Proibido de filmar no Portugal dos Pequenitos, Vasco Araújo apresenta obra a negro

1 JUNHO, 2016 -

O artista queria filmar as esculturas de africanos que se encontram no parque, a Fundação Bissaya Barreto recusou.

O artista Vasco Araújo foi proibido de filmar no Portugal dos Pequenitos e, como consequência, inaugura esta terça-feira, no Laboratório de Curadoria do Colégio das Artes da Universidade de Coimbra, uma exposição com um vídeo sem imagens e a resposta da fundação que gere o parque ao seu pedido.

Incluída na exposição E daqueles que não queremos saber, a peça inéditaParque Temático procura criar um diálogo entre as esculturas de africanos que se encontram à entrada dos pavilhões das antigas colónias portuguesas no Portugal dos Pequenitos.

Face à recusa da Fundação Bissaya Barreto (FBB), gestora do espaço, a que o artista filmasse o parque, o vídeo de oito minutos é exibido na exposição apenas com um fundo preto, sem qualquer imagem do espaço, enquanto se ouve uma voz a ler o texto previamente criado, disse à agência Lusa Vasco Araújo, acrescentando que as cartas enviadas e a resposta da fundação serão também exibidas como peças expositivas.

Parque Temático surgiu depois de várias visitas do artista ao Portugal dos Pequenitos, em que Vasco Araújo pretendia filmar as estátuas de “negros com beiças pintadas de vermelho que lembram o Tintin no Congo” a questionarem-se “sobre quem as levou para ali e o que estavam ali a fazer”.

No entanto, quando contactou a FBB para receber a autorização, explicando o trabalho que pretendia fazer, não lhe foi dada nenhuma resposta. Posteriormente, foi mandada nova carta, através do mestrado em estudos curatoriais da Universidade de Coimbra, na sequência da qual a FBB recusou a autorização para a captação de imagens.

“A resposta foi feita sem qualquer justificação e isso mostra que a fundação lida mal com o conteúdo do parque temático e, nomeadamente, quando é posto em causa o seu conteúdo”, sublinha Vasco Araújo, considerando que o discurso presente no Portugal dos Pequenitos “é basicamente o mesmo” desde 1940.

Questionada pela agência Lusa, a FBB confirma o indeferimento do pedido do artista, sublinhando que está prevista uma expansão e requalificação do parque, em que serão introduzidos novos conteúdos” sobre o património edificado, nomeadamente nos pavilhões das ex-colónias, Madeira e Açores, informa.

Como justificação da recusa, a fundação argumenta que “decidiu suspender até ao final do ano o atendimento de pedidos externos, visando quaisquer produções de exploração temática sobre o parque actual, para concentrar a estratégia de comunicação, em exclusivo, na divulgação da nova imagem e do projecto de expansão do Portugal dos Pequenitos”.

Entretanto, a FBB continua a aceitar reportagens no local, como é visível na sua página de Facebook, onde partilhou uma imagem, a 18 de maio, em que anuncia que uma reportagem da ESEC TV no parque temático será exibida “brevemente”.

Para o artista, o parque representa ainda uma “relação eurocêntrica e autoritária”, num olhar “para os outros como inferiores e exóticos”, alimentando, à luz das teses do lusotropicalismo, a ideia de um colonialismo português benigno.

Segundo Vasco Araújo, a recusa da FBB é “um reflexo” da forma como Portugal se relaciona com o seu passado colonialista.

Na exposição vão estar também presentes as peças O Morto, de 2010, e O Jardim, de 2005, um vídeo em que o artista também problematiza questões relacionadas com o colonialismo, com filmagens no Jardim Tropical, em Lisboa.

Vasco Araújo nasceu em 1975, em Lisboa, e recebeu o Prémio Novos Artistas EDP em 2002, após a formação na Maumaus – Escola de Artes Plásticas e Fotografia e a licenciatura na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa.

A reflexão sobre o colonialismo está patente noutros trabalhos seus, como os recentes Demasiado pouco, demasiado tarde, É nos sonhos que tudo começa, O inferno não são os outros, em que apela a obras de autores como Pepetela (Yaka) e Isabella Figueiredo (Caderno de Memórias Coloniais).

A exposição em Coimbra, que encerra o ciclo Corpo Cinemático, do Laboratório de Curadoria do Colégio das Artes, vai decorrer até 1 de Julho.

Texto Lusa

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