Rentes de Carvalho e o nordeste transmontano: miséria, desgraça e abandono

13 JUNHO, 2017 -

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José Rentes de Carvalho apresentou «Trás-os-Montes, o Nordeste» (Fundação Francisco Manuel dos Santos), na 30.ª Feira do Livro de Mogadouro. A Biblioteca Municipal Trindade Coelho teve muitos leitores para ouvirem falar de si e da sua terra, no penúltimo dia de Maio.
O dia seguinte foi passado em Estevais, aldeia tão presente na vida e na produção literária do autor.
A Comunidade Cultura e Arte viajou a convite da Fundação Francisco Manuel dos Santos para ouvir J. Rentes de Carvalho e conhecer a aldeia e a sua gente.

«Red Burros dá-te asas»
Avaria no motor direito. Fosse já no ar e possivelmente não haveria reportagem sobre  J. Rentes de Carvalho, Estevais e «Trás-os-Montes, o Nordeste», livro que retrata a relação entre o escritor e a sua terra. Feita a reparação ainda antes da descolagem, o Dornier 228-201 fez uma inaudita viagem entre Tires e Mogadouro. Cerca de uma hora de voo que aplainou a distância entre as duas localidades. A exótica existência de um aeródromo contrasta com a pouca capacidade hoteleira da região, tal como Rentes de Carvalho alude no seu livro. Mas o que o autor não conta é também surpreendente. Talvez por não ser grande adepto de aviões – as viagens de automóvel do autor octogenário entre Amesterdão e Estevais são conhecidas  – Rentes de Carvalho não menciona a existência do «Festival Aéreo Red Burros – Fly in», cujo nome vem da tradicional feira asinina da aldeia de Azinhoso. Paraquedismo e Aeronáutica, entre outras actividades, pretendem promover e divulgar a região. Sem necessidade de check-out, partimos de autocarro com destino à Biblioteca Municipal Trindade Coelho, onde J. Rentes de Carvalho, Francisco José Viegas, David Lopes, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, e Francisco José Mateus Albuquerque Guimarães, presidente da Câmara Municipal de Mogadouro, procederam à apresentação do livro.

«Trás-os-Montes, o Nordeste» é um livro com gente dentro. As histórias passadas na aldeia que, antes das comodidades oferecidas pelos transportes mais modernos parecia ficar para lá da Patagónia, são registos de vivências duras e implacáveis. Francisco José Viegas, que há um quarto de século prometeu ao autor publicar os seus livros,  disse que «Periodicamente, no meio do deserto ouvem-se vozes. A de José Rentes de Carvalho é distinta e percebe-se em tudo o que escreve. Não fala daquele Trás-os-Montes que, até à década de oitenta, era conhecido por ser – preparem-se – “o reino maravilhoso”. O “reino maravilhoso” era um território arrancado a uma espécie de paraíso bíblico, de onde se tinham cuidadosamente retirado as referências à miséria, à pobreza, à degradação, à falta de sentido. O reino de José Rentes de Carvalho era e é outro.»

A liberdade de Rentes de Carvalho, por não ter apegos a grupos, partidos, ou «sacerdotes e arcebispos da literatura ou da política», permitiu-lhe criar personagens malvadas como o Meças, ou tão graves como Ernestina, numa prosa que resgata do esquecimento parte da riqueza lexical da nossa língua. Rentes de Carvalho é um arqueólogo desse «Nordeste dos anos em que havia Linha do Sabor, barcas no Douro, candeeiro de petróleo, o fachoqueiro de palha, o lampião e a candeia de azeite, e em que as mulheres – para poupar um fósforo!- iam acender a candeia a uma pinha da lareira de quem tinha lume aceso», disse Francisco José Viegas, natural de Pocinho, Vila Nova de Foz Côa. Na primeira viagem que fez a Estevais, foi levado pelo autor de «O Rebate» e «Tempo Contado» ao cemitério mais antigo. Intrigado, o editor da Quetzal fez o regresso a Lisboa a tentar compreender o sentido daquela visita. «Somos aquilo que sobra de nós. Nós, os vivos, e eles, os mortos», viria a concluir.

«A mim há ocasiões em que um impulso me leva ao cemitério»

José Rentes de Carvalho nasceu em Vila Nova de Gaia, onde viveu até aos quinze anos. Viria a trabalhar e a estudar no Porto, Viana do Castelo e Vila Real. Fez o serviço militar em Lisboa, onde estudou Românicas e Direito. A política empurrou-o para fora do país. Viveu no Rio de Janeiro, São Paulo, Nova Iorque e Paris. Desde 1956 que vive em Amesterdão, mas é cada vez mais o tempo que passa em Estevais. Foi perto do lagar da aldeia que o autor nos recebeu. A memória transporta-o para o tempo fundador da sua identidade. Eram os dias da sua meninice, ocupados por viagens entre Vila Nova de Gaia e a aldeia dos seus avós. Essas memórias são as suas raízes; é sobre elas que se fez homem e se formou escritor.

