Quem é Kazuo Ishiguro, o vencedor do Prémio Nobel de Literatura 2017?

5 OUTUBRO, 2017 -

Editado em Portugal pela Gradiva, o celebrado autor inglês de origem nipónica vence o mais prestigiado prémio literário, e, depois de Bob Dylan, a Academia Sueca retoma a sua tradição de sobriedade

O Nobel da Literatura de 2017 foi atribuído a Kazuo Ishiguro e aos seus “romances de grande força emocional, que revelam o abismo da nossa ilusória sensação de conforto em relação ao mundo”, anunciou esta manhã em Estocolmo a secretária permanente da Academia Sueca Sara Danius.

Nascido a 8 de novembro de 1954, o autor de 62 anos mudou-se aos cinco com a família do Japão para o Reino Unido, quando o pai foi aceite como investigador no National Institute of Oceanography, em Southampton. Foi educado numa escola de rapazes em Surrey, e após ter-se licenciado em 1978 com uma especialização em língua inglesa e filosofia na Universidade de Kent, na Cantuária, trabalhou como assistente social nos bairros mais pobres de Londres. Em 1980, obteve um mestrado em escrita criativa pela Universidade de East Anglia. Três anos depois, foi incluído na lista de melhores jovens escritores britânicos organizada pela Granta, a par de Martin Amis, Ian McEwan e Salman Rushdie.

O comité do Nobel adiantou no Twitter que Ishiguro tem mostrado uma certa propensão para temas relacionados com a memória, o tempo e as ilusões que alimentamos para suportar a vida. Após o anúncio, Sara Danius deu uma curta entrevista difundida em directo em que sublinhou o facto da Academia distinguir este ano “um escritor de grande integridade” e “um romancista absolutamente brilhante” que “desenvolveu um universo estético só seu”. “Kazuo Ishiguro está muito interessado em compreender o passado. Não para o redimir, mas para revelar o que temos de esquecer para podermos sobreviver enquanto indivíduos e enquanto sociedade”. A porta-voz do júri do Nobel disse também que o seu romance favorito do autor britânico é o recente “O Gigante Enterrado”, “uma verdadeira obra-prima que começa como uma comédia de costumes de P.G. Wodehouse e acaba num registo kafkiano”.

Num tom que já de si denuncia a fraqueza da Academia por uma obra cuja originalidade nasce de um batido de diversas influências, Danius indicou que além de Kafka, Jane Austen é outra das referências mais notórias na escrita de Ishiguro, acrescentando que para obter a receita completa desta será preciso ainda “acrescentar um pedacinho de Marcel Proust e depois agitar, mas não muito”.

Em declarações à BBC, Ishiguro disse que recebia o prémio como “uma magnífica honra, acima de tudo porque significa que estou a seguir as pisadas dos maiores autores que já viveram”. O escritor não deixou, no entanto, de acusar o peso da responsabilidade que lhe recai sobre os ombros, e afirmou que “o mundo vive um momento de grande incerteza e espero que todos os prémios Nobel possam ser uma força para que algo de positivo ocorra. Ficarei muito comovido se puder participar de algum modo este ano para uma atmosfera positiva num momento de tão grande inseguranças”.

Depois da publicação do seu primeiro romance, “As Colinas de Nagasaki”, (1982), Kazuo Ishiguro “tem sido um escritor a tempo inteiro”, como sublinhou a Academia Sueca. Longe de ser um autor prolífico, como o júri notou, a sua escrita “é marcada por uma expressão cuidadosamente contida, independentemente dos acontecimentos que retrata”. À semelhança do que viria a acontecer na sua segunda obra, “Um Artista do Mundo Transitório” (1986), editada em Portugal pela Livro Aberto, o romance de estreia tem a sua acção na cidade onde o escritor nasceu, alguns anos depois da Segunda Guerra Mundial e da devastação provocada pela bomba atómica dos EUA.

Numa entrevista ao “Público”, em 2005, Ishiguro falou do seu nascimento no Japão pós Segunda Guerra Mundial: “Acho que todos tememos uma coisa como a bomba atómica, só que eu nasci em Nagasáqui e aprendi o que isso quer dizer de uma maneira diferente da maioria das pessoas. A minha desconfiança na ciência e na capacidade que a sociedade humana tem para gerir as suas próprias descobertas está provavelmente enraizada nesse facto.”

A atribuição do Nobel da Literatura este ano arriscava sempre ficar na sombra da polémica do ano passado, e certamente, depois de Dylan, a escolha de Ishiguro surge como uma opção bem mais canónica da parte da Academia Sueca. Danius descreveu o autor britânico como “alguém muito empenhado em compreender o passado”, mas apesar das marcas de Proust, garantiu que a sua escrita não pode ser ligada à busca de um tempo perdido, e que não lhe interessa redimir o passado, mas que ele tem explorado o que é preciso esquecer de modo a que possamos sobreviver antes de tudo como indivíduos ou enquanto sociedade”.

A porta-voz adiantou ainda que, depois das divisões e da polémica do ano passado, esperava que a escolha deste ano fizesse “o mundo feliz”. Mas apressou-se a garantir que a Academia teve apenas como critério a distinção de um “romancista que julgamos ser absolutamente brilhante”.

