Quando a máfia toma gosto pelas obras de mestres como Rembrandt e Vermeer

25 JULHO, 2017 -

Em 1990 deu-se um dos maiores roubos de obras de arte, e o mais impressionante foi a falta de aparato. Como se os ladrões assaltassem a casa de uma velhinha. De lá para cá, nenhuma das 13 peças roubadas reapareceu. Avaliadas em 500 milhões de dólares, o Isabella Stewart Gardner, de Boston, vem tentar agora o tudo ou nada e ofereceu um valor recorde como recompensa

Quase três décadas desde a noite em que dois tipos disfarçados de polícias entraram no Museu Isabella Stewart Gardner, em Boston, para, em menos tempo do que dura a típica fita de Hollywood, levarem a cabo o maior golpe no mundo da arte desde o roubo de “Mona Lisa”, a administração do museu deu um sinal da pouca confiança que deposita ainda na capacidade do FBI para vir a reaver as 13 peças roubadas. Resolveu, por isso, duplicar a recompensa oferecida, juntamente com a garantia de anonimato a quem dê informações que ajudem a recuperar as obras. O prémio sobe assim para 10 milhões (perto de 8,6 milhões de euros), sendo a soma mais avultada já oferecida numa situação destas, mas fica a valer apenas até ao final do ano.

E 10 milhões são, neste caso, uma pechincha se se tiver em conta que as obras estão avaliadas em 500 milhões de dólares. Entre as mais valiosas contam-se “The Storm on the Sea of Galilee”, de Rembrandt, “Chez Tortoni”, de Monet, “The Concert”, de Vermeer, e alguns esquissos de Degas, e a busca por pistas sobre o paradeiro deste tesouro nos últimos 27 anos tornou-se uma espécie de demanda do graal, tendo participado nela não apenas os investigadores do FBI como uma série de detetives privados e jornalistas e não havendo até hoje certezas sobre quem foram os dois assaltantes.

Arthur Brand, conhecido como o Indiana Jones do mundo da arte pelas muitas obras que as suas investigações ajudaram a recuperar, está entre aqueles que apontam o dedo ao Exército Republicano Irlandês (IRA), acreditando que as obras terão saído dos EUA e estão hoje nas mãos de alguns dos antigos líderes daquele grupo. Para Brand, o museu aumentou a parada num “agora ou nunca”, havendo teorias para todos os gostos neste que, além de ser o maior roubo de arte nos EUA, é também o mais opulento mistério.

A tese central segue o puzzle que o FBI tem montado peça a peça nas suas investigações e atribui o golpe a um arranjo entre alguns cappos da máfia de Boston, num desses biscates que revelam dar mais chatices do que lucro, mas que não deixam de provar o espírito de iniciativa destas personagens tão vivas no bairro que eram os primeiros a saber quando surgia uma aberta. Acontece que, passados estes anos, os suspeitos do costume já estão fora de cena, mortos noutras aventuras, incluindo os dois que foram identificados pelo FBI como os que passaram a perna aos dois jovens inexperientes, licenciados em Arte, que na noite de 18 de março de 1990 tinham à sua guarda o museu.

A isto acresce ainda outro problema. Com toda a capacidade para explorar oportunidades, o que os mafiosos não anteviram foi que o golpe tivesse tanta repercussão, de tal modo que o roubo se revelou a parte menos complicada da operação. Mesmo passados anos, não havia notícias de as peças terem dado à costa do mercado negro, talvez porque não havia colecionadores suficientemente temerários para agarrarem a batata quente. Brand disse ao “El País” que não lhe parece provável que as obras venham a aparecer, mesmo agora, que o resgate duplicou: “Estes tipos só confiam nas próprias mães e é possível que as obras tenham sido destruídas entretanto ou que estejam em péssimo estado. E, evidentemente, não se vão fiar na polícia. Em certos círculos, a verdade nunca se chega a saber, mesmo tendo passado 27 anos.

Depois há precedentes que não são propriamente encorajadores para ladrões arrependidos ou atraídos pela recompensa. Em 2008, o Museu de Antropologia da University of British Columbia fez uma proposta irrecusável depois de algum ouro lhe ter sido roubado, colocando o valor da recompensa acima do valor do ouro puro. Os ladrões ficaram convencidos, mas ao devolverem as peças roubadas deixaram que a polícia lhes caísse em cima. Outro exemplo curioso remonta a 1975, quando 28 quadros foram roubados da Galeria de Arte Moderna de Milão. A recompensa foi oferecida e aceite pelos ladrões. As obras foram devolvidas por cúmplices e os mesmos ladrões voltaram ao lugar do crime para um encore, levando mais quadros do que da primeira vez. E mostraram a sua predileção por alguns, voltando a roubá-los.

Outra questão que se põe nos casos em que é preciso levantar a recompensa sem se incriminar tem a ver com o facto de o anonimato oferecido pelos museus e outras entidades espoliadas nunca poder constituir uma amnistia ou um resgate, uma vez que a lei o proíbe em vários países.

Seja como for, e venham algumas das obras a regressar ao Gardner ou não, um dos aspetos mais curiosos neste museu é a circunstância de os seus visitantes, ao longo dos últimos 27 anos, se terem deparado sempre com o vazio deixado pelos ladrões. Isto deve-se a uma particularidade que está ligada à génese do museu. Isabella Stewart Gardner foi uma afortunada mecenas que na sua vida construiu uma das mais impressionantes coleções privadas do mundo, entre pinturas, esculturas, antiguidades asiáticas e europeias e uma série de outros objetos miríficos, desde cartas de Napoleão à máscara de morte de Beethoven. Procurando imortalizar o seu bom gosto, em 1903 mandou erguer na sua cidade um palácio de estilo veneziano onde residiu até ao último dos seus dias (em 1924), sendo ao mesmo tempo um museu aberto ao público. No testamento garantiu que Boston continuaria a beneficiar deste privilégio, mas com uma condição: nenhuma das obras poderia ser retirada do local que ela tinha escolhido para as exibir.

Quanto ao golpe, e uma vez que há ainda demasiadas peças do puzzle por encontrar, nestes 27 anos houve uma série de teorias que envolveram este caso no tipo de intrigas que dariam para um livro de Dan Brown: desde o roubo ter sido atribuído a agentes ao serviço do Vaticano até aos rumores de que foram militantes do IRA que conseguiram tirar as peças do país, passando pelas suspeitas de que foram emires do Médio Oriente que tinham mesmo de ter aquelas obras nas suas coleções.

Mas voltando àquela noite, o mais curioso não foi a forma como os mafiosos se infiltraram no museu, fazendo-se de polícias a investigar uma denúncia de “perturbações” no museu, como recorreram a fita adesiva para algemar e tapar o rosto dos dois vigilantes, metendo-os na cave, mas a forma descarada e até desmazelada como, nos 81 minutos daquela noite que permaneceram no museu, passaram ao lado de obras mais valiosas, e parece terem escolhido o que levaram um pouco ao calhar, sem observar cuidados especiais essas obras, cortando sem cerimónia as telas de dois Rembrandt para as sacarem das molduras e partindo as proteções de vidro que protegiam outras obras, e pelo modo como se puseram ao fresco com o vídeo de segurança como se tivessem acabado de roubar uma loja de conveniência.

Artigo escrito por Diogo Vaz Pinto, publicado no nosso parceiro jornal i

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