«É aqui a que eu pertenço. Eu vinha aqui quatro a cinco vezes por ano. O mais rico que um puto pode ter é vir do Monte dos Judeus em Vila Nova de Gaia, com o pai, mãe e quatro ou cinco carrejonas [feminino de carrejão, aquele que carrega]. Vinha pelo cais de Gaia, Ponte de D. Luís, Rua de São João, Mouzinho da Silveira em São Bento, entrávamos no comboio da linha do Douro, que partia às oito da manhã. Chegávamos ao Pocinho por volta das quatro ou cinco da tarde, dependia do atraso do comboio. Mudávamos para a linha do Sabor, [o comboio] saia por volta das quatro ou cinco horas e chegava a Carniçãis por volta das oito ou nove da noite. Depois tínhamos três horas de burra pelo monte até chegar à aldeia. Isto repetido para lá e para cá quatro a cinco vezes por ano dá um grande capital de memória. Não era só as pessoas; era também o cheiro, o barulho das ferraduras…»

Quando menino, ouvia a sua mãe chamá-lo de Zequinha. «Zequinha, olha o leite». Ficava danado. Chegado ao liceu, decidiu acabar de vez com o zequinha. O J, de José, teve o seu ponto final. J. Rentes de Carvalho. Mantém-se Zeca na memória dos mais velhos, mas agora acrescentado do título, juntando duas vivências, a da infância e a dos estudos. A contradição sintetizada em «Doutor Zeca», escritor e professor universitário feito de mundo, mas com raízes agarradas ao solo de Estevais.

«Tenho um sentimento de culpa só em relação àqueles que aqui não se salvaram e que ficaram, ou que têm uma vida terrível. É aquela vida de que se pode falar, mas escrita não dá a mesma imagem. Só vivendo-a ou vendo-a.» O passado não é um carrego. É património agarimado. Rentes de Carvalho olha do pátio da sua casa, outrora pertencente ao seu avô, para a paisagem defronte de si. Não vê a verde como nós vemos. O pátio tem vista para o passado.  As suas recordações tomam conta da realidade. É fácil imaginá-lo, em manhãs amenas, olhando a paisagem antiga e amarelada pelo cereal. Na saída do pátio, uma rua estreita. As poucas sombras protegem-nos de um sol que anuncia um verão infernal. Caminho acima, na direcção do cemitério, alguns gatos «andam à janeira» e assanham-se quando os seus intentos são contrariados. Haverá ninhadas, em breve, para alegria das poucas crianças de Estevais.

Já mais perto do cemitério, um ninho de andorinhas tinha no seu interior grande alvoroço. Espantada por uma vassoura, uma cobra fugiu com as crias a acalmar a sua âmbria. O fastio pesava-lhe, mas mesmo assim conseguiu não se deixar atrapar. Parece uma metáfora do destino. No mais antigo cemitério de Estevais, há duas covas no extremo direito de quem entra. A alta mortalidade infantil impôs que se abrisse uma cova para os nados-mortos e outra para as crianças até aos três anos.

Aberto o portão, estão à vista covas antigas, a maioria sem cruz. Uma pedra xisto é quanto basta. A pobreza era tal que, provavelmente, não seria servido qualquer carolo, ou «pão dos mortos», pela família do falecido a quem vinha de fora para o funeral. «A mim há ocasiões em que um impulso me leva ao cemitério», afirma no seu livro. É o tempo sepultado em terra antiga que o chama. É aqui que Rentes de Carvalho quer as suas cinzas.
«Os velhos não olham para o futuro. Os mortos são muito importantes porque são a nossa memória e dão-nas a visão do que foi. É algo mais fixo. Tem mais garra sobre o passado do que sobre o futuro. O presente nós vamos vivendo. O passado é uma permanência.»

«Aqui, ainda há corpos que nunca viram água.»

Do outro lado da estrada, o café 007. Sai-se do cemitério, atravessa-se e entra-se no café. A penumbra domina o espaço. Nas paredes, os tradicionais cachecóis do Benfica, do Porto e do Sporting. E um outro, menos previsível. Em destaque, um cachecol do Vitória de Setúbal. O calor empurra-nos para o balcão. Uma senhora serve-nos uma mini. É da Madeira. Veio do Funchal para Estevais faz alguns anos. Não se lembra de ver alguém ser enterrado naquele cemitério antigo. De trinta  em trinta minutos,  o sino da igreja vai marcando a manhã com a sua «Ave Maria».

É difícil fazer uma chamada por telemóvel e muito menos aceder à internet. Para se ter acesso à rede é preciso estar em locais específicos da aldeia, ou ir de automóvel a pontos mais altos. Estamos na idade «ante-internet». Ou «anti-». Estevais, segundo Rentes de Carvalho, está na idade medieval e não é pela intermitência do acesso à rede social de Mark Zuckerberg. O tratamento dos esgotos e as ruas calcetadas remeteram as ruas encharcadas de excrementos e água da chuva para um canto da memória. No entanto, há hábitos que não foram alterados.

«O tratamento das pessoas, em matéria de higiene, é o mesmo da Idade Medieval. Há histórias que não se contam em público. Há quatro ou cinco anos, um ancião da nossa aldeia foi levado para o hospital de Bragança. Quando voltou, perguntámos “e então? Como é que foi tratado? Ai, trataram-me muito bem. Tudo tão limpo, mas quando lá cheguei, de ambulância, levaram-me para um sítio, vieram umas mulheres e atiraram comigo para um poço.” Era uma banheira. Não tinha uma ideia de que o corpo também é para lavar. Aqui, ainda há corpos que nunca viram água.»

A comitiva de jornalistas a chegar e a partir, com toda a parafernália de câmaras e microfones, trouxe uma animação só suplantada pelas festas da aldeia. Fez lembrar a comitiva de holandeses, mencionada pelo autor em «Trás-os-Montes, o Nordeste», que um dia visitou a região. Será que também é sol de pouca dura, algo que fica na memória, sem ajudar o progresso de Estevais? São cerca de oitenta os habitantes. Todos os anos, morrem quatro ou cinco. É possível que Estevais venha a ter mais de 350 pessoas, como no tempo da infância do autor?

«Há quatro ou cinco casos de rapaziada enérgica. Temos um rapaz que plantou 16 500 amendoeiras com o subsídio da União Europeia. Há uma minúscula capacidade de capacidade de movimento. Quem sabe?»

Fotografias de: David Rodrigues

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