Robert Service: ‘Nicolau II foi mais feliz quando deixou o poder do que tinha sido antes’

20 JUNHO, 2017 -

Como czar foi desastroso e, depois de abandonar o trono, revelou as suas simpatias antissemitas e protofascistas. Mas em privado Nicolau II era um homem simples que gostava de serrar lenha e um pai extremoso que adorava a família. O último czar «era o que todo o homem é: uma mistura», diz o historiador Robert Service.

A 15 de março de 1917 (calendário ocidental) Nicolau II abdicava do poder, pondo um fim à dinastia Romanov, que governara a Rússia desde 1613. O Governo Provisório colocou o czar e a sua família sob prisão domiciliária no Palácio de Alexandre, em Tsakoe Selo, nos arredores de S. Petersburgo. Mas em agosto, enquanto na capital começava a aproximar-se a tempestade da revolução bolchevique, os Romanov foram transferidos para Tobolsk, na Sibéria, de modo a ficarem num local seguro. Antes de partirem, foram aconselhados a levar roupa quente.

Daí sairiam para a sua última morada – Ekaterinburg – na primavera de 1918, onde toda a família, criados e até os animais de estimação foram executados, queimados e deitados para um poço – não obstante apenas dez dias depois da abdicação de Nicolau II ter sido emitido um decreto a abolir a pena de morte.

Autor de biografias de Lenine, Estaline e Trotsky (bem como de uma História da Rússia no Século XX), o historiador Robert Service assina agora O_Último dos Czares (ed Desassossego), uma obra sobre os derradeiros 16 meses de vida de Nicolau II, relatando ao pormenor o quotidiano da família imperial sob prisão domiciliária e a sua relação com os carcereiros e outros visitantes.

Habituei-me a ver o seu nome em biografias de líderes soviéticos: Lenine, Trotsky, Estaline. O que aconteceu? Mudou de lado?

Não. Foi apenas um acaso feliz. Vieram parar-me às mãos arquivos muito raros sobre Nicolau II e pensei que tinha de aproveitar a oportunidade. Provavelmente foi a primeira vez na minha vida em que fiz uma escolha por acidente.

E que acidente foi esse?

Em 1918, a seguir à execução de Nicolau II e ao derrube dos comunistas na região dos Urais, as forças contrarrevolucionárias dos Brancos solicitaram um inquérito sobre o que tinha acontecido a Nicolau II e à sua família. E os resultados desse inquérito vieram parar-me às mãos, juntamente com muita correspondência sobre a autenticidade dos testemunhos. E juntos lançam uma luz extraordinária sobre os últimos meses de Nicolau II. E não é apenas uma história pessoal, é também uma narrativa política, porque assim que caiu do poder, Nicolau II já não tinha de fingir ou de dizer uma coisa e fazer outra. Falou com amigos e conhecidos – e com os seus carcereiros –, e disse-lhes o que lhe ia realmente na cabeça.

Quando deixou de ser czar já não precisava de representar um papel?

Podia parar de representar, e revelou-se como um ultranacionalista, mesmo um protofascista. Tinha ideias extraordinariamente virulentas sobre os judeus, a quem ele responsabilizava pela queda do poder russo.

Hitler também identificava muito os judeus com os bolcheviques…

Sim, mais tarde essa tornou-se uma ideia muito comum em toda a Europa central, com consequências muito tristes e trágicas. Nicolau II não era um homem inocente. Como governante era um desastre, e nunca perdoou a si próprio ter feito concessões constitucionais aquando da revolução de 1905-1906, por isso nos anos seguintes tentou reverter o máximo dessas conceções que conseguiu. Outra coisa é que sabia muito pouco sobre o seu país e não sabia nada sobre os camponeses, não sabia nada sobre os operários e não sabia nada sobre os militares.

Porque vivia numa redoma?

Vivia numa redoma – e numa redoma mais fechada do que qualquer czar da História. Porque ele detestava a aristocracia, detestava os altos financeiros e não tinha ninguém conhecido na classe dos grandes comerciantes. Sempre que podia escapava-se para o Palácio de Alexandre, nos arredores de São Petersburgo. Nicolau teria sido muito mais feliz na pele de um fidalgo inglês, a viver no campo e a caçar raposas. Mas o destino dele não era esse. Ele tinha nascido para ser um autocrata, era assim que via as coisas.

E não podia abdicar?

Acabou por fazê-lo.

Sim, mas antes de março de 1917.

Ele tinha ideias sobre o dever e o destino e dedicou-se à ideia de proteger o futuro da dinastia. Quando o Exército lhe disse que a sua participação no governo arruinava as hipóteses da Rússia na Grande Guerra, ele ficou à beira de um ataque de nervos. Como patriota, era um golpe psicológico de enormes proporções e do dia para a noite decidiu abdicar, algo que nunca tinha sequer considerado.

O que lhe ia na cabeça enquanto assinava a abdicação?

