Portugueses compram, em média, 1,3 livros por ano. E lêem-nos? E qual é a sua relação com o digital?

11 NOVEMBRO, 2017 -

Tem trabalhado muito com crianças e jovens. A ideia de que este é um público que não gosta de ler corresponde à verdade?“, esta foi uma das questões da jornalista Maria Anabela Silva, do Jornal de Leiria, em entrevista a Teresa Calçada, comissária para o Plano Nacional de Leitura, em Setembro deste ano. A comissária respondeu o seguinte:

“A experiência mostra que há mais pessoas e mais miúdos a ler. Agora, o modo de ler alterou-se bastante. Se cingirmos o ler ao livro em papel e ao que isso representa – o ficar isolado a ler, ter aquele objecto comigo e não o misturar com outros gadgets – e não tomarmos como leitura o que vem nas redes sociais e nas informações que retiro do computador e dos smartphones para estudar, então lê-se menos. Vivemos numa sociedade do entretenimento, na qual os jovens tendem a valorizar aquilo que aparece como muito próprio do tempo deles e que é mais tribal, ou seja, o que os amigos fazem, mas também aquilo que vêem os pais fazer.”

Já num comunicado, divulgado esta semana pela Lusa, nas vésperas da conferência anual do PNL, a comissária revelou o seguinte: Como não é tribal entre nós ler, mesmo os miúdos que lêem têm tendência a ler menos, ou a dizerem que não lêem, ou a acomodarem-se nisso, porque não é uma prática bem-vista. Nenhum miúdo se esconde de dizer os seus gostos musicais, mas livros, dizerem uns para os outros de livre e espontânea vontade, é muito difícil. E isto é cultural”, disse Teresa Calçada.

Este artigo é um simples exercício onde foram compilados vários dados e opiniões sobre a relação dos jovens (e não só) com a leitura e o digital.

Os portugueses compram, em média, 1,3 livros por ano, revelou Eduardo Boavida, da APEL (Associação Portuguesa de Editores e Livreiros) e responsável editorial da Bertrand, em entrevista, em Junho de 2017, ao Observador. A mesma fonte revelou ainda que os escritores portugueses mais traduzidos são Fernando Pessoa e José Saramago. Eduardo Boavida disse ainda que foram vendidos cerca de 400 500 livros na Feira do Livro de Lisboa em 2016, o que corresponde a uma média de 1820 livros por hora.

“Vaticanum”, 16º livro de José Rodrigues dos Santos, foi o livro mais vendido em 2016. Só no nosso país foram vendidos 93 000 exemplares, segundo dados da editora Gradiva no início de 2017. A editora revelou ainda que o autor e jornalista, que tem a sua obra publicada em mais de 20 línguas, vendeu ao todo mais de 3 milhões de exemplares em todo o mundo desde “A Ilha das Trevas”, primeira ficção, publicada em 2007.

De acordo com um estudo da Gfk, em 2015 a venda de livros em Portugal atingiu as 12,5 milhões de unidades. Ou seja, é como se cada português comprasse pelo menos um livro durante o ano. Já em Abril de 2016, e em entrevista ao jornal i, Francisco Vale, editor literário da Relógio D’Água, uma das editoras mais importantes do nosso mercado, afirmou de forma empírica que “Actualmente, há menos grandes leitores, embora haja mais leitores ocasionais, mas um título que vende razoavelmente chega aos 10 mil exemplares. Mas veja o exemplo da Elena Ferrante, que chega aos 30 mil exemplares, e é uma autora não tão fácil como isso. No passado, estes números eram bastante superiores. Lembro-me que o ensaio do José Gil, Portugal, Hoje – o Medo de Existir (que também não era um livro tão simples como isso), vendeu cerca de 70 mil exemplares. Tem havido um decréscimo das tiragens, e hoje aquilo que começa a contar como bestseller em Portugal desceu bastante. Antes era acima de 30 mil, hoje um livro que venda mais de 10 mil já é considerado um bestseller.

Já no passado mês de Outubro, no programa “As Donas da Casa”, da Antena 3, e em entrevista a Carlos Vaz Marques, é dito, sem se ser citar a fonte, que em 2017 já se perdeu 50% dos leitores relactivamente a 2016. Informação que Calos Vaz Marques, jornalista, tradutor, editor e apresentador, refuta dizendo que “Uma coisa é menos vendas de livros e outra coisa é menos leitores. Acho que são coisas diferentes”. E vai mais longe dizendo que “hoje, talvez nunca tenha havido tantos leitores, e leitores até de livros de qualidade. Como também de maus livros (…)

Outro dado interessante é a taxa de analfabetismo que diminuiu drasticamente ao longo dos anos, se em 1981 Portugal tinha uma taxa de 18,6% de analfabetismo, em 2011, últimos dados dos censos, a taxa desceu para os 5,2%, de acordo com o site Pordata.

Teoricamente, actualmente somos mais capazes, uma vez que a taxa de analfabetismo desceu, mas também temos muito mais por onde nos distrair. Segundo um estudo da Gfk, realizado em 2016, e indo ao encontro das novas tecnologias, 44% dos portugueses diz que estar sempre contactável é uma preocupação, o estudo foi realizado junto de uma amostra de 1 250 indivíduos, proporcional à população Portuguesa com 15 e mais anos.

Gráficos do estudo da Gfk

Em forma de conclusão, e pegando na mesma entrevista com que se começou este artigo, a jornalista Maria Anabela Silva, do Jornal de Leiria, questiona Teresa Calçada sobre o digital e a leitura e esta responde da seguinte forma:

O digital é uma coisa fantástica. A informação a que temos acesso e o modo rápido como podemos lá chegar… É um mundo fabuloso, ao qual acedemos para as coisas mais práticas da vida, desde a informação sobre um medicamento, o modo de pentear o cabelo ou uma planta, a consulta de artigo científico, de um livro de ficção ou de livros para brincar com as nossas crianças. Isto é amigo da leitura, mas também pode ser inimigo.” e foi mais longe ainda, revelando em que circunstâncias o digital pode ser um inimigo da leitura: “Será inimigo se eu excluir formas mais elaboradas de ler, se ficar tomado pelos aspectos mais simples e se confundir entretenimento e voragem de passar de um sítio para o outro com leitura cuidada, que inclui verificação de fontes e capacidade de saber distinguir o trigo do joio. A única maneira de nos defendermos e de nos fazermos compreender num mundo de economia do conhecimento é ler, ler mais, ler bem, ler com fluência. Resumindo: ler. À partida, não importa o suporte, mas temos de estar avisados dos limites ou dos aspectos aditivos de algumas tecnologias, que não são apenas deste tempo. As tecnologias de agora, são perigosas por causa da sua rapidez, do aditivo que representa a permanente conectividade e da ilusão que dão sobre o saber, porque, em vez de nos tornar proprietários de conhecimento, podem fazer-nos escravos da falsa ilusão e democracia do conhecimento.

Nota final: ficámos a saber esta semana que a Porto Editora e a Samsung uniram-se para impulsionar o digital na Educação. Esta parceria tem como principal objectivo impulsionar a utilização do digital na Educação. Para tal, a maior editora portuguesa e uma das maiores empresas tecnológicas a nível mundial conceberam uma solução educativa integrada, que alia manuais e conteúdos digitais para o Ensino Básico e Secundário a hardware e software específicos para contexto educativo.

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