Radiohead: O preço do grátis

2 MAIO, 2016 -

A banda de Thom Yorke deve lançar o seu novo trabalho nos próximos dias, ou pelo menos já começou com toda a força a campanha de marketing em torno do novo álbum. Sendo assim, decidimos escrever um pouco sobre a lógica de vendas do álbum In Rainbows, que podia ser descarregado gratuitamente do site da banda e que foi um dos mais rentáveis de sempre dos Radiohead.
O texto base deste artigo foi escrito em 2011, no livro “The Price Of Everything“, de Eduardo Porter. Nesta altura ainda não havia spotify ou outra plataforma com a mesma lógica, mas se leres todo o texto vais perceber que se calhar pode ter nascido daqui.

Para aqueles que acreditam que a internet pode mudar tudo, o dia 10 de Outubro de 2007 foi então um pequeno marco decisivo. Nesse dia, a banda britânica Radiohead ofereceu aos seus fãs a possibilidade de pagarem o que entendessem para fazer o download do seu novo álbum In Rainbows. Se quisessem podiam até tê-lo de graça.

Sendo assim, cerca de um milhão de fãs fez download no primeiro mês, de acordo com a comScore, uma empresa de pesquisa de mercado, dos quais mais de 6 em cada 10 não pagaram nada. Vários outros milhões fizeram o download do álbum a partir de serviços ponto-a-ponto (um princípio utilizado, por exemplo, pelo Napster) que oferecem aos fãs a possibilidade de partilhar a sua música online, em vez de o fazerem através do website grátis dos Radiohead.

Para os economistas, cuja a compreensão da civilização começa com a pressuposição de que as pessoas intrinsecamente procuram a melhor relação qualidade preço, o que era desconcertante é que 38% das pessoas que fizeram o download de In Rainbows, de acordo com a estimativa da comScore, optaram por pagar ainda que não tivessem que o fazer. Será que estes fãs foram inundados por um impulso altruísta de dar dinheiro às estrelas rock, apesar de estas serem ricas? Ou talvez porque pensaram que era injusto não pagar nada por algo que desejam, feito por pessoas que adoram? Ou ainda porque talvez apreciaram a novidade da experiência?

A comScore estimou que a banda ganhou 2,26 dólares por download; uma soma decente tendo em conta que o ficheiro de áudio disponível era de qualidade bastante reduzida. Além disso, a banda não teve de partilhar dinheiro nenhum com nenhuma empresa discográfica. Os fãs precipitaram-se para comprar uma versão do álbum de melhor qualidade quando foi posto à venda, uns meses mais tarde – impulsionando-o para o topo das tabelas norte-americana e britânica. Nos Estados Unidos In Rainbows permaneceu  na tabela durante 52 semanas, mais tempo do que qualquer outro álbum dos Radiohead. Em Outubro de 2008, o álbum tinha vendido mais de 3 milhões de cópias, de acordo com a editora da banda, incluindo 100 mil, de um conjunto numa embalagem especial vendida por 80 dólares. isto ultrapassou as vendas dos dois álbuns anteriores: Hail to the Thief e Amnesiac. Impulsionado pela imensa publicidade em torno da publicação do álbum, os subsequentes concertos da digressão foram um êxito esmagador.

Para os crentes no poder transformador da internet, a experiência dos Radiohead sugeria que a economia da informação pode revolucionar o capitalismo ao permitir aos criadores ganharem a vida e ao mesmo tempo oferecerem de graça as suas criações. Esta nova economia poderá exigir que as pessoas mudem radicalmente a sua abordagem face à propriedade. Mas In Rainbows demonstrou que se os criadores se libertarem dos grilhões do capitalismo representantes da ganância corporativa que indevidamente engoliram uma grande fatia dos seus rendimentos, este novo paradigma poderá resultar para todos.
Deixaria de ser necessário que os criadores se escondessem atrás das paredes dos direitos de autor erguida para proteger a “propriedade intelectual”. A produção de bens de informação seria sustentada pelo altruísmo dos consumidores ao oferecer o produto do seu trabalho árduo a todos os que o quisessem gratuitamente.

No entanto, apesar do sentimento altruísta da proposta implícita dos Radiohead, In Rainbows foi menos um produto de idealismo comunitário do que uma necessidade urgente e cabal. A ligação entre a criatividade e o comércio que alimentou o capitalismo durante centenas de anos está sob uma ameaça crescente. Os computadores e a internet tornaram a cópia e a partilha de informação, em todo o mundo, tão fácil que os criadores perderam a capacidade de cobrar dinheiro por isso. Os Radiohead estavam à procura de alternativas para sobreviverem num mundo em que, goste-se ou não, os seus fãs podiam ouvir a sua música de graça sempre que quisessem.
A música é a ponta do icebergue no entanto com esta experiência os Radiohead sustentaram na altura um ponto de vista adicional com o qual os piratas contemporâneos querem encerrar o argumento: abrir mão  gratuitamente  da propriedade intelectual permitiria aos seus criadores ganharem mais dinheiro do que se a mantivessem fechada. Se no passado os artistas faziam digressões para promover o seu último álbum, hoje o último álbum promove os concertos da digressão. Para além isso, uma banda que oferecesse canções gratuitamente online permitiria aos fãs testar as suas ofertas e convencê-los a comprar mais música da banda, T-shirts, porta-chaves, e outros objectos.

A experiência de In Rainbows, como acabaste de ler, é tida como um excelente exemplo de que serviços como o Spotify, que usamos hoje em qualquer dispositivo, fazem todo o sentido.

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