Primeiro dia no NOS Primavera Sound

10 JUNHO, 2016 -

O NOS Primavera Sound regressou ontem, dia 9 de junho, ao Parque da Cidade, no Porto, para a sua quinta edição. Esta edição trouxe mudanças ao nível do espaço, com alterações na localização do palco Pitchfork, do mercado e da zona de street food. Em adição a isso, o primeiro dia, anteriormente caracterizado por apenas ter espectáculos nos palcos NOS e Super Bock, teve DJ Fra, Red Axes e John Talabot a assegurar a parte de música electrónica no palco Pitchfork. O alinhamento incluiu Sensible Soccers, U.S. Girls, Wild Nothing, Deerhunter, Julia Holter, Sigur Rós, Parquet Courts e Animal Collective.

A tarde começou com Sensible Soccers, que, com as suas paisagens electrónicas instrumentais, criaram um ambiente agradável para o início do final de tarde. Tanto havia pessoas a dançar mais fervorosamente nas filas da frente ou sentadas nas mantas de piquenique fornecidas pela organização, ao longo da encosta localizada em frente ao palco Super Bock. As batidas constantes e quentes aqueceram a tarde, que estava nublada, e serviram como um bom preâmbulo para o resto do dia.

Numa estranha organização, o concerto de U.S. Girls teve início instantaneamente após Sensible Soccers, com as pessoas a deslocarem-se para a frente do palco NOS ao som da Telephone Play No. 1. Meg Remy, fundadora do projecto, encontra-se aconpanhada de outra mulher, que contribui com backing vocals. As músicas são seleccionadas por Remy. Não há instrumentos em palco, com excepção de uma guitarra eléctrica que aparece duas vezes, tocada por apenas cerca de 20 segundos, por um indivíduo envergando um chapéu de cowboy. A música de U.S. Girls é assumidamente diferente, e o espectáculo acaba também por ser estranho. Algumas canções puxam mais pelo público, e convidam a abanar o corpo, como Damn That Valley, mas outras são demasiado desconexas e embebidas numa sensibilidade à anos 60, que não cativa tanto. Não se nega o carisma da vocalista, que tem imenso potencial, mas o maior problema foi a colocação no maior palco do festival.

De seguida, no palco Super Bock, seguiu-se Wild Nothing. Jack Tatum veio apresentar o seu mais recente Life of Pause, entrecruzando as músicas desse álbum com músicas de álbuns anteriores, nomeadamente de Nocturne, lançado em 2012. O sentimento foi de que as novas músicas ainda não estavam suficientemente apuradas para actuações ao vivo, perdendo intensidade por entre pérolas como Paradise ou Only Heather, músicas quase imaculadas, com inspiração dos anos 80. Wild Nothing trouxe reminiscências da edição de 2013, em que também fizeram a terceira actuação do dia. Três anos idos e pouco mudou, o que não é necessariamente mau, especialmente quando continuamos a ser presenteados com as melhores canções que Tatum compôs.

No palco NOS, pelas 20:00, entrou em palco uma das bandas maiores do cartaz, Deerhunter. Os Deerhunter são algo imprevisíveis, devido à volatilidade do vocalista, Bradford Cox. Com sorte, o público apanhou um bom dia e foi presenteado com um óptimo concerto. Mais do que apresentar o mais recente Fading Frontier, de 2015, os norte-americanos passaram por canções de Monomania (2013), Halcyon Digest (2010), Microcastle (2008) e até do EP Rainwater Cassette Exchange (2009). A canção homónima deste EP abriu o concerto, numa versão menos musculada que aquela a que a banda nos tem habituado em performances mais recentes. Os grandes destaques vão para a versão extremamente intensa de Helicopter, facilmente a canção mais emotiva da banda; a entrega funky de Living My Life, com direito a saxofone e tudo; e o rock sujo de Snakeskin, que pôs o Parque da Cidade a abanar a anca. Esperemos um concerto a solo da banda em terras lusas, com direito a uma setlist mais extensa.

Finalmente por volta das 21h foi a vez de Julia Holter, no Palco Super Bock. E que concerto foi esse para marcar este dia cheio de destaques. Acompanhada de um contrabaixista saído de uma banda punk, uma violinista e uma bateria, Julia Holter, no seu teclado, encantou o público que se juntou para ouvir a americana, com o seu pop barroco. O concerto começou com a doçura de Silhouettes, num alinhamento que incidiu sobretudo sobre o quarto e mais recente disco da cantora, Have You In My Wilderness. O expoente do concerto foi a magnífica Betsy on the Roof, momento de comunhão maior entre público e artistas em palco, que não deixou ninguém indiferente. Para terminar e marcar a despedida daquele que foi, se não o melhor, um dos melhores deste primeiro dia, Don’t Make me Over, cover de Dionne Warwick, num belo diálogo entre voz, teclado, contrabaixo e violino.

