Segundo dia do NOS Primavera Sound

11 JUNHO, 2016 -

Já com os níveis de sol no céu um pouco mais altos que no dia anterior, deu-se início ao segundo e penúltimo dia de concertos no NOS Primavera Sound. Com um alinhamento para este dia com nomes como PJ Harvey, Brian Wilson, Beach House, Empress Of, Floating Points ou Destroyer, as opções foram muitas e para todos os gostos.

A tarde de sol agraciou o primeiro concerto que vimos, Cass McCombs e pode-se dizer que os dois se completaram. O espectáculo, que durou cerca de 45 minutos, foi composto por apenas 6 músicas, dado que McCombs prolongou as músicas, entrando em jams longos que, apesar de agradáveis, por vezes se prolongavam demasiado.
Apesar das poucas músicas, a setlist foi optimamente escolhida, passando por “Don’t Vote”, pela mais recente “Opposite House” (que, em estúdio, inclui vozes de Angel Olsen) e culminando numa “County Line” maravilhosa, que puxou a momentos de comunhão, com o público a mover-se placidamente como uma seara de trigo fustigada pelo vento, constante ao longo do dia.

Logo após Cass McCombs, passamos para Destroyer no palco Super Bock. Deste lado, passamos para um concerto mais soft rock, com direito a saxofone e trompete, que completam as canções melódicas compostas por Dan Bejar, o vocalista.
A influência do álbum de 2015, Poison Season, mais cheio e ruidoso, faz-se ver bem nas músicas mais antigas, que sofreram adição de elementos. Não é algo mau, é simplesmente uma roupagem diferente. É óptimo ouvir as canções de Kaputt, um dos álbuns definitivos do indie rock da última década, tocadas com tamanha dedicação. O fecho do concerto com “Bay of Pigs (Detail)” foi uma deliciosa surpresa. Bejar parecia algo alheado entre as suas cervejas e outras bebidas, mas a reacção efusiva do público a “Dream Lover” deixou-o notoriamente satisfeito e mais expressivo.
Assim como McCombs, foi um concerto extremamente bem escolhido para acompanhar a tarde solarenga que se ia mantendo, apesar do vento que se continuava a sentir.

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Às 20h chegou a vez de um dos momentos mais antecipados deste segundo dia de NOS Primavera Sound, o momento de apreciar como, aos 73 anos, Brian Wilson ainda está com energia suficiente para vir encantar a multidão nostálgica que se juntou em frente ao palco NOS para ouvir o histórico membro dos Beach Boys a tocar o essencial Pet Sounds, a comemorar agora os seus 50 anos fe existência. Mas não foi apenas sobre este que incidiu o alinhamento do concerto. Brian Wilson, sentado ao teclado, de frente para o público, e rodeado pela sua enorme banda, começou o concerto por California Girls e Surfer Girl. Ao fim da quinta música, começa finalmente a interpretação de Pet Sounds, pela mesma ordem do álbum, ou seja, começando com a magnífica Wouldn’t it be Nice.
Quando chegou a altura de God Only Knows, Brian Wilson introduz a música fazendo referência ao facto de Paul McCartney admirar a canção. O público abraça-se, canta em comunhão e delira. Depois da interpretação de todo o Pet Sounds, ainda houve espaço para mais êxitos de Beach Boys, terminando o concerto com Surfin’ U.S.A e Fun, Fun, Fun, aquecendo os corações com a sua pop feliz.

Foi saltar deste pop de Brian Wilson para outro, mais electrónico, mais furioso, como o da adorável Empress Of. Acompanhada pela sua banda, estendendo-se em graciosos agradecimentos, a americana encantou quem se juntou no Palco Pitchfork para a ver. Inicialmente poucos, com o avançar do concerto e o término de Brian Wilson, a multidão juntou-se chamada pela óptima perfomance, impossível ficar indiferente na zona das comidas, logo ali ao lado. Tocando praticamente na integra o mais recente álbum Me, do ano transacto, temas como How do You do It, Kitty Kat e Standard puseram toda a gente a dançar e um franco sorriso na cara da artista, que dançou durante toda a perfomance, no palco, enquanto cantava. Uma surpresa para quem não a conhecia, uma confirmação para quem já ia à espera de ver um dos melhores concertos do dia.

