Premiar ou não uma obra política com o Nobel da Literatura?

11 OUTUBRO, 2016 -

Será necessário aguardar até quinta-feira, último dia da época Nobel 2016, para conhecer o laureado do prémio de Literatura, uma espera que segundo analistas é explicável pela escolha de alguém politicamente conotado.

A Academia Sueca, que atribui o galardão, explicou no final de setembro que, por razões de agenda, não anunciaria o vencedor na mesma semana que os das outras categorias criadas por Alfred Nobel.

Isso deixa mais um pouco de tempo para especular” sobre a identidade do laureado, gracejou então o académico Per Wästberg, em declarações à agência de notícias francesa, AFP.

Muitos observadores creem ler neste desvio à tradição o sinal de uma discórdia quanto à escolha do vencedor.

Na minha opinião, não é nada uma questão qualquer de ‘agenda’, mostra, sim, um desacordo no processo de atribuição do prémio“, sustentou Björn Wiman, editor de cultura do diário Dagens Nyheter.

Mattias Berg, jornalista cultural da rádio pública SR, avançou a hipótese de os académicos suecos estarem em conflito por causa de um “laureado politicamente controverso, como Adonis“, o poeta franco-sírio cuja mais recente publicação é uma crítica incendiária ao islão político.

O prémio seria, então, entendido como uma tomada de posição“, concluiu Wiman.

Se a Academia Sueca quer distinguir uma obra ‘engagée‘, poderá igualmente optar por galardoar o britânico Salman Rushdie. Em março passado, condenou finalmente a ‘fatwa‘ (decreto interpretativo religioso) que fez recair sobre o autor do romance “Versículos Satânicos” uma sentença de morte, quase 30 anos depois de se ter recusado a tomar posição, sob pretexto da sua independência.

Só há uma certeza, a dois dias do grande dia: “Só sabemos que nada sabemos“, resumiu Madelaine Levy, crítica literária do diário Svenska Dagbladet.

Os nomes do queniano Ngugi wa Thiong’o, dos norte-americanos Don DeLillo e Joyce Carol Oates e do japonês Haruki Murakami são recorrentes, mas ninguém porá por eles a mão no fogo.

Para ajudar à confusão dos palpites de 2016, Wiman afirmou: “Penso que será [o norueguês Jon] Fosse, espero que seja [o israelita David] Grossman e regozijo-me com a ideia de [que possa ser a italiana Elena] Ferrante“.

Às especulações, a Academia Sueca responde com um silêncio polido.

Algumas pessoas querem saber o que está dentro dos presentes de Natal e algumas querem ser surpreendidas. Nós queremos surpreender-vos“, defendeu-se Odd Zschiedrich, chanceler da respeitável instituição.

O método é imutável: em fevereiro, a Academia elabora uma lista de todas as candidaturas que lhe foram enviadas, depois, em maio, redu-la a cinco nomes, sobre os quais os seus membros se debruçam durante o verão antes de decidirem quem será o escolhido. No início de outubro, é chegado o momento da sua consagração.

Em 2015, a Academia surpreendeu “ao não surpreender“, observou Wiman. A escolha recaiu sobre a bielorrussa Svetlana Alexievitch, cuja obra documental era dada como favorita dos meios literários e dos sites de apostas online, cada vez mais numerosos, que permitem alimentar a competição.

Este ano, os oráculos preveem um regresso à ficção — prosa, teatro ou poesia.

Murakami, grande favorito dos apostadores e do público, não deverá obter os votos da Academia. Demasiado superficial, diz-se unanimemente nos círculos literários.

Há margem para uma categoria de autores que ainda não foram premiados“, como foi o caso de Alice Munro e dos seus contos, ou de Alexievitch e da reportagem literária, comentou Mattias Berg.

No entanto, apostaria antes na norte-americana Joyce Carol Oates, escritora de romances, de longe o género mais distinguido pela Academia Nobel.

Além disso, prosseguiu, o prémio deverá ser atribuído a uma mulher, tanto mais que a Academia se feminizou e que, desde 1901, só 14 mulheres foram laureadas, em contraste com o número de homens, 98.

Os Estados Unidos, pela última vez galardoados em 1993, poderão ser o país do vencedor deste ano.

Há já muito tempo que um autor norte-americano não recebe o prémio. É por isso que o grande romance americano está sub-representado“, observou Madelaine Levy.

As considerações geográficas e de sexo são, todavia, estranhas à Academia, insistiu o seu chanceler.

A única coisa que interessa à Academia é saber se o autor é dotado, se a sua escrita é melhor que a dos outros escritores selecionados“, concluiu Zschiedrich.

Texto de Lusa

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