Logo de imediato, foi andar um pouco para o lado, para o palco NOS, onde a meio do concerto de Julia Holter já uma multidão marcava lugar para o concerto de Sigur Rós. Marcam as 22.30 e eis que chega então um dos momentos mais ansiados da noite, este concerto do trio islandês. Surgindo atrás de uma cortina metálica, hibrido entre grades e vidro, o espectáculo começou calmo, envolto em mistério. Mas, há terceira música, quem achava que ia passar todo o concerto envolto apenas nesta aura calma, terá sido surpreendido pela subida da cortina e pela vinda dos membros da banda para o centro do palco, finalmente numa posição de destaque, e para a libertação repentina de potência sonora, num alinhamento que incidiu sobre toda a discografia da banda, mas não incluiu êxitos como Hoppíppola. A cada música, as animações mudavam, às vezes uma espécie de filmes animados, outras apenas jogos de cores, raios, às vezes num tom industrial de luzes brancas que davam ao palco um tom industrial, qual armazém de betão onde música alada aquecia os corações. E foi o conjunto destas animações com as luzes que elevou o nível deste concerto, oscilando entre os momentos intimistas e minimalista e a explosão de força e luz, momentos de potência emocional enorme. No fim, a saturação no máximo, cores berrantes e a ultima libertação de energia, que fez terminar um concerto que nos emocionou do início ao fim.

Para o concerto de Parquet Courts, a banda decidiu acelerar a entrega das canções e dar um concerto com uma sonoridade mais punk do que aquilo que nos apresentam nas versões de estúdio. Essa decisão foi bem recebida pelo público, que irrompeu numa festa desmedida de saltos, moches e crowdsurfing, naquela que foi facilmente a reacção mais efusiva a qualquer um dos concertos da noite. A setlist extensa percorreu os três álbuns principais da banda, Light Up Gold (2013), Sunbathing Animal (2014) e nomeadamente Human Performance, o mais recente, lançado este ano. Apesar do som baixo da voz, que não deixou ouvir tão bem as letras e formas de cantar divertidas dos dois vocalistas, o som das guitarras estava perfeito, deixando distinguir as nuances melódicas de cada uma das canções. Sem destaque para nenhuma canção em especial, todo o concerto foi um portento e consistentemente muito bom, mesmo quando a velocidade diminuiu, para Steady on my Mind. A banda manteve sempre a pose em palco, tocando competentemente e mantendo-se alheia à reacção do público, que os seguranças tentavam conter, sem grande sucesso. Os Parquet Courts tiveram o público na mão, provando que são tão cativantes ao vivo como em estúdio.

Para terminar as actuações nos palcos principais (depois a festa continuou no palco pitchfork, neste primeiro dia virado tenda electrónica, com as actuações de alguns DJs, entre os quais John Talabot, que fechou o recinto até às 6 da manhã), o concerto dos americanos Animal Collective, que têm como membro o “lisboeta” Panda Bear, que curiosamente nem sequer dirigiu palavras ao público, tendo sido a conversa feita por Avey Tare. Num concerto que praticamente só incidiu sobre o último registo da banda, Painting With, já deste ano, não se tocaram êxitos como a “antiga” My Girls. E, não tanto pela ausência dessa música, mas mais pela incidência nesse álbum, o concerto soube a pouco. Foram várias as músicas onde se sentiu uma grande dispersão, muito a acontecer e pouco foco nas músicas tocadas. É este um dos problemas do álbum e foi um problema que passou para a actuação ao vivo. Nas poucas músicas onde esse foco existe, como Golden Gal e a vibrante FloriDaDa (momento alto, em que todos dançaram e fizeram a festa), o concerto conseguiu mostrar as qualidades de uma banda que tinha tudo para ter dado um concerto melhor. Esperamos que regressem brevemente com um melhor álbum.

O festival continua hoje, com nomes como PJ Harvey, Brian Wilson e Beach House.

Texto escrito por: Miguel Fernandes Duarte e Bernardo Crastes

Comentários

Artigos que poderão ser do teu interesse

ARTIGOS RELACIONADOS