‘Rabo de Peixe’: ‘o fim de qualquer coisa’

31 AGOSTO, 2016 -

A obra documental Rabo de Peixe, de Joaquim Pinto e Nuno Leonel, foi filmada entre 1998 e 2002 e, quinze anos depois das filmagens, foi remontada sem limites de conteúdo e duração. Depois de todo esse tempo, os Açores mudaram e a pesca artesanal quase acabou. A obra retrata o fim de qualquer coisa. Os barcos de boca aberta já quase não são utilizados. A pesca artesanal quase acabou, explicou o realizador Joaquim Pinto.

No filme E Agora? Lembra-me, de 2013, Joaquim Pinto recorda uma passagem pelos Açores quando procurava uma aproximação à vida. A vila Rabo de Peixe foi esse lugar de aproximação, onde as pessoas renovaram o olhar de Joaquim Pinto e Nuno Leonel. Foram essas pessoas movidas na beleza humilde dos seus rostos, do seu trabalho e das suas tradições que trouxeram uma nova vitalidade à vida dos dois autores. A amizade foi também um dos grandes motivos para a realização do filme. Os dois realizadores estabeleceram uma forte relação com Pedro, um pescador, que foi a referência para retratar o modo de vida, rigoroso, de um pescador comum. Através da visualização desta obra fica-se a perceber, dum ponto de vista muito pessoal dos dois realizadores, a vida em Rabo de Peixe e de como era importante a pesca artesanal e o mar. O ponto alto da jornada de um pescador no mar era a captura do espadarte, também designado por vezes como peixe-espada, por ser feita em alto mar e ser a mais lucrativa e perigosa de todas as espécies capturadas naquela zona. O espadarte pode atingir um tamanho máximo de 4,3 metros e um peso de 540 kg. Segundo vimos no filme, os pescadores artesanais geravam cerca de 40% de todas as exportações dos Açores, sendo o mercado japonês e norte-americano os seus principais consumidores.

A forma como a vila foi filmada, as viagens de pesca e toda a vida da população em torno do mar é muito bem conseguida. A envolvência dos realizadores com toda aquela realidade sente-se na aproximação que existe entre as câmaras e as pessoas. Os miúdos da vila também ajudaram nas filmagens e houve até uma espécie de pacto: eles ajudavam nas filmagens que os realizadores queriam fazer nos barcos, durante a pesca, e em troca podiam filmar em terra – a primeira coisa que os miúdos quiseram filmar, em terra, foi o mar.

A obra Rabo de Peixe é muito mais do que um director’s cut, sobretudo porque passa a estabelecer com o filme E Agora? Lembra-me um par cinematográfico genial que resulta de um fulgor documental e pessoal, comum aos dois realizadores. O filme assume assim uma vertente muito própria comum aos seus próprios autores. Acaba por ser uma espécie de prequela do E Agora? pois retrata precisamente o momento em que Joaquim Pinto e Nuno Leonel decidem passar a viver em Rabo de Peixe para renovaram os seus olhares para com o mundo.

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