Portugal tem a taxa mais elevada de consumo de calmantes na Europa

30 SETEMBRO, 2017 -

Portugueses tomam ansiolíticos a mais e criam dependência
Problema: causam dependência e o uso crónico aumenta o risco de quedas e demência. A Faculdade de Medicina de Lisboa testou uma solução e os resultados surpreenderam.

Cristina está há vários meses sem tomar os calmantes que durante anos foram a sua muleta contra as insónias e voltou finalmente a dormir melhor. Inesperado? Nem por isso: a medicação que começara a tomar há mais de uma década para conseguir dormir levou-a a um ponto limite: estava cada vez mais nervosa, já nada funcionava e só dormia duas a três horas. Deitava-se perto da meia-noite e por vezes às 2 horas já não havia nada a fazer. «Ficava na cama a olhar até ser hora de me levantar», conta ao SOL.

Tudo mudou quando a médica de família a desafiou a participar num estudo inédito para a desabituação de benzodiazepinas, grupo de medicamentos que inclui ansiolíticos e sedativos. Aos 75 anos, Cristina foi uma dos 66 participantes recrutados em centros de saúde de Lisboa. E é um dos casos de sucesso: 63% dos doentes conseguiram largar a medicação que usavam há muito mais tempo do que o indicado e já lhes estava a fazer mais mal do que bem. Neste momento, já todos foram avaliados passados seis meses de terem parado os medicamentos e só três voltaram a tomá-los.

Descobrir a receita certa

O projeto foi conduzido pelo Instituto de Medicina Preventiva e Saúde Pública da Faculdade de Medicina de Lisboa e veio a público há pouco mais de um ano, quando o Ministério da Saúde garantiu a isenção de taxas moderadoras aos participantes.

Vasco Maria, professor da Faculdade de Medicina, médico de família e ex-presidente do Infarmed, lembra que este apoio não foi imediato, mas foi essencial para manter os doentes mobilizados. «Hoje em dia um dos indicadores de avaliação dos médicos é a percentagem de doentes com mais de 65 anos que tomam benzodiazepinas e o objetivo é reduzir o uso crónico, mas os médicos não têm ferramentas para o fazer».

Criar um protocolo adaptado à realidade portuguesa e testá-lo para ver se era eficaz foi um dos objetivos do Programa de Promoção/Ação para o Uso Adequado de Benzodiazepinas, a que deram o nome de código BEDS.
O projeto arrancou em 2015, com um apoio de 60 mil euros da Fundação Calouste Gulbenkian.

A equipa começou por planear qual seria a melhor estratégia para inverter as estatísticas do país: Portugal é o país europeu com maior consumo de ansiolítico, uma taxa que chega a ser duas a três vezes superior à de outros Estados Membros, diz Vasco Maria.

Os últimos dados da OCDE atestam isso mesmo, com Portugal a registar uma dose diária definida por 1000 habitantes/dia (DHD) de 96,8, o que significa que 96 em cada mil portugueses tomarão uma dose média destes medicamentos diariamente, ou seja 9,6% da população. São estimativas que têm em conta o volume de vendas no país e que vários estudos têm alertado que merecem uma intervenção mais assertiva. Um dos avisos surgiu em 2013 por parte do Infarmed: os valores elevados de consumo – que comparam com 53 DHD em Itália ou 31 DHD na Dinamarca – podem significar que os tratamentos são mais prolongados do que o indicado. «Este é um importante problema de saúde pública», reconhecia o regulador, que tenciona reforçar a sensibilização nesta área.

Do planeamento da equipa da Faculdade de Medicina de Lisboa surgiu um programa de desabituação que consiste em reduzir gradualmente a dose, começando por passar os doentes que, às vezes, tomam dois ou três calmantes diferentes para uma única substância. A escolha recaiu sobre o diazepam, conhecido por uma das primeiras marcas Valium, mas que tem vários genéricos. «Era preciso um medicamento que existisse em várias dosagens para poder haver uma redução gradual sem os doentes terem de partir muito os medicamentos», explica Vasco Maria.

Aos médicos, deram dossiês com tabelas para poderem fazer as equivalências e saber as quantidades que era preciso prescrever, ao mesmo tempo que documentavam todo o processo. Aos doentes, era fornecido um diário para registarem os passos e dificuldades. O programa consiste numa revisão das doses a cada duas semanas, com oito consultas no espaço de seis meses – daí a importância da isenção das taxas, explica o coordenador.

