Relações de ‘aspect ratio’: o que significam?

10 OUTUBRO, 2016 -

Durante a primeira metade do primeiro século da presença do cinema nas nossas vidas, as produções estavam limitadas a apenas uma relação de aspeto para a largura e altura de ecrã. Pela sua relação, este formato ficou conhecido como o 4:3, o 4 significando o número de medidas na horizontal e 3 sendo o número de medidas de igual proporção, medidas na vertical. Hoje em dia, existem imensas relações que os realizadores têm à sua disponibilidade para apresentar o seu trabalho ao público, estando elas apenas limitadas pela imaginação do mesmo.

yoda

A imagem acima foi retirada de Star Wars: Revenge of the Sith. Este filme foi gravado numa relação de proporção de 2.35 para 1, o que é talvez o formato mais utilizado para filmes de ação nos tempos modernos. Por outro lado, a maioria dos filmes (no seu todo) de hoje em dia apresenta no seu ecrã uma relação de proporção de 16:9, assim como a dos ecrãs da esmagadora maioria dos computadores que utilizamos, sejam eles portáteis ou desktops. Um estudo recente da Cisco prevê que por 2019, 80% do tráfico de internet mundial seja sob a forma de vídeo, e essa revolução já começou. Este formato dos ecrãs dos computadores é a maior prova disso, visto que até há bem poucos anos os ecrãs tanto dos televisores como dos computadores apresentavam a ‘clássica’ escala da Academia, de 4:3. A revolução na escala cinematográfica ditou a revolução nas escalas dos ecrãs pelos quais consumimos conteúdo digital no conforto das nossas casas. Nos últimos anos, algumas companhias, como a Philips, desenvolveram televisores que se aproximam ainda mais da escala dos blockbusters de hoje em dia, como a televisão que vez em baixo, que apresenta uma proporção de 21 para 9. Estas, no entanto, não têm tido uma proliferação tão repentina como as de 16:9, e sendo que hoje em dia o conceito de relação de proporção no cinema e no conteúdo digital como um todo é tão amplo, é difícil que nos próximos anos elas invadam a casa da maior parte das pessoas.

philips

A escala dos blockbusters, que varia entre os 2.35:1 e os 2.39:1 é vista por muitos como uma comichão para os consumidores de DVDs e blurays, visto que quando estas produções são vistas através do ecrã de um computador ou de uma televisão, apresentam as típicas listas negras, no topo e no fundo da imagem. O facto de os ecrãs (o de cinema, pensado na produção do filme, e o da televisão) terem relações de proporção diferentes leva a que ou existam estas listas, ou a imagem seja esticada para se acomodar ao ecrã, o que representa um pecado maior que o das listas negras, pois não vemos a imagem como ela foi imaginada pela produção, e em casos extremos pode mesmo vir a alterar completamente a nossa perceção do filme (no caso da imagem esticada, um círculo transformar-se-ia numa elipse, por exemplo). No caso dos filmes mais antigos, as listas apresentam-se nos lados direito e esquerdo da imagem, devido ao formato do 4:3.

Depois de coberto o tópico dos vários tipos de aspetos que um filme pode ter, vale a pena explorar o efeito emocional que os diferentes tipos de aspetos podem ter no seu público. A proporção da Academia, os clássicos 4:3, ainda são utilizados, de forma nostálgica. Nos dias de hoje, e devido à memória que o público tem dos filmes mais antigos, a relação de 4:3 é utilizada para fazer com que o filme pareça ter sido filmado num período cronológico antigo. Um grande exemplo do uso original do clássico 4:3 é The Grand Budapest Hotel, que passa dos 2.35:1 para os 4:3 quando a história se desenvolve nos anos 40.

