Quantos anos são precisos para esquecer um?

22 DEZEMBRO, 2016 -

Estou quase a morrer de sono – só que ainda tenho forças para contestar o porquê de se morrer de sono, porque é o que os trabalhos vêm às cargas, porque é que não se pode cortar a tensão com uma espada samurai? E, já agora, porque é que 2016 foi tão podre? A crítica aborrece-me cada vez mais, só tenho desejo pela linguística – apetecia-me fodê-la toda. Por acaso também já atingi o clímax neste sofá, mas hoje é uma noite sem Maria. Ainda assim, fiz planos. Vou contar-lhe tudo, mas antes disso peço apenas que tcheque a sala, talvez importe saber de onde escrevo: chapéu anti-social, rosa, pastel, pendurado no nosso televisor finíssimo; duas costelas de adão enormes; um dos vasos dourado; uma tela algo hockney; um néon branco que diz TÉDIO, esculpido em luz a partir da caligrafia dela; um gato-leopardo, a sua caminha tigresa. E para hoje, o que vai ao lume? Confesso, queria tomar mimosas, ler qualquer coisa óptima, super-inspiradora – o meu grande plano era escrever um poema sublime, sobretudo, sobre estes tempos. É que eu só escrevo, sabe?, mas dou por mim a fazer filmes. Posso estar com ela, mas não estou sempre com ela. E, verdade seja dita, quem me dera fazer isto mais vezes. S H U T D O W N. Para quê continuar a escrever-lhe poemas se são estes os textinhos pindéricos que tanto gosta? Bem, se calhar até são estes os meus poemas e talvez um dia, fingers-crossed, comecem a ser óptimos. Pode ser que seja hoje. É que estou a ouvir Frank Ocean, a fumar um cigarrinho à cowboy e o surrealismo parece-me tão moderno como deixar-me adormecer. Eu não tenho culpa de ter tido história da arte – de ter esta ambição de fazer algo novo, sei lá, disruptivo? Não tenho culpa de ter vista para o tejo, nem do quanto se observam tempos estranhos. Só me resta começar por aqui, explicar que ácido tanto é o seu sabor dos seus beijos como qualquer edição boom. Pedir desculpa-lhe, sabe?, Clara Ferreira Alves.

I

Bom dia a todos, já viram isto? Parece que é 1755 – isso mesmo, all over again. Quando a desgraça chegou às notícias já as vagas subiam acima da ponte 25 de Abril, e pior que isso, o futuro fez estalar cada um dos nossos átomos. A pressão é tal que se torna desnecessário compará-la a um diamante. Reagimos sem surpresa ao melhor e ao pior. Imagine isto: ondas maiores que o Arco Triunfal a detonarem em cima de si e da sua família; de quem mais gosta. À distância podiam ser um Rothko, mas aparecem no espelho do seu novo Audi, ou do seu Bmw azul-petróleo, se calhar, do seu Mercedes? Nada mau, mas será que está preparado para o pior? Será que ainda se lembra que a vida é um confronto? Do ultimato que é a sobrevivência? Olhe que isto vai de mal a pior. Vá lá, uma coisa boa acerca de ter crescido no bairro – e em viver noutro – é que não esqueçamos certas sensações que passámos. O punho frio de uma arma de fogo. Uma despensa recheada de melhores dias virão. As saudades de um pôr-do-sol, pêssego, com vocês – a ver as ondas, se possível.

II

Dar à luz? Percebo, ainda estou numa de dar-lhe gás. Calma, é só uma expressão. É só uma defesa face a este mundo e, claro, face a crescer. Talvez tenha passad0 demasiado tempo a pensar num porsche preto, a colecionar miniaturas de hot wheels; sempre naquela onda de que um dia me ia safar, que tenho a estrelinha, yh?, só que, verdade seja dita, todos esses sonhos eram só chapa e nem os seus pequenos travõezinhos me impediram de ka-pow. A hipnose da velocidade, lembra-se? Às vezes temos ideias tão boas, mas tão boas, que ficamos a acelerar em direcção a elas — esquecemos até que podem ser boas demais para serem verdade. Sim, é isso mesmo, a sua mulher que o diga. Desculpe lá qualquer coisinha, mas perceba que já não faço caso entre velocímetro e contra-relógio, entre mudança da hora e solstício de verão. Mesmo quando a música se torna chuva ou quando o amor se despedaça. Há arritmias, arriscava até dizer inseguranças, que são como marcas no metal depois de um embate – autênticas obras de arte. Quanto a mim, acho que precisava de um fato de corrida — uma paródia com minions, negro como o stig original, ou até vibrante como na capa do Frank. Só era OBRIGATÓRIO que fosse anti-chamas. É que há carros que já não precisam de condutor, mas eu continuo a acreditar que só a palavra se conduz sozinha, que só o poema pode estar on fire.

