O Porto vai ter uma Cinemateca. Há uma nova vida na cultura portuguesa?

12 JANEIRO, 2017 -

Esta crónica foi escrita depois da notícia do Público: ‘Batalha vai ser a casa do cinema no Porto – Câmara aluga edifício classificado por um prazo de 25 anos. Será a cinemateca que a cidade reivindica há muitos anos’

Sente-se a cultura mais presente por cá. Sente-se que os portugueses estão mais interessados pela cultura. Para além disso, sente-se uma espécie de orgulho e de honra quando uma iniciativa artística lusa ganha asas e voa pelo globo. Afinal de contas, formou-se e teve as suas motivações e inspirações por cá. Deu os primeiros passos e bafejou os primeiros ventos da sua individualidade por cá. A cultura portuguesa fez-se expressar a partir do seu pequeno cantão no sudoeste europeu.

Em tempos nos quais era mais difícil internacionalizar a música, a literatura, a pintura e o cinema, foram vários os nomes que decidiram emigrar para encontrar o sucesso. Amália Rodrigues e o fado, Amadeo de Souza-Cardoso e as suas telas, Soares dos Reis e as suas esculturas, Carmen Miranda e o seu virtuosismo. Todos eles deram volume ao génio que tinham através de uma perseverança que ultrapassou o limite invisível mas cognoscível da fronteira, em tempos muito mais conturbados que os atuais. Foram estes exemplos de uma emancipação artística que deixa um rasto de inspiração a ser estudado e canalizado para o presente.

É isto precisamente que se vê. Após tempos nos quais a cultura passou por um hiato ao nível dos incentivos, dos públicos, dos conceitos e das receitas, assiste-se a um novo fulgor com raízes lusitanas. Começa a não ser preciso justificar todo o talento que se guarda na alma e na mente humanas lá fora. Cá dentro, os espaços começam a reconhecer e a potenciar todo o poder criativo dos artistas nacionais. Os teatros voltam a encher, aliando a memória de espaços repletos de gente à glória de um presente que a revive. Os cinemas, não só com base nos principais canais de distribuição mas também nos demais regionais e locais, colocam a tónica naquilo que de bom se faz por cá. Os saraus culturais e literários renovam-se com ideias contemporâneas e que bebem do que de belo e de minucioso se estudou outrora. As demais artes visuais catapultam-se no legado deixado pelas escolas artísticas, cujos direitos de financiamento são pugnados pelos determinados e tenazes estudantes. A aculturação faz-se sentir de tal forma que todos os agentes têm a necessidade de não ficar parados.

Nós, como seres humanos, sempre nos entregamos à cultura como forma de nos moldar. Aliás, este é tema de várias teses, ensaios e obras de antropólogos, sociólogos e psicólogos com assento no país que descobriu meio mundo. Esta identificação que vamos tendo com o que é feito lá fora e cá dentro é o reflexo do que somos, tanto em forma de comunidade como em forma de indivíduos subjetivos e diferentes entre si. No entanto, há a denotar que vamos, aos poucos, despertando para uma realidade em que a criação artística e a difusão cultural são premissas proeminentes numa intervenção social sustentada e ativa, com vista ao progresso advogado por todos. Não só a cultura funciona como um canal de divertimento e de lazer mas vem-se tornando substancialmente uma forma de nos afirmarmos e de nos completarmos como seres inacabados e a beneficiar desta constante plasticidade.

É com gáudio que se assiste a esta aposta reforçada na cultura por parte das entidades governativas e não-governativas, quer públicas quer privadas. No entanto, não se escondem as questões subsidiárias e sustentáveis que são o fulcro de qualquer atividade artística, dependendo esta desse apoio atento e consciente do impacto e da influência que pode transmitir. São evidentes e mediáticas conversações que colocam em cima da mesa os diferentes interesses e que os conjugam da melhor forma para o benefício do que se faz por aqui. Os museus começam a acolher mais gente, não só pelo interesse massivo de todos mas também como forma de aproximar o legado nacional e dar a conhecer o espólio que se desproporciona em relação à pequena estatura do país. A existência de um secretariado de estado deu o mote para que muitas iniciativas passassem a ter uma ligação mais estreita para com os agentes avalizadores daquilo que se empreende e se concretiza. As autarquias vêm ajudando neste processo, revitalizando espaços míticos e apostando na oferta cultural humana, material, instrumental e na fusão deste triângulo numa dimensão que mexe com as emoções. As emoções que tanto se envaidecem do que Portugal tem para oferecer.

Entre monumentos milenares e experiências que se refletem nos azulejos e nos mosaicos das cidades mais rústicas e turísticas, nascem mais (con)tributos para o reforço atual do ser cultural português. Um ser que se vem revalorizando com sustento numa história que consagra o instinto de glória para o qual o país foi talhado. Do pequeno cantão mas com vista a arrebatar o mais cético coração. É com base nesta vontade de promover e de afirmar que todos se movem e se lançam na valorização de si mesmos. É na obra que alguém acima de nós consagrou e na intenção que nos uniu que a obra nasce. Assim é e, como tal, eis Portugal à vista.

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