Porque a entrega do Nobel da Literatura a Bob Dylan não é séria

13 OUTUBRO, 2016 -

Bob Dylan escreve canções. Fá-las principalmente baseando-se nas letras e na lírica das mesmas. A poesia que está por detrás da música é tanta como a presente em textos que não estão na base de uma canção, e nesse sentido são ambos textos literários. Também editou um livro de ficção e uma parte da sua autobiografia mas, apesar de tudo, apreciamos Dylan ao ouvi-lo. Por mais edições das suas letras em formato de livro que existam, o músico americano acaba por continuar a ser isso, um músico.

Falava-se que o Comité Nobel não atribuía prémios a não-ficção e fê-lo o ano passado, com Svetlana Alexievich. Este ano decide ir ainda mais longe, comunicando ao mundo que a música também é literatura. Para quando o Nobel para o Quentin Tarantino, David Lynch, Enki Bilal ou Ursula LeGuin?

Pode argumentar-se que tudo o que é escrito é literatura. Mas há textos que são mais do que isso, que são música, que são cinema. Isso não faz deles menos bons, menos literários, mas transporta-os para fora desse contexto e enquadra-os mais noutras áreas artísticas. E se Dylan é um poeta por ser letrista, num prémio onde praticamente não há poetas premiados, é difícil não arranjar um mais merecedor de ganhar um Nobel… Parece-me relevante perguntar-vos se acham que, caso existisse um Nobel para a Música, o Nobel da Literatura teria sido atribuído a Dylan.

É interessante que o comité queira dar atenção à literatura presente na música, mas depois de cumprido este desígnio, ao entregar o prémio a Dylan, será que mais alguma vez irá presentear um músico com este prémio? São imensos os músicos com excelente qualidade lírica, alguns provavelmente até melhores nessa área que Dylan (cof cof Cohen). Não merecerão esses agora receber também o prémio, em posteriores edições? Só o futuro dirá se tal acontecerá.

Mas, acima de tudo, para mim, o ponto chave é principalmente este: Dylan tem, certamente, mérito literário, mas tem-no mais na música e, no campo literário, há quem tenha bem mais que ele. Não é preciso ir à música para encontrar alguém merecedor deste prémio, há uns quantos que o merecem tendo passado a vida inteira a escrever somente livros. Além disso, alguma coisa está mal quando, após a atribuição de um prémio Nobel da Literatura, todo o teu feed de Facebook está cheio de músicas.

Um prémio que se quer sério, como o Nobel, devia servir para distinguir os melhores (independentemente de quotas de raça, nacionalidade, ou género literário), não para enviar statements ao mundo, e, este ano, o comité, mais que para o mérito de Dylan, parece ter querido apontar atenções para a presença literária na música.

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