III

Acho que as aulas de catequese duraram mais tempo que os meus valores judaico-cristãos. Sim, a culpa é minha. Ou talvez seja de 2016, de cada ano se tornar num verdadeiro chapadão. Antes demais, não, nunca fui a um clube de strip. Por muito que goste de maminhas e de auréolas cor-de-rosa. Só que nesta demanda de mente sã, corpo são, entre viagens de avião e capitais europeias, não foi difícil concluir que o negro já se tinha apoderado de mim. Pelo menos não estava à porta, como todos os que morriam à beira do mar – não se esqueçam deles. Era um terror tal que nem 1791 lhe faz justiça. E depois? Fez alguma coisa para mudar isso? Não, mas deixei de fumar e começaram autênticas visões do inferno. Miúdas que amei, miúdas que não me amaram de volta, os seus rostos como vampiras demoníacas – e sabem bem o quanto eu acho sexy tudo o que é sangrento. Também vi amigos com duas caras, família que escondia um punhal. Poças e poças de escarlate, porque um ano pode ser um mergulho de onde não voltamos a emergir. Lembrei-me de conceitos milenares como luz e trevas e, claro, espírito santo. E não foi por ter feito amigos ricos de antigas famílias banqueiras. Foi por ter concluído que entre pecado e consciência há uma grande semelhança – ambos têm um certo peso. Felizmente, (ou infelizmente, depende do ponto de vista da putaria – se está a olhar para a janela, ou se quer voltar a entrar) foi mais ou menos nessa altura que me apareceu um anjo loiro. Odiou que lhe chamasse isso, mas não gostou muito mais quando lhe chamei gata. Ainda por cima era linda, ainda hoje estamos casados. Amo-a, odeio-a, conhecem este trampolim? Acho mesmo que não era capaz de a matar. Foi ela que me levou à Holanda de um dos meus poetas favoritos, onde os meus valores, tipo rebranding, voltaram a brilhar — achei aquilo tudo um degredo. Um país tão limpo, tão florido, a fazer das putas um autêntico lá féria. Quando encontrei água benta, bebi-a sedento, lavei-me, mas ainda arranjei forças para perguntar à Maria se queria escolher uma amiga para levarmos para casa, ámen.

IV

Quando me vê com a minha t-shirt Saint Laurent – aquela preta, com os dentes de vampiro que pingam corações – acredita que esse podia ser o meu retrato?

V

Já reparou que a sociedade obriga, praticamente, a que nos toquemos? Uns aos outros, calma, se bem que não está assim tão longe – fica este exemplo, um episódio de TODAS as vezes que tenho de ir a Belém. Imagine que há uma miúda que adoro – tipo Georgia Jagger, igualmente ginger – que trabalha por cima de mim, no Museu Berardo. Um dia estava a almoçar no Pão Pão quando ela se senta mesmo ao meu lado, cumprimentei-a, simpático como sempre, mesmo sem grande esperar converseta (tem ar de francesa, está a ver o estilo?) e não é que a bacana nem me respondeu? Acabei o almoço a fumar ganza com as duas pretas que estavam sentadas do outro lado e ela a olhar — tipo que éramos do gueto? Dica: éramos, querida! e nunca vamos deixar de ser. Se ela foi cruela de vil comigo, porque é que continuo a ter de roçar cotovelos com ela no elétrico? Ainda no outro dia, parecia que era baila kizomba, tarrachinha, quando só tentávamos ler dos nossos iPhones. Só que a carruagem estava tão cheia… fui obrigado a sentir as notas do seu perfume chanel, tive até de trocar um olhar com ela em que fiquei a suspeitar mais do que devia. Um desconforto assim faz-me pensar em coisas muito piores. Trágicas. Na tristeza que é ela não saber que estou a ler a Paris Review – mas ter a certeza que o governo norte-americano sabe. E lembro-me de coisas tão horríveis como macabras. Pablo matou inocentes com um berbequim e um martelo só para viciar tantas outras pessoas no pó – e nós adorámos a versão em seriado. Cocaine Kate, it’s not that great. Recordo-me que parti a casa toda da minha Carolina, ao pontapé, quando soube que essa putinha escanzelada estava oficialmente bulímica. Coisas estapafúrdias, que não lembram a ninguém. Quantos headlines sobre o falecimento do Bowie são precisos para salvar um refugiado? E já viram o estado da economia? Arriscava dizer que o elétrico só passa a cada quarenta e cinco minutos. E ela apanha sempre o mesmo – antigo, amarelo, icónico quinze – que eu.

VI

Há uma dimensão cómica para tudo isto — alguém que escreve um artigo de opinião, mas cuja opinião serve apenas para moldar e modelar todos aqueles que à partida vão acreditar no que diz. Chama-se publicidade ou hipnotismo? Não sei, mas deve dar jeito a alguém (e deve ter piada). Só que há uma dimensão que não é assim tão cómica, que só tem uma certa graça: – saber que não vou ter de beijar nenhuma quarentona com falta de pau, nem vou ter de estrear estas beiçolas no broche, só para publicar esta pseudo-obra literária: INTERNET WRITING, BITCH. Está aqui, obrigado pelo seu tempo. Nunca se esqueça que somos só uma migalha no cosmos. Divirta-se. Coma marisco. Beba champagne. Não morra sem fumar erva. Se achou que tudo isto foi dramático demais, é natural – não é a primeira vez que dou um excesso de peso ao tempo. Um beijinho, Clara. Mande um abraço ao comandante.

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