Quais são os 10 filmes favoritos do realizador Andrei Tarkovsky?

3 AGOSTO, 2016 -

Recentemente vimos Quentin Tarantino e a imprensa da especialidade a referenciar vários filmes como fonte de inspiração para Christopher Nolan, no filme Interstellar. Dois desses filmes são 2001: Space Odyssey, de Stanley Kubrick e Solaris, de Andrei Tarkovsky.

O paradoxo desta junção de influências está na opinião de Andrei Tarkovsky sobre a obra-prima de ficção científica de Kubrick. Para o realizador soviético, 2001: Space Odyssey era estéril e frio – o seu filme Solaris, em oposição, foi mesmo denominado de “anti-2001”.

Perceber melhor o que movia Andrei Tarkovsky é essencial para compreender esta sua opinião e este catalogar de filme “anti-2001”. Em 1972, no lançamento da sua 5ª longa-metragem, Solaris, o mestre soviético foi convidado a elaborar uma lista dos seus 10 filmes favoritos.

  • Le Journal D’un Curé de Campagne (Robert Bresson, 1951)
  • Winter Light (Ingmar Bergman, 1963)
  • Nazarin (Luis Buñuel, 1959)
  • Wild Strawberries (Ingmar Bergman, 1957)
  • City Lights (Charlie Chaplin, 1931)
  • Ugetsu Monogatari (Kenji Mizoguchi, 1953)
  • Seven Samurai (Akira Kurosawa, 1954)
  • Persona (Ingmar Bergman, 1966)
  • Mouchette (Robert Bresson, 1967)
  • Woman of the Dunes (Hiroshi Teshigahara, 1964)

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As suas escolhas seguiram a sua motivação cinematográfica, a lógica da sua filosofia no mundo da arte. Para Tarkovsky a questão não está na forma, na estética, mas sim no alcance que a arte pode repercutir na humanidade – uma profunda introspeção filosófico-existencial. Todos os filmes desta lista, segundo o realizador, justificam o motivo da arte: criar harmonia num mundo desorganizado emocionalmente.

O mais chocante desta pequena lista é a ausência de filmes soviéticos, a existência de apenas um único filme mudo.

No entanto, as justificações são aparentemente razoáveis. Para o realizador os primeiros 50 anos do cinema são como um prelúdio para o que ele considerava ser o cinema verdadeiro. Já a ausência de filmes soviéticos vai ao encontro da ausência do cinema dito real. Essa ausência, poderá ter a ver com a influência do regime soviético – onde o cinema era a forma de arte visual mais divulgada entre as massas. Esta lógica é um pouco polémica, visto que Tarkovsky beneficiou da política cinematográfica da URSS para produzir filmes de orçamentos consideráveis, que iam frequentemente ao encontro da estética e ideologia artística oficial do país naquela época.

Por outro lado, era também notório que dentro do seu país natal o prestígio de Tarkovsky era relativamente menor, exactamente porque a sua imagem era a de um artista individualista, em dissonância com a doutrina oficial do estado.  Essa condição ambígua do director dentro da União Soviética deixou-o numa precária posição em relação à elite governamental.

Andrei Tarkovsky era um génio não-conformista, aceite de uma forma algo relutante pelas autoridades soviéticas e por outro lado um cineasta que – como outros escritores e cineastas russos e soviéticos – dedicou-se a explorar questões históricas, demonstrando assim uma obsessão com a fidelidade histórica e a precisão factual. O que também é um eco das práticas de autores ligados ao regime soviético.

Talvez por tudo isto que mencionei, Andrei Tarkovsky não pudesse, por questões políticas, falar positivamente de 2001: Space Odyssey, ou, se calhar, era mesmo questão de gosto. Na verdade, os filmes dele eram avessos aos de Kubrick.

No entanto, há detalhes muito curiosos do único filme americano que ele escolheu, fica a especulação para vocês: se nos situarmos no tempo, estávamos em plena guerra fria – 1945 a 1991 – e a exploração espacial era um assunto de extrema importância, tanto para os EUA como para a URSS.

Se esmiuçarmos o único filme americano que Andrei Tarkovsky escolheu, na lista dos seus filmes favoritos, podemos descobrir o seguinte: City Lights é um filme independente americano, dirigido na totalidade por Charlie Chaplin, um realizador “não americano”, que estreou a 1931 – fora da época da guerra fria.

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