Um dos quartetos mais cool do panorama musical indie, as britânicas Savages, tomaram o palco Super Bock para mostrar o seu post-punk musculado, dividindo-se entre canções do álbum de estreia Silence Yourself e o mais recente Adore Life.
Apesar da entrega da banda, que dá sempre tudo em concertos, o som não estava adequado. Tanto a voz como a guitarra ficavam enterradas por debaixo do baixo potente, o que acabou por retirar alguns elementos às canções.

Jehnny Beth, a carismática vocalista, incitou o público a mexer-se, dado que ela havia magoado as costas e talvez não desse uma performance tão intensa como costuma dar. Apesar disso, ainda foi ter com o público mais do que uma vez, como tanto gosta de fazer. Para quem ainda não está tão entrosado no álbum mais recente, a entrega das músicas do mesmo deverá ter sido suficiente para mudar opiniões, como aconteceu com “Slowing Down the World” ou “Surrender”. No entanto, as reacções mais entusiastas deveram-se aos estandartes que são “City’s Full” ou “Husbands”.
Vale sempre a pena ver as Savages, mas esperemos que o som esteja melhor da próxima vez.

O ambiente no recém-nomeado Palco. (antes Palco ATP) estava escuro e com tonalidades azuladas e estava tudo pronto para receber Floating Points, em formato live, acompanhado de uma banda. Sam Shepherd, o líder do projecto, dedica-se a construir paisagens electrónicas que activam todos os neurónios certos, ou não fosse ele doutorado em neurociências. Esta é música que vai directamente ao cérebro.

Somada à componente electrónica, a excelente banda adiciona a componente orgânica, com um baixo sinuoso, bateria pulsante e guitarra sensual. Com estes elementos, recriaram as canções de um dos álbuns de música electrónica mais interessantes de 2015, Elaenia, sem serem meramente cópias das versões de estúdio.

Para além da música, o espectáculo de luzes foi fenomenal. Pontos flutuantes (perdoem-me a piada) de luz desenhavam padrões geométricos numa tela circular branca, deixando um rasto verde néon. Impossível desprender o olhar.
A reacção do público foi bastante entusiasta e provavelmente meteu Floating Points no radar, para muitos que não conheciam. Um verdadeiro sucesso!

Enquanto decorria Floating Points no Palco adensava-se a maior massa do dia no Palco NOS para aquele que era o concerto mais esperado e, provavelmente, o melhor deste dia. Em grande aparato, PJ Harvey surge, imperialmente, saxofone na mão, no meio da sua numerosa banda (10 elementos no total). Chain of Keys marca o inicio de uma performance onde, do último disco, deste ano, The Hope Six Demolition Project, só não foi tocada Near The Memorial of Vietnam and Lincoln. Coreografias teatrais, sopros monumentais e arranjos orquestrais. Comunhão quando tocados os melhores momentos da carreira, temas como Let England Shake e The Words That Meketh Murder ou os mais antigos To Bring You my Love, Fiftyft Queenie e Down by the Water puseram o público louco, claramente a comprovar que PJ Harvey era o nome maior do dia.

Mal PJ Harvey terminou a sua óptima actuação, Protomartyr começaram a tocar no palco Pitchfork, dando o seu próprio excelente concerto.
A banda americana correu pela setlist com muita pujança e quase sem pausas. O vocalista Joe Casey manteve-se estóico ao longo de todo o concerto, ao mesmo tempo que dava uma performance vocal potente e invejável, tornando-se numa das personagens mais magnéticas do festival.
O concerto caracterizou-se ainda por ter um som excelente, em que voz, guitarra, baixo e bateria se distinguiam perfeitamente, à medida que a banda debitava as suas canções pós-punk, como “I Forgive You” ou “The Devil In His Youth”.
O público apluadiu e gritou, louvando a banda, que se mostrou muito grata pela recepção calorosa do público português. Esperamos um regresso rápido dos Protomartyr. Até lá, temos os álbuns para nos consolar.

