Quando a elite literária era ibérica e não espanhola ou portuguesa

30 MAIO, 2017 -

A propósito da Feira do Livro de Madrid, em que Portugal é pela primeira vez o país convidado, e dadas as dificuldades nas últimas décadas para estabelecer laços entre a literatura portuguesa e espanhola, recorda-se um tempo em que havia uma comunidade artística e intelectual ibérica.

Toulouse 15, 9 da noite. O poeta português Eugénio de Castro, que se dirigia a Paris para dar uma série de conferências, ao apanhar o comboio teve a desgraça de cair, fracturando uma perna. Ficou num hospital da cidade.”Surpreenderá o leitor português contemporâneo que um corriqueiro incidente com uma figura hoje tão obscura como o poeta simbolista Eugénio de Castro merecesse tal destaque na imprensa madrilena de 1923, num jornal de monta como o ABC. Acontece que Castro era então figura de culto junto dos círculos literários hispânicos, mantendo relação e influenciando, ao longo do primeiro terço do século XX, autores tão proeminentes como Rubén Darío, Miguel de Unamuno, Juan Ramón Jiménez ou Gerardo Diego.Tal fenómeno decorre, por um lado, de uma atitude crítica transversal às manifestações artísticas da época. Eugénio de Castro escreveria ele próprio polémicos prefácios às suas obras, dirigiria invectivas contra os modelos estéticos que o antecederam, sacrificaria a sua obra juvenil em louvor do novismo, denunciaria a apologia do progresso industrial e científico então em voga, sendo um verdadeiro precursor da modernidade peninsular.Por outro lado, havia então uma comunidade artística e intelectual ibérica, da qual participavam nomes como Teixeira de Pascoaes, Guerra Junqueiro, Fernando Pessoa, Almada Negreiros, Miguel de Unamuno, Ramón Gómez de la Serna, Maristany ou Eugenio d’Ors, comunidade essa promovida por contactos pessoais e colaborações diversas e que encontrava na sua condição periférica em face dos centros de canonização europeus a força-motriz da sua própria modernidade.

Se a modernidade literária se começou por definir, em grande medida, pela sua dimensão contracultural, opondo-se aos desígnios civilizacionais então preponderantes (deificação da ciência, da indústria, da técnica e do mercado), essa sua vocação crítica revelou-se particularmente aguda no contexto ibérico, pois jogava-se aqui uma autêntica questão identitária contra uma progressiva globalização que ameaçava engolir as manifestações periféricas. E tinha voz em publicações, conferências, jornais, tertúlias. A literatura exigia-se então o direito a existir contra a lógica dominante, sob a forma genérica da polémica.

Essa vocação polémica foi levada ao extremo pelas vanguardas. Mas foi também a partir delas que a literatura foi moderando progressivamente a posição crítica em nome do absoluto relativismo que o pós-modernismo consagraria, contra a noção de poéticas fortes e fracas, de cânone e, como tal, de História Literária, associando-se assim, nem que fosse por omissão, às manifestações do poder vigente, que a compraria, domesticaria e dela faria criação em matilha.

Esta abdicação da crítica, a par da miscigenação do literário com o civilizacional, cristalizou-se nas últimas décadas, abrindo as portas à sua mercantilização sem resistência, pois o poder é hoje empresarial. E somos chegados assim ao tempo do livro na prateleira do supermercado, mas também do Festival Literário e da Feira do Livro nos quais a literatura compõe o ramalhete dos comes-e-bebes, dos concertos gratuitos, dos carrocéis e dos packs promocionais.

Não é de estranhar, portanto, que a presença portuguesa na Feira do Livro de Madrid surja totalmente mediada pelos grandes grupos editoriais, e tal facto é até, em verdade, pueril, não implicando perigo algum para a literatura. Que o mercado vise os seus próprios interesses – que são ainda os dessa Europa civilizada que determina o horizonte de periferias selvagens como as do Sul… – não é surpresa alguma, e não há nada de repugnante nos fenómenos sociais e comerciais associados a uma certa ideia de literatura.

Perigoso é, no entanto, que os autores não privilegiados pela lógica dominante se demitam de assumir uma posição crítica em face da mesma, permitindo que o mercado regule em absoluto o espaço que o literário ocupa na ordem dos dias, já que dele estão em dependência todos as demais instituições que poderiam ter voz na questão. As academias, as escolas ou a imprensa limitam-se hoje a servir de incubadora de consumidores dos grandes grupos editoriais – e a literatura portuguesa levada a Madrid é apenas mais um exemplo disto mesmo.

Hoje é inimaginável qualquer tipo de relação peninsular profunda como a que esteve na base da aparentemente supérflua notícia sobre a perna partida de Eugénio de Castro. E é-o porque a sua existência dependeria da assunção, por parte do escritor contemporâneo, de uma relação crítica com o seu tempo, em que Portugal e Espanha continuam a assumir uma posição absolutamente periférica. Na verdade, talvez nunca como hoje Madrid e Lisboa se tenham assemelhado tanto. Também por lá a Feira do Livro é já só um centro comercial amplificado e ampliado. E é justamente por isso que continua a ser desconcertante a actualidade de que se revestem as palavras de Ruy Belo, quando dizia ser Madrid “uma das cidades do mundo mais distantes de Lisboa”.

Artigo escrito por Miguel Filipe Mochila, publicado no nosso parceiro Jornal i

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