Reportagem: Fronteiras entre o passado e o futuro – histórias de refugiados

14 NOVEMBRO, 2017 -

Chamam-se Ali, Moustafa, Enas e Ahmad. Vêm de países diferentes, por razões diferentes. O que os une é a necessidade de uma vida justa e digna, em que os seus direitos mais fundamentais possam ser reconhecidos.

“Na Idade Média, faziam-se decapitações na praça pública, viam-se cabeças humanas a rolar no chão, era normal. Na Síria, em 2017, parece que também é normal.”

As palavras são de Moustafa, 20 anos. Chegou a Portugal há ano e meio com uma bolsa de estudos que lhe permitiu fugir à guerra. Vive numa residência de estudantes perto da Cidade Universitária, e está a tirar uma licenciatura em Engenharia Informática. Sentado numa esplanada do Instituto Técnico, com vista para o relvado da Alameda onde algumas poucas pessoas dormem uma sesta ao sol, Moustafa explica como a bolsa de estudos o salvou da guerra.

“Desde que a Síria está em guerra que rapazes da minha idade estão a combater e que não fazem mais nada. A vida deles parou para sempre. Por causa da falta de segurança, o governo está constantemente a renovar o exército.”

Recorda como uma vez ficou preso durante dois dias. “Foi no ano passado, quando fui visitar a minha família à Síria. Mal passei a fronteira, fui detido por militares. Felizmente, consegui falar com o meu pai e foi ele quem me tirou daí, porque conhecia alguém próximo do governo. Aí, eu pensei, nunca mais saio de Portugal”, diz a rir, num português fluente mas ainda com algum sotaque.

(Moustafa em Lisboa, 2017)

Moustafa e a sua família fazem parte de uma minoria muçulmana : os ismailitas. E Salamieh, a sua cidade natal, é a única cidade na Síria que acolhe essa minoria. “Os ismailitas defendem uma visão pacífica do Islão, e são considerados infiéis pelo Estado Islâmico”, explica Moustafa.

Quando fala da família que ficou em Salamieh, a voz fraqueja. “Gostava muito que eles viessem para Portugal, mas toda a viagem de lá para cá é demasiado complicada, perigosa e cara. Pedir o visto é outro problema, a embaixada portuguesa nem existe na Síria, só na Turquia. Eu obtive-o graças à bolsa.”

Nem todos os refugiados fogem a conflitos armados

O que há de comum entre a maior parte dos migrantes que chegam à Europa, arriscando por vezes a vida na viagem, é um instinto de sobrevivência e a necessidade de deixar para trás países que não respeitam os seus direitos.

Ali, 33 anos, fugiu do Paquistão por causa da sua orientação sexual e das várias ameaças de morte que recebeu. O Paquistão, país conservador onde têm surgido grupos religiosos radicais que se baseiam na interpretação da sharia (lei canónica muçulmana, que tem por base o Alcorão), não deixa espaço para diferenças. “O Paquistão é um país que não acolhe minorias.”

As ameaças tornaram-se cada vez mais persistentes e a rotina cada vez mais pesada, até ao dia em que Ali viajou para a Inglaterra de avião. Lá, ficou um ano, o tempo suficiente para que o seu visa caducasse e o impedisse de viajar no seio da Europa de forma legal.

“Também foi tempo suficiente para perceber que se quisesse obter o estatuto de refugiado teria que viajar até um país mais aberto à imigração”.

Sem saber ainda para onde ir, Ali  reuniu o dinheiro necessário para atravessar o Canal da Mancha. Foram quase 800 euros para viajar ilegalmente com outras 40 pessoas num contentor de barco. “À minha volta estavam pessoas que iam para a Itália, outras para a Alemanha, outras para Espanha. Quando chegámos a Nord-Pas-de-Calais, em França, ouvi dizer que um grupo de pessoas ia para Portugal. Juntei-me a eles. Fomos de carro com um homem do Bangladesh a conduzir, que fez questão de guardar todos os nossos telemóveis durante a viagem para não haver dúvidas. É uma situação em que não se confia em ninguém. O taxista não queria ser apanhado pela polícia, nós também não”, conta Ali.

“No total, viajei durante três dias, de Inglaterra até Portugal. O mais difícil? Não sei, foi tudo tão complicado. Talvez o facto também de estar sozinho. Não dormi nem um segundo. Tive medo de ser apanhado e posto na prisão durante toda a viagem.”