Nicolau era um patriota. Ele não conseguia perceber por que havia tantas manifestações nas ruas na capital e subestimou o que estava a acontecer. Além disso, sofreu uma humilhação pessoal quando o seu conselheiro espiritual, Grigoriy Rasputine, foi assassinado no final de 1916. Nicolau não tinha paciência nenhuma para os altos círculos aristocráticos em Petrogrado, como se chamava então a cidade, estava isolado e ficou cada vez mais desmoralizado. Quando os generais foram ter com ele e lhe disseram ‘Não podemos salvar Petrogrado a menos que você aceite deixar o poder’ a sua moral evaporou-se completamente. Curiosamente, recuperou-a numa semana, mas já era a moral de um homem aliviado por já não estar no poder. Pensava que tinha feito o melhor que podia e que agora podia viver uma vida diferente.

Sabemos que Rasputine era muito próximo da imperatriz Alexandra. Como era a relação dele com o czar?

A influência de Rasputine sobre Nicolau II tem sido exagerada. Nicolau II gostava muito dele, gostava de o ter por perto, sabia que Rasputine o podia ajudar com o tratamento médico de Alexei, o herdeiro do trono, e apreciava-o por considerá-lo a voz do povo russo, a voz do povo crente. Mas na grande questão de 1914 – se a Rússia devia entrar na Guerra ou manter-se em paz, como tinha acontecido em incontáveis crises diplomáticas desde o início do século, Rasputine disse ‘Aguente a paz’ e Nicolau II foi para a guerra. Rasputine foi o vilão digno de um filme de terror que era odiado pela sociedade imperial russa elegante e educada. E essa sociedade assassinou-o. Penso que têm sido atribuídas demasiadas culpas a Rasputine e à imperatriz Alexandra. Nicolau II era um homem teimoso e de visão limitada num país que, se queria permanecer uma potência, precisava de fazer a transição para a modernidade.

Uma pessoa com outra visão poderia ter feito diferente? Poderia ter evitado uma revolução sangrenta?

Isso é uma das grandes questões. Não consigo ver como qualquer governante da Rússia poderia ter evitado o colapso dos abastecimento dos alimentos, a desintegração da administração, os problemas de abastecimento militar da frente oriental, a inflação desenfreada, o que significava algo muito próximo do desastre para quem quer que estivesse à frente da Rússia. O mesmo se passou na Alemanha e na Áustria em 1918, quando perderam, ambos colapsaram. Mas a Rússia caiu em algo muito pior, na guerra civil.

Ao assinar a abdicação Nicolau sentiu o peso de ser o responsável pelo fim de uma dinastia com 300 anos?

Não há indícios de que ele se arrependesse de qualquer das suas ações. A sua mulher sim, lamentava que ele tivesse abdicado, mas ele não. Achava que tinha feito o que podia naquelas circunstâncias. Falamos de um homem pouco ponderado, que não olhava para a sua carreira passada com um olhar crítico. Era um antissemita, achava que o povo russo era essencialmente bom, decente e simples mas estranhas forças, em particular forças obscuras judaicas, tinham manipulado e dado cabo de tudo. Nicolau II tinha uma visão idealizada dos seus compatriotas. Quando caiu do poder passou muito tempo a tentar aprender coisas sobre o povo russo, o que é algo extraordinário! Por que não o fez antes? Por que não leu o Guerra e Paz antes de cair do poder? Por que não leu os contos sobre a classe de comerciantes da russa provinciana? Ele só tentou perceber o que era ser um russo, o que era a Rússia, demasiado tarde.

Sempre imaginei que quando se escreve uma biografia se sente alguma empatia pelo biografado.

Isso aconteceu-me, sim.

Mas quando o ouvimos falar não parece ser o caso…

Tento ser equilibrado. Penso que Nicolau II era o que todo o ser humano é: uma mistura. Politicamente era um fanático, um precursor do fascismo, um tipo completamente desagradável, apesar das suas boas maneiras. Como pai, era uma figura maravilhosamente atenta, cuidadosa, adorava o filho. Aliás, o que o convenceu finalmente a abdicar do trono foi que, de outro modo, teria de viver afastado dos filhos. Nicolau odiava bailes, odiava as cerimónias na capital, gostava de cortar lenha, gostava de tirar a neve à pazada dos caminhos. Mas essa modéstia no quotidiano estava amarrada a um fanatismo ideológico. Ele acreditava nos Protocolos dos Sábios de Sião. Quem mais acreditava nesses protocolos? Os fascistas do nazismo de meados do século.

Quando os Romanov foram transferidos do Palácio de Alexandre, nos arredores de S. Petersburgo, para Tobolsk, puderam levar todos os pertences pessoais que queriam?

Sim. Levaram as joias, muita da mobília, tapeçarias, o seu vinho.

Embora não chegassem a poder bebê-lo…

Não puderam porque quando o vinho chegou a Tobolsk, os marinheiros e soldados pensaram: ‘Por que não haveremos nós de ter acesso a vinhos caros?’. Acontece que Nicolau não era um grande bebedor – era um russo muito invulgar. Não gostava da pinga. Isto era misterioso para os oficiais militares, que não partilhavam da sua atitude em relação ao vodca. Nicolau II preferia o vinho da madeira ao vodka – era uma escolha rara!

