Raul Brandão nasceu há 150 anos

12 MARÇO, 2017 -

Toda a Foz portuense tornou-se eternizada nos escritos de Raul Brandão, autor de várias obras literárias e de narrativas com profundidades atingidas por poucos. Para além da tão sua Foz, o português expandiu-se pelo país, chegando a conhecer os Açores e inspirando-se também na sua particularidade geográfica e cultural para as suas criações. A linguagem que assumiu na descrição das suas ideias e partes narrativas nunca prescindiu de um encanto lírico que distinguiu os notáveis dos demais. Raul Brandão foi, deste jeito, um dos maiores marcos da literatura portuense, dando largas a uma foz que vê desaguar o Douro e as memórias deste destacado e reputado autor.

Raul Germano Brandão nasceu na nº 12 da então Rua da Bela Vista (agora rua com o nome do escritor, na freguesia portuense da Foz do Douro a 12 de março de 1867. Foi nestas redondezas acompanhadas pela maresia que passou a sua juventude, ladeado por um agregado familiar repleto de pessoas ligadas aos ofícios no mar. Nunca esta influência deixou de assistir Brandão nas obras da sua autoria. As suas primeiras experiências ao nível escrito foram no Colégio São Carlos, em 1885, na publicação da revista académica O Andaluz, visando apoiar as vítimas dos terramotos da região da Andaluzia, em Espanha. Quando ingressou na Academia Politécnica do Porto, associou-se ao movimento dos “Nefelibatas” no final do século XIX, fazendo parte da redação do manifesto deste grupo, onde advogou a arte moderna e o decadentismo literário. Esta iniciativa incluiu nomes da literatura como António Nobre, Alberto de Oliveira e Justino de Montalvão. A “geração de 90” foi adquirindo uma visão crescentemente crítica perante os valores do materialismo burguês e uma necessidade de revitalizar a sociedade como um todo a partir da literatura e da arte. Individualmente, porém, notou-se uma deslocação para a responsabilização ética e, por conseguinte, para a construção da tão sua sensibilidade estética.  Foi nesta etapa da sua vida que a sua vocação escrita se fez notar e que se estendeu até à sua passagem como ouvinte pelo Curso Superior de Letras, para além da criação do grupo modernista “Os Insubmissos“.

Nenhum de nós sabe o que existe e o que não existe. Vivemos de palavras. Vamos até à cova com palavras. Submetem-nos, subjugam-nos. Pesam toneladas, têm a espessura de montanhas. São as palavras que nos contêm, são as palavras que nos conduzem. Mas há momentos em que cada um redobra de proporções, há momentos em que a vida se me afigura iluminada por outra claridade. Há momentos em que cada um grita: – Eu não vivi! eu não vivi! eu não vivi! – Há momentos em que deparamos com outra figura maior, que nos mete medo. A vida é só isto?
Raul Brandão in Húmus (1917)

Em 1889, alturas conturbadas por querelas entre republicanos e monarcas, inscreve-se com alguma relutância na Escola do Exército, em Lisboa, dando os primeiros passos numa carreira militar que o levaram a permanecer no Ministério da Guerra por algum tempo. Este período fê-lo aperceber-se da sua envolvência na máquina burocrática militar, para além das funções de jornalista que foi exercendo paralelamente. No exercício do jornalismo, colaborou em diversas editorias, tais como O Micróbio (1894-95) e as revistas Brasil-Portugal (1899-1914), Revista Nova (1901-02) e Serões (1901-11)  Para além destes, plantou sementes da sua posição ético-social e do questionário que foi construindo de si para o mundo no jornal Correio da Manhã, no sentido de perceber o seu estado, mesmo que despojado de valores. Com este sustento, pôde publicar várias obras, entre elas Impressões e Paisagens (1890). Nestas que foi escrevendo então, foi acondicionando o sonho do típico adolescente com o pragmatismo rígido do real, suportado numa sociedade corrupta e desequilibrada. Com esse fulgor da irreverência jovem, procurou subverter o estado social decadente, estando ciente da morte como conceito metafísico. Isto verifica-se não só no trabalho mencionado acima mas também em História d’um Palhaço -Vida e Diário de K. Maurício (1896). A redenção do mundo pugnada por Raul Brandão compreendia também a Igreja Católica, como exposto em O Padre (1901), e englobava as camadas mais pobres por via do exercício jornalístico. Os Pobre(1906) visa encontrar essa equidade comum em toda a linha, incluindo no sentido de captar a dor para a superar da sua base profundamente decadentista. Com Júlio Brandão, também autor, foi dramaturgo, redigindo Noite de Natal, que foi ao palco do Teatro Nacional D. Maria II em 1899.

