‘Relaxer’, de Alt-J, soa a novo com a sonoridade do costume

22 JUNHO, 2017 -

A primeira música que me lembro de ouvir de Alt-J foi a “tribal” “Fitzpleasure” e foi uma música que me deixou curioso. O que era este som?  Tem guitarras mas não é rock, tem elementos digitais mas não é música electrónica, e a parte instrumental é acoplada a uma entrega vocal magnânima da parte de Joe Newman e soberbos arranjos de voz com o teclista Gus Unger-Hamilton. An Awesome Wave lançado em 2012 foi o álbum que os catapultou para a fama mundial e é difícil não nomear as músicas todas como preferidas: tema atrás de tema o grupo britânico mostra a sua música caricata com uma enorme sensibilidade pop, arrebatando a concorrência para ganhar o aclamado prémio Mercury com músicas como “Tarot”, “Breezeblocks” ou “Matilda”.

Seguiu-se This Is All Yours e é clara uma evolução do som de Alt-J no seu segundo álbum. Músicas como “Pusher” ou a bela “Warm Foothills” de vozes cruzadas soam a folk e quietude, e músicas como “Left Hand Free” denotam uma procura de maior alcance com a sua música. Mas os pontos fortes deste segundo projecto continuam a ser as músicas que melhor capturam o estilo demonstrado no seu primeiro álbum: “The Gospel of John Hurt”, “Every Other Freckle”, “Hunger of the Pine” ou a sequela “Bloodflood Pt. II” continuam a progressão sonora de An Awesome Wave. Não é um álbum tão conciso e cativante como o primeiro mas não deixa de ser um bom projecto. Em Relaxer, o mais recente álbum de Alt-J, as músicas mais interessantes voltam a ser aquelas que menos fogem ao modus operandi da banda.

As melhores partes deste novo álbum são os singles lançados, as músicas que mostram a essência de Alt-J. “Cold Blood” é sem dúvida o tema mais forte, onde se ouvem sopros triunfais que incutem um carácter épico e “glorioso” à música, acompanhando a característica voz de Newman de forma adequada, e a guitarra rasgada também é um belo pormenor. E apesar de terem lançado pela primeira vez um álbum sem uma faixa de introdução, “3WW” faz esquecer esse pormenor: a guitarra “desértica” que se faz ouvir tem um carácter introdutório que transparece fielmente, antes de Gus Unger-Hamilton entoar a profética melodia que lhe dá lugar e se desenrolar uma história de amor, uma viagem, com uma sucessão rápida de acordes bem conseguida no doce refrão. Finalmente, “Deadcrush” com o seu sintetizador grave abafado, pads atmosféricos e a guitarra “comprimida” é a mais reservada das três mas reconhecível como parte da discografia de Alt-J.


Isto não significa que a banda está condenada a replicar a mesma sonoridade álbum após álbum. Em certas músicas conseguem criar momentos sentidos e solenes, como a intimista “Last Year”: a primeira parte é um poderoso testemunho de tristeza e o relato de um ano até ao suicídio, fazendo ressoar a depressão ao longo dos meses que escorregam até ao derradeiro objectivo. A segunda parte contrasta-a de forma tímida e é a música cantada no funeral do personagem, a relembrar o folk de This Is All Yours, interpretada por Marika Hackman, que também participou nesse álbum. Mas por vezes, quando se tentam distanciar desse som as coisas acabam por não correr muito bem: “Adeline” soa demasiado discreta e nunca parece culminar e “Hit Me Like That Snare” é completamente desadequada do álbum ou da discografia da banda. A música tem um desesperante riff de guitarra lo-fi acompanhado por uma entrega ridícula de Joe Newman.

Relaxer é um projecto curto, e as músicas que acabam por se destacar são indubitavelmente as que melhor mostram a estética musical de Alt-J, aquele som característico que por vezes é difícil de descrever. Mas é evidente que a banda continua a explorar o espectro musical, e a música que melhor transmite isso é “House of the Rising Sun”, de início pacato com uma guitarra a subir gradualmente de intensidade. Não é uma cover mas também não é uma música nova, há um equilíbrio desses dois aspectos nesta abordagem à conhecida e tradicional música folk, um clássico “passado de banda para banda”. Mas apesar da novidade, Relaxer é demasiado simples, depois de ouvir o álbum ficamos com a sensação de que falta qualquer coisa e demonstra que a banda tem vindo a perder qualidade ao longo da sua carreira, sem nunca atingir a mesma estratosfera sonora do primeiro álbum. Ainda assim, no seu terceiro projecto voltam a demonstrar o encanto que tem a sua música, o seu art-pop caricato, reconhecível e apaixonadamente apelativo.

Músicas preferidas: “3WW”, “In Cold Blood”, “Last Year” e “Deadcrush”
Músicas menos apelativas: “Hit Me Like That Snare” e “Adeline”

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