deste ano das Escolíadas. A Escola Secundaria Dr. Jaime Magalhães Lima, de Aveiro, já venceu o festival artístico em três ocasiões (2011, 2013 e 2014). Já a Escola Profissional Vasconcellos Lebre (EPVL), da Mealhada, realizou a sua primeira participação na 28ª edição das Escolíadas.

Na Jaime Magalhães Lima a tarefa de garantir uma equipa para participar já foi complicada. Mas desde 2010 tudo isso mudou. A escola começou a organizar castings internos para selecionar os alunos que iriam fazer cada prova. Já a EPVL teve que motivar os alunos para concretizar o seu primeiro ano de participação no festival artístico.

As Escolíadas não pressupõem a formação de atores, atrizes, bailarinos ou bailarinas, artistas plásticos ou músicos. Pretende-se sim a formação de públicos. Sejam eles ativos ou passivos, lê-se na missão da associação. Tal consciência cultural é alimentada através da promoção das artes mas também através da “cidadania e do espírito de grupo”.

1º ALUNOS – O porque de Escolíadas

Como é que os alunos sentem Escolíadas e o que é que eles retiram do festival artístico? Uns, por força dos sonhos que têm, sentem que estar no palco escoliástico é o início de um caminho no mundo das artes; outros, “porque em Portugal o universo artístico não dá para todos”, procuram alimentar hobbies e paixões retraídas que um dia ficarão fechadas em escritórios, fábricas, consultórios ou oficinas; por último, ainda há daqueles que estão entre estes dois e que esperam um sinal que lhes ilumine o caminho. De uma forma ou de outra, aquilo que de melhor retiram do festival artístico é a experiência, o convívio e os múltiplos processos de aprendizagem da educação não-formal que vivem.

2º ALUNOS – o que retiram das Escolíadas

Crescer para lá da região centro

Depois da associação Escolíadas quase ter posto fim ao festival artístico, por falta de financiamento, está a passar agora por uma grande fase de crescimento. A candidatura a um fundo de financiamento do “Portugal 2020” vai permitir à associação abrir novos caminhos para o festival Escolíadas Glicínias Plaza. O objetivo é aumentar para o dobro o número de escolas participantes, dar formação a futuros colaboradores e melhorar as condições técnicas e logísticas do evento. A par deste crescimento têm aparecido outras atividades como o “Escolíadas Júnior”, destinado a escolas do 1º ciclo do ensino básico e cuja dimensão a médio prazo se perspetiva tão grande como a do festival artístico do ensino secundário. No meio deste fervor artístico direcionado para os mais jovens, ainda há espaço para colaborar em produções culturais do concelho sede da associação (Mealhada) e para trabalhar na construção de outros projetos de educação artística em Portugal.

Para já, a 28ª edição das Escolíadas Glicínias Plaza vai rumar até ao Teatro Aveirense, onde irão atuar as nove escolas mais pontuadas de Aveiro, Viseu e Coimbra. Serão três noites de espetáculo, onde em cada uma delas decidir-se- á o vencedor de cada pólo. Para esta etapa já só há bilhetes para o espetáculo de sábado e de domingo. Seguir-se- á a finalíssima, com o estabelecimento de ensino vencedor de cada pólo, para apurar o grande vencedor de 2017. Nisto tudo, existe apenas uma certeza: os jovens vão continuar a fomentar aquilo que têm de mais profundo. A sua capacidade de criar e a sua vontade de serem artistas, em qualquer que seja a ocasião e em qualquer que seja o domínio.

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