‘Psycho’: Tudo o que sabemos do icónico filme de Alfred Hitchcock

1 MARÇO, 2017 -

O mestre dos filmes de suspense Alfred Hitchcock é considerado uma referência para qualquer realizador ou cinéfilo. Apesar de nunca ter ganho um Óscar, esteve nomeado seis vezes, cinco como melhor realizador e uma como melhor produtor, juntando-se assim a outro génio cinematográfico nas mesmas condições, Stanley Kubrick.

Hoje, e em retrospectiva, decidimos abordar ao detalhe a obra Psycho. Um dos filmes mais marcantes da carreira do mestre e do cinema.

O livro
Foi ainda durante a pós-produção do filme North By Northwest que Alfred Hitchcock se interessou pelo livro Psycho de Robert Bloch. O realizador teve o primeiro contacto com a obra ao ler a secção literária do The New York Times. O mestre do suspense gostou tanto do que leu que, pouco tempo depois, durante uma viagem a Inglaterra fez questão de a comprar, no aeroporto, e avisou de imediato a sua assistente pessoal Peggy Robertson de que o seu próximo filme seria Psycho.

O livro é muito mais violento do que o filme e a personagem principal é decapitada no chuveiro, em vez de esfaqueada como acontece no filme. No entanto o próprio livro é menos violento do que a história de Ed Gein, o assassino que inspirou a obra literária de Robert Bloch.

Ed Gein, a história do assassino
Ed Gein foi um assassino que chocou os Estados Unidos da América, matou vizinhos e mulheres inocentes, apesar de ter sido condenado apenas pela morte de duas pessoas. Os seus actos macabros fizeram dele um mito americano e Gein influenciou a obra de Block, assim como muitas outras. Os filmes The Texas Chain Saw Massacre e The Silence of the Lambs servem de exemplo.

No entanto, é na obra de Hitchcock, Psycho, que a personagem Norman Bates, inspirada no assassino Ed Gein, ganha encanto através da perversão. O que é estranho, quando no livro de Block o psicopata é gordo, baixo e careca. No filme do realizador inglês, a personagem de Norman, interpretada por Anthony Perkins, foi tão marcante que definiu toda a sua carreira. Perkins nunca mais se conseguiu descolar do rótulo de Norman Bates.

Joseph Stefano, o argumentista ideal
Em primeiro lugar surgiu o nome de James Cavanagh, que escreveu alguns dos programas de televisão Alfred Hitchcock Presents. No entanto, foi posto de parte por Hitchcock, que achou o argumento muito aborrecido. Era inconcebível achar-se um argumento aborrecido a partir do livro Psycho. Foi então que Ned Brown, o agente de Joseph Stefano, cuja opinião Hitchcock tinha em muito boa conta, sugeriu o nome de Stefano.

Na primeira reunião entre Stefano e Hitchcock, o argumentista começou por explicar a introdução do filme, como o conhecemos hoje. A história começaria por ser sobre ela, Marion Crane, mas a história depois do assassinato, passaria a ser sobre ele, Norman Bates, o assassino.

Após a primeira reunião, entre Stefano e Hitchcock, o livro Psycho de Robert Bloch nunca mais foi tema de conversa, nem voltou a ser consultado. Os próprios diálogos do argumento eram trabalho exclusivo do argumentista. Hitchcock não falava de personagens. Havia uma total confiança em quem escrevia a história. Prova disso mesmo foi a primeira cena que Stefano escreveu, com liberdade completa. Hitchcock, depois de a ler, deu-lhe o melhor elogio, dizendo: “A Alma adorou-a”. Stefano ficou comovido, porque era óbvio que Hitchcock também tinha gostado, no entanto tinha sido amável ao dizer-lhe que a mulher o tinha achado.

A personagem Norman Bates
No livro, Norman Bates está na meia-idade, é depravado, bebe muito, é obeso e usa óculos de lentes grossas. Stefano, o argumentista, achou que a personagem teria de ser bem diferente. Quando Marion é morta, na cena do chuveiro, era suposto existir uma transferência de empatia para este homem, o assassino. Seria quase impossível construir uma personagem com estas características e fazer sentir essa empatia no público. Stefano construiu assim um jovem vulnerável, bem-parecido, triste e que dava pena. Foi então que Hitchcock sugeriu Tony Perkins, que reunia praticamente todas estas características desejáveis à empatia do público com o assassino.

