Quando a vida te der limões, faz uma ‘Lemonade’

1 MAIO, 2016 -

Algo que o tempo invariavelmente ensina é que opinar sobre algo, sem reflexão e conhecimentos mínimos sobre a verdadeira realidade do assunto, é normalmente a receita infalível para um discurso incoerente e ignorante. Partindo deste pressuposto, após ter visto o Lemonade, decidi ler as mais variadas críticas norte-americanas, europeias, péssimas, óptimas, escritas por brancos, negros, por mulheres ou por homens.  Antes de mais, a meu ver, esta peça de audiovisual é uma obra-prima, tal como o Tropico da Lana del Rey, dentro do mesmo género. Obra-prima que se preze cria sempre grande polémica, principalmente pela razão de o ser acima de tudo.

A obra-prima nasce talvez, dos pontos de vista formal e cinematográfico. É de sincera qualidade visual; quase uma linguagem que lembra Terence Malick, com algumas referências ao Stanley Kubrick. Há que ressalvar ainda isso o uso concomitante das linguagens urbana e provincial, daquele ponto específico da América.
Visualmente não consigo apontar falhas. A comunicação, a semiótica e os planos são geniais, bem como tudo que envolveu esta mega produção. Nos últimos anos, como ninguém, Beyoncé soube aproveitar e rodear-se dos melhores profissionais desde a área da música, à vídeografia, culminando no marketing.

Na grande maioria das críticas, ressalvo a falta de pragmatismo social e humano. As pessoas continuam presas à cultura da anulação, continuam presas aos mitos urbanos- se gostas de morangos, não podes gostar de chocolate, se ouves Death Metal não podes ouvir Lady Gaga, se gostas de carne não podes gostar de peixe. Um álbum com uma produção musical excepcional, desde James Blake a Jack White.

Um dos pontos que mais me faz discordar da grande maioria das críticas, é o uso obsoleto da expressão “apropriação cultural” para disparar, em todas as direcções, cegamente. Compreende-se que o uso de referências a situações, tais como os assassinatos de Ferguston e as cheias de New Orleans, para vender discos seja considerado uma apropriação excessiva de algo. No entanto, não se pode menosprezar o poder mediático e social da Beyoncé na hora de formar e influenciar opiniões e é de salientar o enaltecer da consciência pública,  face às injustiças geradas pelo sistema, dando voz aos que mais proximamente sofreram com as perdas dos jovens assassinados.

É absurda e hipócrita a tendência social de considerar que uma acção só é boa e altruísta em si mesma, se não tiver em vista gerar lucro, mesmo que seja para adquirir iates, em última instância. Um exemplo prático: se der 1000€ a um mendigo do Porto e com isso ganhar exposição e muito dinheiro em publicidade, não sou um monstro. No fim do dia, o que realmente importa é a possibilidade de mudar a vida do mendigo com a quantia visada. Se a Beyoncé lucrar com o recurso ao massacre do seu povo, pois bem que assim seja! Podia optar por um vídeo álbum sobre ursos polares ou twerktime, o lucro seria o mesmo provavelmente.
Falar em Beyoncé é evocar a genialidade da maior diva do nosso século. Neste momento, pode fazer o que bem entender, pode até mesmo não fazer nada- o seu posto é garantido. Beyoncé escolheu um caminho formativo, com uma mensagem social e racial potentes, de forma a espalhar a mensagem que os Estados Unidos atravessam uma guerra moral contra os negros, uma espécie de peste de Albino Aligators.  Os negros são oprimidos e tratados como cidadãos de segunda, na sociedade americana, há demasiado tempo, Beyoncé apenas constatou musicalmente o que está à vista de todos.

A Beyoncé, antes de ser mundial e internacionalmente reconhecida, é negra, texana e  “middle America”. Encontra-se com as suas raízes e herança cultural, no presente álbum . Um álbum feito por uma negra, sobre e para a cultura e heritage negra. Neste campo, há muitas questões inapropriáveis pela “white America” e é isso que talvez enviese e enfureça tanto a crítica. Uma homenagem aos bravos panteras negras ,em directo da Super Bowl,para 300 milhões de pessoas , provoca mal-estar “white America”. Falta perceber que, o estatuto da Beyoncé é único, só ela tem este poder cultural para fazer diferença nesta temática.

Lemonade é  uma auto-biografia de uma mulher venerada, amada e traída pelo próprio marido. É o negativo da realidade do comum mortal. Normalmente, o exterior e a sociedade atacam-nos e a nossa família e companheiros/as são o nosso porto seguro. Este álbum é o relato solitário da mulher mais amada e presente, no mundo da música, por estes dias. É o relato de uma mulher esmagada pela pressão de balançar a maternidade, o casamento e a vida de playmobile, com ser a maior estrela dos nossos dias.

A mensagem que, “Sim, ele traiu-me, muitas vezes, mas é o pai da minha filha, é um gajo fixe e por isso, chorem, berrem, mas no fim perdoem” ,é algo muito redutor e muito perigoso para se pensar, principalmente numa sociedade a assistir a uma revolução feminista e a cada vez mais casos extremos de violência doméstica. É biográfico, uma narrativa real e fiel ao real acontecimento dos factos. No entanto, há que ressalvar que o feminismo é a libertação do Homem, é a anulação do homem das decisões do universo feminino, é a capacitação da mulher como factor único, sem recurso ao homem.

Texto de Peter Castro
Edição de Sofia Trovisco

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