Além disso, os doentes recebiam telefonemas da psicóloga da equipa, Inês Neves, para gerir eventuais sintomas e manter a motivação. «Um dos problemas é que não se pode parar abruptamente. Já tenho visto defender, por exemplo, que os médicos de família não deviam poder prescrever benzodiazepinas e não concordo. Como são medicamentos que causam dependência, podem gerar síndrome de privação e ter consequências graves se não for feita uma desabituação gradual e acompanhada», sublinha o médico.

Falta de informação

O projeto quis também perceber as perceções dos médicos e dos doentes, numa altura em que tem havido mais estudos que sugerem que o uso crónico causa dependência mas também está associado a mais quedas, acidentes e défices cognitivos, aumentando o risco de demência. Perceber que alguns médicos não valorizam estes efeitos foi uma das conclusões. «Tivemos um médico que nos disse que não tinha coragem para tirar a medicação aos doentes porque eram um elixir para a qualidade de vida», exemplifica Inês Neves.

Vasco Maria explica que esse efeito é uma ilusão. «É preciso mudar mentalidades, dar mais informação e alertar que as benzodiazepinas não tratam nenhuma doença. Só controlam sintomas e, ao fim de algum tempo, nem isso fazem». São medicamentos que devem ser tomados por períodos curtos: duas a quatro semanas no tratamento da insónia e até três meses na ansiedade. A partir daí, muitas vezes os sintomas dos doentes já têm mais a ver com a dependência e serem precisas doses maiores para surtir algum efeito. Não quer dizer que as pessoas não precisem de tratamento, diz o médico, mas intervenção psicológica ou mesmo antidepressivos, que não causam dependência, serão opções a equacionar. Do lado dos doentes, o relato mais impressionante foi muitos não saberem que os medicamentos podiam viciar porque nunca tinham sido informados disso. «Ficou-me a frase de um doente que achava que eram como os medicamentos do coração, para tomar para sempre», conta Inês Neves.

O estudo incluiu pessoas que estavam a tomar calmantes há 30 anos e também houve casos de sucesso. Mas o que mais surpreendeu a equipa foi perceber que mesmo entre aqueles que não estavam motivados e achavam que não iam conseguir foi possível parar. Já fizeram o follow-up de um ano a 23 dos 39 doentes que conseguiram largar os medicamentos e só mais um retomou, o que dá uma taxa de manutenção dos resultados de 82,6%. Os restantes serão avaliados até dezembro.

Quando a prescrição é um hábito

Como explicar o fenómeno? Vasco Maria não tem dúvidas de que é uma questão de «hábito de prescrição» porque a medicação é antiga e, ao início, estes efeitos não eram tão falados, mas sublinha que não há razão para os médicos não informarem os doentes: os avisos estão nas bulas. «É um problema antigo e não tem melhorado. Em 1994 fizemos um primeiro estudo num centro de saúde da periferia de Lisboa e concluímos que 23% da população ali seguida consumia cronicamente benzodiazepinas».

Criar um projeto que fosse implementável no terreno em vez de uma experiência académica foi a preocupação, para contribuir de vez para uma mudança de paradigma. «Conseguimos demonstrar que é exequível e médicos e doentes ficaram satisfeitos». Outra vertente foi produzir panfletos e um site onde, no futuro, esperam reunir testemunhos de quem conseguiu tornar-se um ex-dependente de ansiolíticos.

Organizar um workshop e fazer uma proposta de alargamento da experiência no SNS são outros planos, embora Vasco Maria reconheça que ainda não quantificaram os custos. Sobre os ganhos não tem dúvidas. «Temos idosos a tomar benzodiazepinas há anos que acabam por ir ao psiquiatra porque não andam direitos e vêm de lá com mais um medicamento. Se lhes tirassem os ansiolíticos melhoravam».

Cristina também não tem dúvidas de que está melhor e de que a sua teimosia contribuiu para o desfecho, porque não foi fácil. «Acreditei que ia conseguir mas ao início não me sentia bem, tinha vómitos, falta de apetite» – tudo sintomas de privação.

Nessa altura, foi essencial o telefonema da psicóloga, que lhe disse que era normal e para ter força – aprender técnicas para adormecer como um banho quente para relaxar e não ficar a ver televisão também é importante.
Cristina não tenciona voltar atrás. No início, também ninguém lhe disse que a medicação tinha aquele efeito, mas percebeu por si que algo estava errado e o projeto chegou em boa hora. «Sabia que era algo que eu tinha de deixar, era um vício, como uma droga».

Artigo escrito por Marta F. Reis / Parceria jornal i /SOL

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