Separados pela guerra

A viagem de Moustafa, financiada pela bolsa, foi mais calma. Mas foi doloroso o sentimento de solidão nos primeiros meses em Portugal, ao qual se juntou a angústia de ter deixado a família numa das zonas mais perigosas do mundo.

Também perdeu contacto com alguns amigos por causa da guerra. “Uma amiga minha que vivia em Raqqa e que não usava véu antes da cidade ter caído nas mãos do Estado Islâmico, foi obrigada de um dia para outro a usar o ‘hijab’, um vestido que cobre a totalidade do corpo e metade da cara. Os soldados do Estado Islâmico reservam-se o direito de verificar o vestido das mulheres. Se a camada interior não for preta como a camada exterior, elas podem ser chicoteadas.” Foi o que aconteceu à amiga. Moustafa recorda como foi triste o dia em que ela voltou de Raqqa. “Não a reconheci. Durante uns meses, ela parecia outra pessoa, não estava nada bem.” Desde que fugiu para Damasco, há um mês, Moustafa nunca mais ouviu falar dela.

Com a família, só consegue falar quando há eletricidade, ou seja umas duas ou três horas por dia. Consequências da guerra. Na última chamada que recebeu, um familiar informou-o que o seu tio ficou gravemente ferido durante um ataque. Moustafa espera que o pai não seja o próximo, dado que ele também faz parte dos homens armados que tomaram a iniciativa de proteger a sua própria cidade.

“Fazem isso de forma voluntária, porque não existe outra maneira para defender a própria vida. Quando soube que o meu tio ficou ferido, fiquei… ‘triste’ não é a palavra. Senti-me incapacitado, porque não posso fazer nada. É um sentimento difícil estar longe do meu país, por mais que a guerra o esteja a destruir.”

Moustafa escolheu Portugal entre uma dezena de países que acolhem estudantes sírios com bolsa. Mas, insiste, a escolha do país não foi o mais importante na altura. “Quando se vive num país em guerra e surge a oportunidade de ir embora, não se escolhe realmente o destino, qualquer opção parece boa. Eu tive muita sorte em poder vir para Portugal que é um país calmo e agradável.”

Acolhimento por ordem de prioridade

A família de Ahmad, sírio, também não escolheu o seu destino. Foi num campo de refugiados que souberam que Portugal era o seu país de acolhimento. O Plano de Recolocação pela qual a Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados [ACNUR] seleciona refugiados e os envia para determinados países facilitou a viagem. Vieram de avião e foram acolhidos em    Lisboa pela associação Associação Cristã de Reinserção e Apoio Social [ACRAS]. Paulo Nunes, administrador da associação, fala da família que acolhe há um ano com aquela especial delicadeza que se dedica aos assuntos difíceis. “Quando fomos buscá-los ao aeroporto, vimos muito sofrimento nas caras deles, sobretudo na expressão do Ahmad. Ele foi torturado e perdeu o pai e o irmão desde que saiu da Síria, e isso traduz-se no olhar dele.”

A família é alojada em Almeirim, numa vivenda anexada a um lar de idosos que também pertence à ACRAS. “A situação deles estabilizou rapidamente porque chegaram a Portugal através do Plano de Recolocação e estão cá legalmente, têm todos os documentos.”

Ali, que chegou pelos próprios meios, teve algumas dificuldades em ser reconhecido como refugiado. Fez o pedido quando chegou a Portugal e o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras [SEF] disse-lhe que podia demorar de seis a nove meses. No total, esperou dois anos. Quando tentou reclamar pela demora, uma funcionária do CPR [Conselho Português para os Refugiados] disse-lhe que ia ser difícil obter o  estatuto de refugiado, porque o seu caso “não era grave”. Ali diz ter entrado em pânico. “Não queria ser reenviado para o Paquistão, e sentia que o meu problema estava a ser desprezado.”  Durante os dois anos em que ficou à espera dos documentos, Ali não recebeu nenhuma ajuda financeira. O SEF apenas lhe recomendou que fosse ao CPR, avançando que lá poderia dividir um quarto com outras pessoas. “Eu não quis ir para o CPR, sentia-me muito cansado e sobretudo apreensivo. Não sabia quem era o CPR, nem as pessoas com quem ia dividir o quarto, e tive medo de me meter em sarilhos com outros imigrantes por causa da minha orientação sexual.”