Por volta da 1h25, com cerca de 10 minutos de atraso em relação ao tempo previsto por Kiasmos, no palco ao lado, ter atrasado devido a problemas técnicos no início, começou o concerto de Beach House. Victoria Legrand e Alex Scally, acompanhados por um segundo teclista e um baterista, surgiram por entre a escuridão, Victoria envolta numa capa preta com brilhantes e com um capuz na cabeça, como sempre com a cara escondida por detrás dos seus longos cabelos. Começando com Beyond Love, de Depression Cherry, um dos dois álbuns lançados no ano passado (juntamente com Thank Your Lucky Stars), a performance começou calma, sóbria, apenas com um fundo preto. Mas à segunda música, a óptima Wishes, a transportar-nos para Bloom, as luzes ligam-se, o fundo fica vermelho, e, num concerto que se julgava talvez desajustado a um festival e a tão grande palco como o palco NOS, a força aumenta (a bateria a contribuir para isso), e Victoria liberta-se, abanando furiosamente o cabelo ao som da música. Interagindo diversas vezes com o público, nem sempre num tom muito sóbrio por parte de Victoria Legrand, com referências ao quanto tinham gostado da cidade do Porto e pedidos para o público não perder a sua sensibilidade, num set que ainda dorou cerca de uma hora e meia, mais do que o habitual para um concerto de festival, a banda percorreu os seus últimos quatro discos (não houve temas do primeiro Beach House e de Devotion), com cerca de metade do alinhamento distribuido pelos dois últimos, com temas como PPP, One Thing e a absorvente Elegy to the Void, e a outra metade por Teen Dream e Bloom, com temas como 10 Mile Stereo, a fantástica Take Care, e Myth.

Não tão enternecedor quanto o concerto a solo em Lisboa, há uns meses atrás, fica, no entanto, a ideia de que a banda fez uma óptima adaptação do seu espectáculo a uma situação que não é a melhor para realçar as qualidades de uma música que incita a fechar os olhos e a sonhar.

O NOS Primavera Sound oferece sempre alternativas aos festivaleiros. Quem não se identifica com o dream pop dos Beach House, tinha, para além de Tortoise no Palco, Holly Herndon no palco Pitchfork.
A compositora de música electrónica experimental trouxe consigo o artista vocal Colin Self, e o seu parceiro, que tratou do espectáculo visual. Combinando fundos de escritórios ou cidades modelados em 3D com elementos como maçarocas de milho, cadeados ou fotos de Herndon, era difícil ignorar a componente visual.
Apesar da natureza opressiva das batidas ameaçadoras, o ambiente foi de alegria, com Holly e seus companheiros mostrando-se gratos pela reacção efusiva do parco público que se prostrava em frente ao palco. Para quem queria abanar o corpo de forma desmedida, era este o concerto a ver.

Os Tortoise tomaram o Palco. com uma enorme parafernália de instrumentos. Os veteranos do post-rock são uma banda caricata, em que alguns membros vão desaparecendo de palco de tempos a tempos e em que a postura da banda é curiosa relativamente ao cariz das músicas que tocam.
Começam com pequenas peças que revelam a sua habilidade musical e apetência rítmica, mas quando realmente se destacam é ao tocar canções mais bem construídas. Nesse aspecto, ouvimos “The Catastrophist” e a excelente “Shake Hands With Danger”.
Mas as sobreposições são muitas, o tempo escasseia e abandonamos os Tortoise ao som de “Gesceap”.

O dia terminou com indie pop dançável de Roosevelt e Black Maddona, até o sol raiar e nos levaram para descansar para o último dia, que vai ter AIR, Explosions in The Sky e Ty Segall.

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Texto escrito por: Miguel Fernandes Duarte e Bernardo Crastes

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