Quando foram de Tobolsk para Ekaterinburg também tiveram a mesma liberdade para levar o que quisessem?

Não. Aí não levaram tanta coisa com eles. Em Ekaterinburg tinham menos livros, não podiam usar a biblioteca como tinham usado em Tobolsk, não lhes era permitido irem à missa, como tinha sido permitido em Tobolsk. Devemos ter em mente que nesta época muitos russos tinham de ir à procura do pão de cada dia. Em Ekaterinburg a dieta era pior do que tinha sido em Tobolsk e em Tobolsk era pior do que tinha sido em Tsarkoe Selo, mas continuava a ser de alto nível para a maioria dos russos – embora eles [Romanov] não achassem… Na verdade estou a ser injusto com Nicolau II. Ele não imaginava viver em circunstâncias luxuosas. Usava botas cambadas, roupa mal cuidada, não queria saber de roupas elegantes. Esse é outro aspeto dele pelo qual sinto uma certa empatia. Ele não era um czar normal, era um homem modesto.

Portanto não teve grandes problemas quando se viu despojado do luxo a que estava habituado?

Sim. E limpava a neve do caminho, cortava a lenha para a lareira, alguns dos filhos ajudavam a cozinhar, tomavam conta das galinhas… Isto não era o comportamento habitual de um czar. Acho que Nicolau foi um homem mais feliz quando deixou o poder do que tinha sido durante os anos anteriores.

Quando soube ele que estava condenado?

Penso que o pior receio dele era que os bolcheviques o levassem sozinho para Moscovo, para longe da família, e a ameaçassem de maus tratos caso ele não assinasse o tratado de Brest-Litovsk [tratado de paz assinado entre os bolcheviques e os alemães que pôs um ponto final à participação dos russos no conflito, mas às custas de enormes concessões territoriais aos germânicos, ao ponto de os termos do tratado serem considerados humilhantes]. Não há qualquer indício de que Nicolau suspeitasse de que a sua vida corria perigo até ser levado de Tobolsk para Ekaterinburg [na primavera de 1918] e haver no caminho sérias tentativas de dissidentes comunistas para agirem por conta própria e o matarem. Mas os comunistas que o escoltavam protegeram-no, portanto quando chegou a Ekaterinburg pensou que estava a salvo. Nunca lhe ocorreu que alguém podia ser tão fanático ao ponto de o assassinar e à família. Pensou que na pior das hipóteses seria mantido em prisão domiciliária. E foi isso que aconteceu até que de repente, uma noite, foram buscá-lo a ele e à família ao quarto de dormir, e levaram-nos, juntamente com os criados e com os cães, e abateram-nos.

Disse-me que teve acesso a documentos dos Romanov nunca antes publicados. E teve acesso aos diários de Nicolau II.

Os diários já tinham sido publicados há vários anos, mas acho que nunca tinham sido lidos com esta perspetiva. Foi muito útil examinar com cuidado as conversas que o czar teve com pessoas que eram parte da sua entourage ou com os carcereiros. E estes testemunhos estão disponíveis no tal inquérito que os libertadores brancos de Ekaterinburg conduziram imediatamente a conseguirem expulsar os comunistas. Alguns historiadores tinham olhado para estes documentos mas não tinham colocado as mesmas questões. O que foi absolutamente precioso foi a correspondência relacionada com o inquérito, que prova sem margem para dúvida que ninguém escapou da cave de Ekaterinburg com vida. Penso que o meu livro resolveu definitivamente qualquer mistério que pudesse haver.

Havia teorias de que Anastasia poderia ter escapado e até vivido nos Estados Unidos.

Para mim essa é uma questão fechada. Só temos de pensar nisto: num espaço fechado, militares treinados – ou mesmo que fossem novatos – iam falhar a pontaria a uma distância de poucos metros? Iam enganar-se a contar os corpos que atiraram para uma pira funerária? É impossível acreditar nisso.

Viu a caligrafia do czar?

Sim, olhei para alguns dos seus cadernos pessoais.

Como são?

A caligrafia é bastante convencional para a época. Posso dizer que ler os escritos dele e dos filhos foi muito mais fácil do que ler a caligrafia de Lenine e especialmente da mulher de Lenine, que é praticamente ilegível. É preciso dedicarmo-nos uma vida inteira para lermos as cartas originais de Nadezda Krupskaja.

E vale a pena o esforço?

Acho que estudar História vale sempre o esforço e que é sempre bom estarmos na posse dos documentos originais. Foi emocionante quando ao fazer uma biografia de Trotsky tive acesso não só ao rascunho da sua autobiografia, cheia de rabiscos e correções, mas também aos bilhetes de autocarro que usou em Berlim. Sentimos que estamos a contactar com algo autêntico e antigo.

Entrevista de José Cabrita Saraiva, publicada no nosso parceiro jornal SOL
Fotografia de João Porfírio

Comentários

Artigos que poderão ser do teu interesse

ARTIGOS RELACIONADOS