Segundo dia do Motelx: o body horror de ‘The Void’, o cumpridor ‘Kfc’, e o labiríntico ‘Dave Made a Maze’

7 SETEMBRO, 2017 -

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Após uma estreia algo descontextualizada, o segundo dia da 11ª Edição do MOTELX  embalou bem para a exibição de filmes interessantes no âmbito do fantástico/horror. Vimos o canadiano The Void, um call back ao body horror de Carpenter, o surreal Dave Made a Maze, o drama vietnamita negro e violento de Kfc, e o thriller/comédia negra El Bar, de Álex de la Iglesia, um filme que teria assentado que nem uma luva para abrir as hostilidades se tivesse sido exibido no primeiro dia.

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The Void: É sempre um prazer ver que ainda existem cineastas amantes do género de terror que gostam de elogiar as suas principais influências através do seu cinema, e The Void procura seguir as pegadas de Carpenter, e, em particular, de The Thing, com os seus practical effects artesanais, em detrimento do já mais que mastigado CGI, que no horror low-budget, corre sempre o risco de ser mais ridículo do que assustador. The Void começa muito bem, com as suas personagens genéricas barricadas num hospital de província com pouca ou nenhuma actividade, cercados por figuras encapuzadas assustadoras. O body horror monstruoso artesanal (com uma caracterização soberba), e o seu mistério começa a tomar muito bem conta do écrã, numa primeira meia hora optimista e entusiasmante. No entanto, a partir daí, quando o argumento começa a desenvolver para elementos do oculto sem qualquer fascínio para o espectador, começam a descobrir-se as fragilidades; e The Void torna-se um filme empapado, confuso, lento e desinteressante, com os seus momentos finais, em oposição ao seu aliciante início, a revelarem-se uma verdadeira prova de resistência. Perto do final, uma personagem pergunta “Is it over?”. Sim, finalmente.

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Kfc: O quase desconhecido pela internet Kfc, filme vietnamita, entra directamente na restrita lista de filmes mais negros e perturbantes que já foram exibidos no Motelx. Apesar das suas temáticas psicologicamente pesadas, que incluem necrofilia, canibalismo ou tortura, e que caberá ao espectador apreciar como livremente entender, Kfc é um filme com uma cinematografia, realização e argumento notáveis, que o colocam num patamar acima daquilo que normalmente observamos no festival. A sua estética, sempre cuidadosamente composta, é, ao longo da sua bem equilibrada duração de 68 minutos, algo de maravilhoso, acompanhando um argumento fragmentado muito bem construído, e embrulhado, que acompanha um conjunto de personagens que, fruto de causa e efeito nas suas vidas, se veem afectados por acontecimentos macabros, que são, nas palavras do realizador, um elogio ao mal, que está sempre presente, mas é sempre discriminado em relação ao bem. Há mais alma e substância em cada uma destas personagens interligadas, provavelmente com menos de 15 minutos de écrã cada, do que na esmagadora maioria das produções cinematográficas de hoje. Quando observamos de onde veio e qual a sua origem, um projecto universitário vietnamita, o mérito é ainda maior. Kfc, uma crítica à amoralidade fast food, que pauta os nossos dias nos mais pequenos detalhes, é uma pérola de cinema na programação deste ano do Motelx, num filme que cumpre tudo aquilo a que se propõe, com excelência.

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Dave Made a Maze: Bill Watterson, conhecido, sobretudo, pelo seu trabalho com videojogos, e como produtor, estreia-se na realização com Dave Made a Maze. Conseguimos identificar estas suas raízes desde a cena inicial de créditos em cartoon, que nos passa a ideia de que o realizador não quer que a sua obra seja levada demasiado a sério. Contudo, seria pouco provável que isto viesse a acontecer, dada a quantidade de cenas descontraídas em demasia, sem seriedade, sentido ou, em alguns casos, interesse. Entramos no labirinto que Dave (Nick Thune) construiu, e percebemos que o organismo que se esconde em todo o cartão acaba por ser a personagem principal e, também, a única que se reveste de interesse. Os momentos cómicos surgem sucessivamente e terá de ser dado crédito a Watterson pela criatividade demonstrada em vários segmentos, que nos fazem lembrar níveis de videojogos, onde noções, como proporção ou lógica, não se aplicam. Algumas tiradas humorísticas bem conseguidas não nos fazem esquecer os abismos que se vão criando, num argumento que não se preocupa em fazer sentido, ou em ser levado a sério. Dave construiu um labirinto, e consegue entreter-nos moderadamente com o mesmo, mas, como a personagem afirma em diversas ocasiões, este não se encontra ainda concluído. O sentimento de obra por concluir é o mesmo que temos relativamente à estreia de Bill Watterson na realização, que nos oferece algo que parece estar muito longe da sua fase final.

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El Bar / The Bar: Situamo-nos num bar no centro de Madrid com um grupo de pessoas que não se conhece entre si quando uma ameaça exterior os obriga a permanecer naquele local e a trabalhar em conjunto pela sobrevivência. Esta ideia de Álex de la Iglesia não é inovadora, saltando à memória obras recentes, como Phone Booth ou The Devil, mas percebemos que o realizador espanhol se quer aqui distinguir ao adicionar elementos menos comuns. Se é verdade que conseguimos encontrar aqui a temática bem presente do terrorismo, e de como as pessoas sentem este perigo iminente, é, sobretudo, através de uma dose elevada de humor negro que El Bar vai ganhar pontos. As interacções, enquanto reina o clima de desconfiança previsível nos vários protagonistas que se desconhecem entre si, adivinhavam-se como os alicerces para uma lufada de ar fresco neste género, que procura localizar toda a narrativa num único espaço. No entanto, ultrapassando um primeiro acto, a banalidade entra em cena e perdem-se as boas ideias, a imprevisibilidade e a originalidade. Mostra-se impaciência para chegar a um final, com mais acção e menos desenvolvimento, ao mesmo tempo que o humor se torna mais forçado e as relações interpessoais mais descartáveis. Resta um filme que desperdiça uma inspiração inicial e que se arrasta sem qualquer rumo por demasiado tempo.

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