No ano de 1896, foi colocado no Regimento de Infantaria 20, na cidade de Guimarães. Foi nesta que conheceu a sua companheira Maria Angelina e com a qual casou no ano seguinte, passando a viver numa casa recém-construída na freguesia de Nespereira. Esta obra arquitetónica tornou-se mediática e passou a ser designada “Casa do Alto”. Apesar de várias incursões invernais e jornalísticas a Lisboa, privando com vários intelectuais e políticos, a sua vida ficaria na órbita das cidades vimaranense e portuense, reformando-se no posto de capitão em 1912. Também a gestão da sua propriedade cultivou na sua mente uma posição crítica relativamente à comunidade agrícola e rural e suas dificuldades de sustento. Toda a opressão foi assinalada e debatida no decorrer da sua produção literária, articulando com o simbolismo anteriormente advogado. A farta reforma que recebeu por via desse estatuto foi contemporânea do pico criativo do autor de origem portuense. Doze anos depois, fez uma visita aos Açores no verão no seguimento das visitas dos intelectuais, realizadas pelos autonomistas (uma orientação política composta por socialistas anti-burocratas). Desta visita, ficou uma obra publicada em 1926 denominada As ilhas desconhecidas – Notas e paisagens, tornando-se numa das obras que cultivou o inconsciente coletivo relativamente à imagem perpassada pela natureza interna e externa açoriana. Aliás, é neste seu trabalho que se celebriza o código cromático deste arquipélago, correspondendo Santa Maria à ilha amarela, São Miguel à verde, Terceira à lilás, Graciosa à branca, São Jorge à castanha, Pico à negra, Faial à azul, Flores à rosa e Corvo à preta. Outros livros relativos a viagens do autor ficaram vincadas no seu repertório, entre eles Os Pescadores (1923) e os dois volumes de Memórias (1919 e 1925, respetivamente). Para além disso, também a conjuntura política não passava incólume ao olho lírico de Brandão, que criticou a república pelas expectativas não correspondidas no pós-revolução, apelando à contínua procura por um ideal comum de todos para todos.  El-Rei Junot (1912), A Conspiração de 1817 (1914) e O Cerco do Porto (1915, publicado na revista Renascença) são dois dos projetos que sintetizam toda esta mágoa do autor, retratando de forma triste e disforme a sociedade de então ao usar a História como fonte de interesse e de paralelismos. A sua colaboração na revista Seara Nova (1921), com autores como Jaime Cortesão ou Aquilino Ribeiro, consolidou este pendor, procurando dotar esta de um sentido lúdico e construtivo relativamente aos valores sociais e à sua expressão.

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Retrato de Raul Brandão e de sua esposa D. Angelina Brandão (1928), de Columbano Bordalo Pinheiro

Em termos narrativos e líricos, Brandão foi um dos maiores modernistas no ramo da ficção modernista, fundindo o então aclamado simbolismo para melhor encontrar a transcendência da realidade descrita e aparentada. Os contextos que apresentava eram grosso modo regressivos e depreciativos, culminando em protagonistas parvos e descompensados no que toca à assunção dos seus sonhos. A Farsa (1903) e Os Pobres (1906) foram duas das obras nas quais esta premissa se evidenciou com maior retumbância, desarmando os preceitos burgueses em busca de um ser social idóneo e ético. No entanto, foi em Húmus (1917) que melhor captou a pequenez da existência humana, enaltecendo a tragédia que caraterizava a chegada da cidade ao seu sonho e recorrendo a processos de desconstrução do tempo narrativo para melhor percecionar esta frustrante intenção. Deste exaspero nasce a desordem, uma que rompe os frágeis suportes da sociedade (constatável também em O Doido e a Morte (1923, num retorno à dramaturgia)). Para auxiliar o raciocínio do autor, destrinçou o eu social (mascarado) do eu profundo (sonhador). O recalque do sonho a partir da máscara gera as tensões do ser humano, tornando-o maculado e grotescamente angustiado. Todo este teatro é jogado com forças visíveis e invisíveis, em que o apocalipse interior é alcançado na transgressão moral dos protagonistas.

