Rachel Cusk: “Muitas pessoas recusam-se a saber como é construída a ilusão da vida e da felicidade

30 MAIO, 2017 -

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Com um discurso lento, ponderado, por vezes contraditório, Rachel Cusk (n.1967) demonstrou muita cautela durante a conversa com a Comunidade Cultura e Arte [CCA], em Matosinhos, durante o “LeV- Literatura em Viagem”. O seu instinto de defesa está mais alerta depois de comentários muito agressivos da imprensa inglesa. Os seus dois principais trabalhos — ainda não traduzidos para português — valeram-lhe o epíteto de “The first literary bad mother”. “A Life´s work: On Becoming a Mother” e “Aftermath: On Marriage and Separation” são perturbantes abordagens ao divórcio e à maternidade. A utilização da vida privada como matéria literária é partilhada por autores como Ferrante, St Aubyn e, principalmente, Knausgaard, por quem a autora demonstrou admiração.

Mesmo com críticas mais direccionadas para si, Cusk viu o seu trabalho reconhecido pela crítica literária. A sua voz destacou-se e as nomeações para os prémios literários viriam a acontecer. Os seus livros estiveram na “shortlist” do “Man Booker Prize”, do “Folio Prize”, “Bailey´s Prize” entre outros.

Em Portugal, “Arlington Park” e “A Contraluz” foram traduzidos e publicados.

“A Contraluz” (Quetzal), sobre o qual a autora inglesa falou com a CCA, marca uma mudança de registo. Publicações como “The Guardian”, “The Telegraph” e “The New York Times” louvaram o primeiro livro de uma trilogia que acompanhará a vida de Faye, personagem principal. “Transit”, segundo volume, foi recentemente publicado em Inglaterra.

Faye é, tal qual Rachel Cusk, uma predadora de histórias. Durante a sua viagem para Atenas, sob um calor intenso, a narradora vai ouvindo e escrevendo as histórias contadas por quem com ela conversa.

As diversas vozes vão formando uma narrativa fragmentada sobre o amor, a solidão, a família, a perda. “A Contraluz” diverge de anteriores obras, pois o “eu narrativo” esconde-se no silêncio e pouco se dá a conhecer. Faye, uma escritora que vai dar aulas de escrita criativa na Grécia, está ali para ouvir…

Qual é a sua relação com a ficção? Existe uma linha entre ficção e “não ficção”?

Nos meus trabalhos iniciais, existia uma linha. Agora possivelmente não existe. São formas diferentes, mas com processos semelhantes. Por vezes, escrevia na forma de autobiografia porque estava a falar das minhas experiências. Essa forma ajustava-se ao que estava a escrever. Agora estou muito menos interessada nessa distinção entre formas.

É uma fase diferente na sua escrita?

É uma fase posterior. Uma evolução. Queria livrar-me da artificialidade.

Numa entrevista ao “The Guardian”, disse que considerava a ficção falsa e embaraçosa…

Claro, se escrevemos sobre o ser humano e sobre o mundo… A autobiografia não é diferente do romance. Não teve mais a ver comigo do que o romance. Uso a ideia de “eu” com determinados propósitos. Senti-me a quebrar os constrangimentos por ver um romance de outra forma.

Está mais protegida em “A Contraluz” do que em “A Life´s work: On Becoming a Mother” e  “Aftermath: On Marriage and Separation”? 

Sim, se as pessoas escolherem ler o texto literalmente. Foi melhor não ter ido para aquela área onde existe confusão sobre quem é aquele “eu” e o que está a fazer. Suponho que é uma decisão que me defende melhor.

Tentei conhecer melhor Faye, mas ela é como uma elipse. Ela esconde-se no silêncio?

Sim, é isso que ela faz, sem nunca o confessar.

É silêncio auto imposto? Ela quer estar em silêncio?

Ela não tem nada para dizer [risos]. Ela é uma escritora que está a escrever o que vê.

Existe espaço em branco na história de Faye…

Só pode ser apreendida através do que ela escreveu na primeira pessoa. Essa é a única forma em que pode ser entendida. O próprio desenho do livro tem a intenção de montar as descrições através do que ela ouve. Como podemos saber quem são as outras pessoas? Através do que dizem e do que vês fazer.