A personagem Marion Crane
Para a personagem de Marion o realizador inglês sugeriu Janet Leigh, que segundo Hitchcock iria aceitar o facto de morrer tão cedo no filme. Segundo Janet, a primeira coisa que recebeu do realizador foi o livro de Robert Bloch, com uma nota que dizia: por favor pense no papel de Mary para si. No livro, a personagem principal tinha o nome de Mary e não Marion. A forma invulgar como o filme retrata o fim, tão cedo, da personagem Marion apaixonou Leigh, tendo em conta a inovação neste twist. O sim foi quase imediato e o facto de ir trabalhar com Hitchcock também pesou na sua decisão.

Muito perto da data do início das gravações Hitchcock telefonou a Janet Leigh para se discutirem as formas de trabalhar do realizador, de como trabalhava no plateau ou como utilizava a câmara. Foi então que Hitchcock lhe disse: “o único tipo de controlo é que a câmara tem de ser o ponto focal. Ou seja, quando a câmara se move tem de se mover também.

O segredo do filme
O sentimento de Hitchcock acerca do filme era que este tinha de se manter em segredo. A piada e a magia do filme só existiriam se não se soubesse a verdade da história. Até ao último momento, tinha de se fazer acreditar que a mãe de Norman Bates estava viva. O realizador para baralhar todas as opiniões, mandou que se espalhassem boatos sobre o atribuir o papel da mãe a alguém. Isso consolidaria o processo. Foram inúmeros os agentes com sugestões de actrizes para o papel. Foi uma mentira que funcionou a favor do público.

A cena do chuveiro
A icónica cena do chuveiro foi filmada num plateau de 4×4 metros, ou seja, muito pequeno e apertado. Esta cena foi filmada num terço de todo o tempo de filmagem da actriz principal, Janet Leigh, que trabalhou apenas três semanas no filme, ou seja, a sequência do chuveiro demorou sete dias de filmagem.

Psycho foi dos primeiros filmes a utilizar um duplo fotográfico nu, e isso foi um segredo muito bem guardado. Hitchcock queria uma modelo nua, porque achava que uma pessoa habituada a estar nua na sua profissão seria mais fácil de gerir do que uma actriz sem experiência de nudez à frente de centenas de pessoas.

A ideia da montagem da cena seria: cada corte teria o significado de uma facada, para que o público sentisse toda a intensidade da acção. O som que usaram para as facadas era o corte de melões amarelos, previamente escolhidos por Hitchcock. E o sangue usado, que teve imensos testes prévios, teve de ter uma densidade certa, visto que o preto e branco do filme anularia a importância da cor, e a densidade foi um problema. Foram testadas imensas coisas, desde sangue teatral – o mais usado em filmes a preto e branco –, ketchup e, por fim, o escolhido molho de chocolate. Sim, o sangue que vemos em Psycho é molho de chocolate.

O plano mais difícil de ser feito pela actriz, e tecnicamente mais difícil, foi o último plano com o olho, quando a câmara se afasta para o plano geral. Naquela altura não havia focagem automática, por isso, enquanto a câmara se afastava, tiveram de focar manualmente ao afastarem-se, o que se tornava extremamente difícil. Conseguir um olhar vítreo da actriz foi algo igualmente muito difícil. A cena final foi feita em mais de vinte takes.

A Importância da banda sonora
Quando Joseph Stefano, o argumentista, viu a primeira montagem achou o filme péssimo. Foi então que Hitchock, que estava ao seu lado, lhe deu umas pancadinhas no joelho e disse: é apenas a montagem preliminar. E, Stefano pensou: “o mestre é ele, está nas suas mãos“. Da segunda vez que o Joseph Stefano viu a montagem da obra ficou completamente encantado com o que viu. O filme estava afinado, tinha um bom andamento e estava maravilhosamente bem articulado. No entanto o melhor ainda estava por vir.

Da terceira vez que visualizou o filme foi com banda sonora. Nessa altura, quase caiu da cadeira. Bernard Herrmann, o famoso compositor que já tinha trabalhado com Hitchcock noutros projectos e que inclusive fez a banda sonora do mítico filme Citizen Kane, de Orson Welles, usou uma orquestra só de cordas para todo o filme Psycho.

Esse pormenor impressionou o argumentista Joseph Stefano que até então nunca ouvira falar de uma banda sonora feita apenas de instrumentos de cordas. Bernard Hermann descreveu a música de Psycho como preta e branca porque queria reflectir a brutalidade preta e branca do filme. E, até aos dias de hoje, ou seja, 55 anos depois, é uma das bandas sonoras mais marcantes do cinema.

Comentários

Artigos que poderão ser do teu interesse

ARTIGOS RELACIONADOS

A internet tem destas coisas, basta existirem apaixonados por cinema como Fabrice Mathieu.

As obras são da autoria de Fernando Reza da Fro Design Company para a su

O que é que Alfred Hitchcock, Harvey Weinstein ou Bi

Hitchcock/Truffaut é o novo e primeiro documentário a solo do realizador Ken