Ishiguro tem nove livros publicados, incluindo “Os Despojos do Dia”, livro com o qual venceu o Booker Prize, em 1989 e que foi adaptado ao cinema em 1993 por James Ivory, com Anthony Hopkins e Emma Thompson como protagonistas. Outro livro que mereceu alguma projecção foi “Nunca me Deixes” (2005), um romance distópico adaptado ao cinema em 2010, contando com realização de Mark Romanek e adaptação do argumento por Alex Garland, com Carey Mulligan, Keira Knightley e Andrew Garfield nos principais papéis.

A Relógio D’Água publicou em 1989 “As Colinas de Nagasaki”. Desde então, a obra do autor tem sido dada a conhecer ao público português pela Gradiva, sendo “Nocturnos” (2009) e “O Gigante Enterrado” (2015) os dois livros mais recentes do autor.

Ishiguro escreveu também “Os Inconsolados” (1995, vencedor do Cheltenham Prize) e “Quando Éramos Órfãos” (2000, nomeado para o Booker Prize e para o Whitbread Prize), e entre as múltiplas distinções pela sua obra, conta com a nomeação como Chevalier de l’Ordre des Arts et des Lettres em França, no ano de 1998.

Depois da atribuição da 113ª edição do prémio a Dylan, no ano passado,  “por ter criado novas formas de expressão poética no quadro da grande tradição da música americana”, Ishiguro é uma escolha que não supreende – ainda que o seu nome não figurasse entre os favoritos das principais casas de apostas – nem entusiasma. Apesar de um certo favor da crítica, está longe de ser um autor incontornável, e o mais provável é que, como aconteceu com Patrick Modiano (que venceu o galardão em 2014), depois de passar a momentânea febre do Nobel, o seu nome volte à segunda linha da literatura contemporânea.

Se a atribuição do Nobel a Dylan foi considerada a mais radical da história da Academia Sueca, e se a Academia pagou caro o preço de ter buscado prestígio ao colar-se ao ícone, este mostrou-se pouco confortável com a suposta honra, e mostrou-se um vencedor hesitante, esquivo, tendo levado alguns dos membros da academia à exasperação. Depois de ter mandado às urtigas a etiqueta, mostrando-se indisponível para aceitar o prémio, Dylan foi descrito como “indelicado e arrogante” por Per Wastberg, um dos membros do júri. É claro que também não compareceu à cerimónia de entrega do prémio em Estocolmo.

Ishiguro já deu sinal de que não vai fazer nenhuma desfeita à Academia. A festa vai ter tudo, ainda que alguns membros da comunidade literária, como notou o “The Guardian”, se tenham mostrado pouco impressionados com a escolha mais ‘pacífica’ deste ano. “Esta parece ser a mais manhosa das atribuições do Nobel desde que o deram ao Obama por não ser o Bush” disse o jornalista e romancista britânico Hari Kunzru. Se a escolha de um escritor que tem já um digno palmarés e alguma aclamação crítica promete apaziguar as tensões depois da vitória de Dylan, Will Self reflectiu o fracasso da Academia em mostrar que o seu juízo ainda é um farol a ter em conta no meio literário: “Ele é um escritor bastante bom, e certamente não merece a fossilização e desprezo que vem com este tipo de prémio”.

A canadiana Margaret Atwood, o queniano Ngugi Wa Thiong’o e o japonês Haruki Murakami eram os nomes que lideravam as apostas este ano, com António Lobo Antunes a figurar uma vez mais na lista dos tradicionais candidatos ao prémio. Só nesse sentido é que Ishiguro é uma escolha inesperada. Entretanto, as reacção começam a chegar, e Salman Rushdie, outro dos anuais candidatos ao Nobel, colocou a tónica certa ao felicitar o amigo, sem dar demasiado peso à distinção: “Muitos parabéns ao meu velho amigo Ish, cujo trabalho amo e admiro desde que li pela primeira vez ‘As Colinas de Nagasaki’. E ele também toca guitarra e escreve canções! Roll over Bob Dylan”.

Por sua vez, Andrew Motion, poeta laureado do Reino Unido entre 1999 e 2009, deu sinais de arrebatamento e mostrou alguma familiaridade com obra nas declarações que prestou ao “The Guardian”: “O imaginativo mundo de Ishiguro tem a grande virtude e o grande valor de ser ao mesmo tempo altamente individual e profundamente familiar – um mundo de espanto, isolamento, vigilância, ameaça e maravilhamento”.

“Como é que ele o consegue? Entre outras formas, ao basear as suas narrativas em princípios fundadores que combinam uma tão fastidiosa distâncias quanto igualmente vívidas indicações de intensidade emocional. É uma combinação tão extraordinária quanto fascinante, e é maravilhoso vê-la ser reconhecida pelo júri do Nobel”, disse Motion.

Comentários

Artigos que poderão ser do teu interesse

ARTIGOS RELACIONADOS

Kazuo Ishiguro não estava entre os favoritos para o prémio da Academia Sueca. Ainda assim