Esta dualidade entre a impotência dolorosa do indivíduo (completando-se na sua aparição “grotesca”) e a necessidade de encontrar o compromisso ético entre as partes é uma constante na exortação literária do autor portuense. Tudo isto com vista a encontrar o sentido humano nesta dinâmica universal, mesmo recorrendo a personagens bastante desfasadas no que toca ao ideal comportamental e existencial num palco teatral cujas didascálias exprimiam as ambições do narrador. Essas ambições correspondiam ao alcance do absoluto, do esplendor do ser humano. Isto ficava patente na perenidade incutida à paisagem idílica ou ao ser redentor e humilde. Em suma, a literatura de Raul Brandão encontrava em si um elo pelo qual expunha as contrariedades da existência humana, substancialmente no que toca à sua dimensão pequena e insuficiente para alcançar os sonhos propostos.

Valeu-me a pena viver? Fui feliz, fui feliz no meu canto, longe da papelada ignóbil. Muitas vezes desejei, confesso-o, a agitação dos traficantes e os seus automóveis, dos políticos e a sua balbúrdia – mas logo me refugiava no meu buraco a sonhar. Agora vou morrer – e eles vão morrer.
A diferença é que eles levam um caixão mais rico, mas eu talvez me aproxime mais de Deus. O que invejei – o que invejo profundamente são os que podem ainda trabalhar por muitos anos; são os que começam agora uma longa obra e têm diante de si muito tempo para a concluir. Invejo os que se deitam cismando nos seus livros e se levantam pensando com obstinação nos seus livros. Não é o gozo que eu invejo (não dou um passo para o gozo) – é o pedreiro que passa por aqui logo de manhã com o pico às costas, assobiando baixinho, e já absorto no trabalho da pedra.
Se vale a pena viver a vida esplêndida – esta fantasmagoria de cores, de grotesco, esta mescla de estrelas e de sonho? … Só a luz! só a luz vale a vida! A luz interior ou a luz exterior. Doente ou com saúde, triste ou alegre, procuro a luz com avidez. A luz é para mim a felicidade. Vivo de luz. Impregno-me, olho-a com êxtase. Valho o que ela vale. Sinto-me caído quando o dia amanhece baço e turvo. Sonho com ela e de manhã é a luz o meu primeiro pensamento. Qualquer fio me prende, qualquer reflexo me encanta. E agora mais doente, mais perto do túmulo, busco-a com ânsia.

Raul Brandão in Se Tivesse de Recomeçar a Vida (edição de 1995)

Raul Brandão faleceu aos 63 anos no dia 5 de dezembro de 1930, recebendo diversas iniciativas honoríficas, tais como uma biblioteca com o seu nome em Guimarães, uma rua na zona lisboeta de Alvalade e uma placa identitativa no Jardim do Passeio Alegre, na Foz do Douro. Um autor que assentou na dor e no sonho, visualizando a sociedade no espaço entre as linhas que distanciam conceitos tão diferentes. É numa distinção profunda que se concentra a criação estética e lírica de um autor que nunca esqueceu a sua experiência pessoal e profissional nos seus escritos. Entre tudo isto, a necessidade do ser ético e íntegro, a dolorosa passagem do ser humano para o grotesco da sua impotência, o recalcamento de todo o sonho que se impossibilita na sua condição mas que dá sentido e cor à vida. Tudo isto sem esquecer o contraste entre o dia e a noite, entre o sonho no meio da escuridão e a dor na flor do brilho, redescobrindo o poder da configuração impressionista da luz. Toda a redescoberta da infância no tempo e no espaço, no contexto e na sociedade, jogando com o alvorecer e com o anoitecer. O simbolismo ganhou asas com vistas a abandonar a toada decadente à qual a sociedade se havia entregue. Para além da dimensão simbólica, muito do real e do natural que expressou também se fez sentir, principalmente no estudo da existência humana e da sua posição social. Para isso lhe valeu a sua experiência como redator e diretor de periódicos vários, como O Dia e A República. Todo o ofício que foi exercendo nunca desprimorou a literatura como a arquitetura da sua mente e alma, expressão sentida e construída a partir do mundo observado e versado na arte e engenho de sofrer e de sonhar. Raul Brandão foi a afirmação que procurava a superação, não só de si mas de todo o seu país.

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