Nessa altura, Ali viveu em vários quartos baratos e em más condições, e procurou trabalho em restaurantes asiáticos. Foi outra deceção.

“Eram propostas de trabalho em troca de alojamento e alimentação, mas sem ordenado.” A depressão que diz ter enfrentado levou-o a entrar em contacto com uma psicóloga da associação Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual, e Transgénero [ILGA] que lhe deu a conhecer várias outras associações. Graças ao projeto Refugees Welcome, que estabelece a ligação entre voluntários que queiram partilhar casa e refugiados, Ali conheceu a Inês, com quem vive há seis meses em Alcântara.

Como é que se luta contra a exclusão de refugiados?

“Com as mentalidades”, garante Paulo antes de mostrar fotografias de Enas, Ahmad e dos seus três filhos. Acrescenta que o acolhimento de pessoas que vêm de um passado de sofrimento tem de ser feito com muito amor e respeito. “A Enas conta coisas horríveis. Viu mulheres a serem violadas por vários homens para poderem pagar a viagem de barco até à Europa, ou por simples chantagem dos traficantes, e com os maridos ao lado. Quem ouve isto e não cria espaço em si para os acolher cá como deve ser, não é uma pessoa que eu queira chamar amiga.” Abana lentamente a cabeça da esquerda para a direita para reforçar o que disse. De seguida, Paulo liga o computador para mostrar um vídeo de Ahmad, filmado pela TVI. Durante a entrevista, Ahmad diz que é impressionante a facilidade com que tudo acontece cá. “Apanho o autocarro, vou à rua, vou ao supermercado, e é tudo tão fácil” explica, sugerindo um contraste com a atmosfera pesada que provavelmente vivia em Palmera, cidade que foi totalmente bombardeada. Paulo avança o vídeo para a sua parte preferida, em que Ahmad diz: “Aqui vejo amor nos olhos das pessoas. Não sinto racismo à minha volta”.

(Ahmad, Enas e os filhos Tarek, Nour e Mariam com dois funcionários da ACRAS)

Saudade e sonhos de regresso

Ahmad montou a sua barbearia graças ao apoio da Câmara de Almeirim, que lhe proporcionou um espaço numa outra associação. Enas é funcionária da ACRAS, trabalha no lar a tempo inteiro. “Mas há algo que me preocupa com eles, que já estão connosco há um ano. Quase tudo o que recebem enviam para os familiares que estão pior do que eles. É uma atitude muito nobre, muito humana, mas preocupa-me porque eles estão a fazer isso em detrimento da autonomia deles”, lamenta Paulo.

Ali passou a página de uma fase instável e diz sentir-se muito feliz atualmente. Graças à amiga Inês , que trabalha no bar Zé dos Bois, no Bairro Alto,  Ali pôde fazer aquilo que mais gosta : passar som ‘Bollywood’. Nos dias 20 e 21 de Maio, estará no Largo do Intendente para divulgar a sua música, graças a uma oportunidade que a Câmara Municipal de Lisboa lhe ofereceu.

Pouco otimista quanto ao fim da guerra, mesmo assim Moustafa afirma querer voltar para a Síria quando tudo acabar. “Estamos perante uma guerra internacional, mas o meu país é que está realmente a vivê-la. Claro que existem pessoas e grupos que querem democracia e paz, mas eles não têm força porque agem de maneira pacífica, no meio de uma guerra violenta. E com tantos interesses implicados nesta guerra eu não tenho esperança que ela acabe nos próximos anos. Por enquanto, tenho de garantir o meu futuro financeiro, e a minha simples sobrevivência. Mas um dia, volto para casa.”

O desejo de Moustafa de regressar ao país quando a guerra acabar não faz a exceção. Paulo sabe que Ahmad e a sua família têm a mesma esperança. “É a terra deles, e falam dela com muita saudade.”

Menos de uma semana depois da realização desta reportagem, o Estado Islâmico ocupou a cidade natal de Moustafa. Salamieh está a ser alvo de mísseis por parte do Estado Islâmico e do governo Sírio. Ninguém pode entrar ou sair, porque a cidade está cercada.

Reportagem de Eva Massy

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