‘Putinlândia’, uma leitura obrigatória pelo actual contexto europeu

27 OUTUBRO, 2016 -

Obra de Bernardo Pires de Lima, investigador do Instituto Português Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa, “Putinlândia” não é somente uma análise sobre a Rússia de Putin como o título poderia erradamente fazer crer num primeiro instante. Ao invés disso, este é um livro sobre a forma como construiu a sua figura dentro do seu país e das acções exteriores e rede de influências que o presidente russo foi alimentando ao longo de anos por toda a Europa fora. Essa rede de influências que alimenta movimentos políticos nacionalistas e xenófobos europeus é não mais que uma das grandes causadoras de uma Europa intolerante, cada vez mais racista e, infelizmente, capaz de implodir a qualquer momento.

Já aqui referi que uma coisa é perceber as motivações de Moscovo, a sua identidade geopolítica, o putinismo; outra bem diferente é aceitá-las como meios legítimos para enfraquecer as nossas democracias. (…) A guerra na Ucrânia é a fronteira entre a força futura da coesão das democracias europeias e o sucesso do livre arbítrio por uma autocracia monumental que, no final, quer estilhaçar a UE e a NATO.”

A inexistência de Jean-Claude Juncker (Presidente da Comissão Europeia) que só vai sendo disfarçada por Angela Merkel, a única com força suficiente para funcionar como representante da UE, ainda que lhe falte legitimidade para falar pela pluralidade dos países que dela fazem parte. Aliado a isto está a falta de pulso na tomada de decisões mais sensíveis por parte da administração Obama contra a Rússia, uma das principais razões para o despreocupado avanço do país de Putin e dos EUA terem passado para segundo plano no que à resolução do conflito sírio diz respeito. A dificultar a situação na Síria está também Erdogán, que não sendo publicamente o maior fã de Putin, tem demasiadas semelhanças com o líder russo e uma agenda própria. Quando os EUA – porventura o maior e mais histórico parceiro institucional da UE – perdem, a Europa democrática ressente-se.

Numa altura em que é importante conhecer o desfecho das eleições de 8 de Novembro nos EUA, a ligação que ambos os candidatos têm para com a Rússia é também referida em “Putinlândia”, sobretudo o facto de Trump ter como braços direitos da sua campanha homens com fortes ligações ao país soviético. Hilary está numa posição semelhante através de ligações entre a Fundação Clinton e a Rússia. Já com outro livro lançado entretanto sobre o que poderá ser uma governação dos EUA levada a cabo por Hilary Clinton (“Administração Hillary“, em co-autoria com Raquel Vaz-Pinto e editado igualmente pela Tinta da China), mais importante que as ligações que qualquer candidato tenha é saber o que farão depois de estarem eleitos. Esperam-se difíceis tomadas de decisão.

Nem os EUA nem sobretudo a UE podem continuar a ignorar um ilegítimo e criminoso avanço russo sobre a Crimeia assobiando para o ar como se nada fosse. Não oferecendo uma solução, pois não há uma “solução” previamente escrita e certa, Bernardo Pires de Lima expõe os factos e dá-nos os dados para avaliarmos a situação com conhecimento de causa. A opinião que daí retirarmos, é somente nossa.

Em “Putinlândia” estão explanados variados acontecimentos ao nível da geopolítica europeia e mundial que são aqui analisados em pequenas crónicas. O livro sofre e beneficia das vicissitudes das mesmas na sua própria estrutura (ist est, de ser formado por textos avulsos). Se por um lado a análise sobre a questão abordada acaba por pecar pela falta de aprofundamento, por outro ficamos munidos dos factos e de uma base de pensamento – um ponto de partida se assim quisermos chamar – para uma reflexão que nos permitirá posteriormente analisar por nós mesmos as situações em causa.

É nesse aspecto que reside, de resto, o benefício de “Putinlândia”. É quase inerente ao livro a vontade que ao lê-lo temos de nos informar sobre o que lá é abordado. O pessimismo descritivo de Bernardo Pires de Lima funciona quase como uma wake up call para algo que nos diz directamente respeito, mas que às vezes nos esquecemos. O autor tem aqui uma contagiante e pedagógica maneira de fazer chegar a sua mensagem através da antecipação dos mais negros cenários possíveis.

Anos de influência e de culto à sua figura tornaram Vladimir Putin num verdadeiro master of puppets das relações internacionais cuja figura e financiamento aos movimentos nacionalistas espalhados um pouco por toda a Europa e que têm criado uma verdadeira legião de acólitos do presidente russo. A começar por Marine Le Pen, Viktor Orbán, ou partidos como o Attack da Bulgária ou Partido dos Verdadeiros Finlandeses, segunda força política do país liderada por Timo Soini, actual Vice-Primeiro Ministro. Todos estes epicentros de poder se alimentam da intolerância de um sentimento nacionalista que a qualquer momento ameaça implodir uma UE fragilizada pelo inesperado Brexit. O primeiro passo foi dado por um dos países históricos, porque não um dos outros lhe seguir os passos numa altura em que é tão fácil apontar culpas à União Europeia?

Bernardo Pires de Lima revela-nos uma verdadeira rede de interesses alimentados pela Rússia ao longo de anos e que agora, numa altura de fragilidade dos esteios europeus, põem a cabeça de fora, e quais abutres se prestam a voar sobre o que advêm de sucessivas más decisões por parte da UE que deixou os conflitos crescerem sem nunca lhes ter conseguido corresponder com medidas à altura da ocasião. As pesadas sanções em países europeus com uma fragilidade económica patente, assim como a vaga de refugiados numa UE em dificuldades só serviram para meter mais “lenha na fogueira”.

A ver de fora está Putin, a tomar decisões e servindo-se do facto de ter conseguido com destreza e capacidade, fechar o seu país ao exterior ao mesmo tempo que lhe incute um sentimento nacionalista de ódio além fronteiras que faz com que ignorem a precária situação económica do seu país onde foram atingidos números impressionantes de pessoas abaixo do limiar da pobreza. Essas pessoas, perigosamente culpam o exterior pela sua situação, porque Putin lhes incutiu esse pensamento de forma infelizmente bem conseguida. A pouca contestação à sua figura de líder depressa se silencia. Bernardo Pires de Lima não quer o silêncio, quer espírito crítico. E consegue-o.

Abaixo fica o vídeo da apresentação de “Putinlândia”:

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