Em “A Life´s work: On Becoming a Mother” e “Aftermath: On Marriage and Separation” deu muito de si, de uma forma directa. Agora parece estar a mostrar-se de uma forma indirecta…

Eu fui muito objectiva nesses livros sobre essas experiências. Usei a forma autobiográfica. As pessoas ficaram zangadas. Fi-lo há algum tempo. As culturas mudaram, no sentido de que algumas ideias são familiares às pessoas e faz com que fiquem menos zangadas. As pessoas levaram a peito o que eu escrevi.

Em Inglaterra, existe um problema em ver a experiência e a identidade como política. É comum vê-las como triviais. Acusam de estar a “lavar a roupa suja”. Em França, os meus livros são entendidos de forma diferente no que diz respeito a feminismo e género.

Há uma passagem em “A Contraluz” que mostra Faye defronte de um modelo de barco. As velas dão a ilusão de estarem a ser sopradas pelo vento. Faye decide dar um passo em frente e tocar no modelo. Ela teve de o fazer para sentir e ver a verdade.

Sim, é um dos momentos dolorosos do livro. Ela teve de se confrontar com a “tecnicalidade” da ilusão. Ela percebeu que a realidade e a vida se constroem daquela forma.

Ela intervém…

Sim, ela “passa a linha”. Muitas pessoas recusam-se a saber como é construída a ilusão da vida e da felicidade; recusam-se a saber que são construídas tecnicamente, pois implica dor.

Qual é o papel do homem louco? É uma forma de Faye dizer que não quer saber o que os outros dizem, pois sabe quem ela própria é?

É uma forma de ela dizer que não vê o seu destino nas mãos das outras pessoas. Não é nada que ela tenha feito. Ele é simplesmente louco. É uma forma de ser livre, de dizer que não é sua culpa e que não merece ser castigada.

Um dos estudantes, dentro da sala de aula, diz que os animais de estimação observam-nos enquanto vivemos. Eles são a prova de que nós somos reais. Através deles nós acedemos à nossa própria história. Nesta interacção, nós — e não eles — revelamos quem somos a nós próprios. O silêncio é um espelho?

Esse é um exercício de escrita que Faye lhes dá. O exemplo do animal é uma forma de introduzir objectividade no mundo subjectivo dos seus alunos e não propriamente para mostrar o que os animais realmente fazem. O objectivo não é o animal; o objectivo é aprenderem a não estarem presos na própria realidade, neles mesmos. O animal impede que fiquem presos.

Foi uma forma de pensar sobre o processo criativo?

Sim, absolutamente. O livro é o resultado do meu pensamento sobre o meu processo de escrita. Este processo de ter a ficção também como tema do texto requereu que muito do que está no livro estivesse ligado a uma escritora.

Na sala de aula e em tantas outras circunstâncias, o silêncio parece ter a mesma função que tem numa sessão de psicanálise.

É por isso que na aula de escrita ninguém escreve; todos falam. Falar é escrever. É uma distinção importante no livro. A única pessoa que realmente está a escrever é Faye, e ela não fala. Em “A Contraluz”, tento fazer a separação entre base e narrativa, que passa pela terapia e audácia das pessoas falarem depois do que viveram e sobreviveram. É um testemunho de sobrevivência.

Como em “Transit” ?

“Transit” é a passagem entre duas coisas, tal como o título indica. As pessoas percebem que ela continua a existir depois de “A Contraluz”. Há a tentativa de desaparecer, mas ela tem de viver e tem de ocupar espaço. Em “A Contraluz” ela está longe de casa. O leitor não sabe como é a vida dela, como são as suas relações. No entanto, ela existe e como tal têm de existir algumas relações. “Transit” é sobre ela se tornar visível. Ela revela-se mais, embora com pouca vontade. Uma vez que está em casa, as pessoas reconhecem-na e têm informação sobre ela.

Numa entrevista ao “The Telegraph”, disse o seguinte: “Penso que se a minha escrita vem de algum lugar, é de lá [St Mary´s convent school em Cambridge]. A minha vida interior é claramente definida e separada do que estava à minha volta, naqueles anos que passei na escola”

A tensão entre o que é público e privado é essencial em “A Contraluz”?

O que eu disse sobre St Mary´s School deve-se a ter sofrido uma experiência de alienação. Não menciono isso para que as pessoas sintam pena de mim, mas porque é interessante marcar o lugar onde paraste de acreditar no mundo e começaste a discordar com ele.

Fotografia de: Anna Skladmann

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