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Esta alteração de formato faz um trabalho fenomenal ao transportar-nos para uma altura em que o formato 4:3 era popular. Associamos o formato com filmes clássicos, e isso ajuda-nos a entrar no estilo, maneiras, culturas e estranheza que o filme tem. Raramente as transições entre diferentes proporções de aspeto são irreverentes e brilhantes, mas subtilmente (e às vezes subliminarmente) ajudam-nos na preparação para a mudança de rumo de um filme, seja esta em termos de localização cronológica, geográfica, ou de mudança de ritmo do próprio filme. Um caso mais evidente desta alteração está presente em 500 Days of Summer. No filme, é utilizada a escala das Polaroids (para o público mais jovem, a do Instagram), de 1:1. Esta é utilizada para nos mostrar um passado glamourizado e reminiscente do personagem principal.

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Aproximando-nos do final do filme, este aspeto de 1:1 é literalmente afastado para fora da tela, quando nos apercebemos que a expectativa deste olhar antiquado não coincide com a realidade.

Nos últimos anos, a proporção 2.35:1 foi mais uma vez destronada como a norma para os filmes de grande orçamento de ação, e isto deveu-se à introdução da tecnologia IMAX. Esta tecnologia apresenta um formato de 1.9:1 ou mesmo 1.43:1. Em Interstellar, este formato é utilizado nas sequências espaciais, onde é necessária respiração, e o filme retoma a proporção típica de 21:9 nas cenas do interior da nave espacial. Que melhor forma de transmitir a imensidão do espaço do que literalmente adicionar espaço ao ecrã? Muitas das vezes é difícil gerir, na altura de produção de um filme de grande orçamento, o cuidado a ter com os aspetos, pois salas de cinema que não possuam ecrãs IMAX vão literalmente cortar parte da gravação, e isso é algo que tem de estar presente na mente do realizador e da equipa de imagem. Nas semanas que antecederam a estreia de Batman v Superman: Dawn of Justice, a produção do filme fez circular a imagem que vês abaixo como forma de incentivar o público a ver o filme da maneira que foi filmado para ser visto, com a escala IMAX. Na imagem, podes ver a imensa qualidade de detalhes que o público das salas de cinema ‘comuns’ perdeu.

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Esta utilização da mudança de escalas convencionais para as escalas IMAX não são restritas aos filmes espaciais. Em The Dark Knight Rises, o terceiro e último filme da saga do Batman de Christopher Nolan, vemos uma transição da escala comum para a escala IMAX imediatamente antes da luta final entre Batman e Bane.

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Isto causa um efeito emocional subconsciente enorme, porque nos relembra subtilmente que estamos prestes a ver uma cena intensa e épica. Em Hunger Games o mesmo efeito é utilizado com o mesmo propósito; a imagem transiciona de um formato comum para o de IMAX lentamente, antes dos jogos começarem. A relação de aspeto correta pode contribuir para o realismo de um filme. Um filme roteirizado que seja feito para se parecer com um documentário ou biopic tem de ser filmado a 16:9 ou não terá a nível emocional nenhum tipo de parecença com um documentário. Casos destes podem ser encontrados em The Imitation Game, The Theory of Everything ou em Selma, para nomear alguns exemplos do cinema moderno.

Os tipos mais ambiciosos de mudanças de proporções são quando a relação de aspeto e os seus limites são ignorados completamente. Em The Life of Pi, de Ang Lee vemos os peixes a voarem literalmente para fora da tela:

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Em Oz the Great and Powerful, o mesmo efeito é explorado, com chamas que saem de uma tela com relação de proporção de 4:3:

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Esta é de facto uma técnica imersiva que se traduz em resultados visuais extremamente apelativos. Relações de proporção têm a hipótese de contribuir para o storytelling visual de um filme. Quer elas indiquem um período temporal, tensão, ou realismo adicional, relações de proporção são mais uma ferramenta inteligente à disposição do realizador moderno, e uma que é muitas vezes ignorada.

(Imagem do artigo: cena de ‘Mommy’ (2014), de Xavier Dolan, onde existe uma transição entre um aspect ratio de 1:1 para um de 16:9)

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