Poesia inédita de Drummond de Andrade chega às livrarias portuguesas

8 FEVEREIRO, 2017 -

São mais de 50 poemas escritos pelo poeta durante a Segunda Guerra Mundial, que falam da guerra, dos afetos, do seu passado familiar e de tempos sombrios

Inédito em Portugal, o livro A rosa do povo reúne 55 poemas escritos entre 1943-1945, no decurso da Segunda Guerra Mundial, que espelham o “olhar do poeta brasileiro mais importante de sempre sobre um momento de transformação profunda”, constituindo a sua obra mais extensa, segundo a editora Companhia das Letras.

O livro vai estar nas livrarias a partir de 15 de fevereiro. Trata-se de uma das primeiras obras de Drummond de Andrade (1902-1987), que é também o seu trabalho de maior expressão de lirismo social e modernista, um livro que estabeleceu a figura do poeta mineiro no panorama da melhor poesia de língua portuguesa no século XX, acrescenta a chancela brasileira.

Este conjunto de poemas aborda temas como a profunda mudança de mentalidade e o corte com o passado, a confusão gerada por estas mudanças, a urbanização supersónica da então capital brasileira e o sofrimento causado pela Segunda Guerra Mundial, nomeadamente na Europa, sendo, por isso, um trabalho que reflete um tempo sombrio.

Publicado originalmente em 1945, “A rosa do povo” é o livro politicamente mais explícito de Carlos Drummond de Andrade e deita um “poderoso olhar” sobre a Segunda Guerra, a cisão ideológica, a vida nas cidades, o amor e a morte.

O poeta observa tudo isto a partir da então capital brasileira, o Rio de Janeiro, cidade cosmopolita que ocupava uma posição privilegiada nos poemas, levando muitos críticos a comparar a visão de cidade expressa pelo autor à do poeta francês Charles Baudelaire (1821-1867), o primeiro grande cantor da experiência urbana.

É, pois, escrevendo a partir desse Rio de Janeiro que se urbanizava freneticamente, de costas viradas para o passado, que Carlos Drummond de Andrade presta tributo a uma Europa destroçada pela guerra e aos milhões de civis que nela morreram, ao mesmo tempo que reflete sobre a sua condição humana, afligida por medos e afetos, atormentada por permanências e mudanças.

A rosa do povo é, do ponto de vista formal, uma das obras mais expressivas do movimento modernista brasileiro, em que o poeta brasileiro experimenta o verso alongado, ao estilo do poeta norte-americano Walt Whitman, ironiza o passado literário brasileiro e exercita as mais diversas formas e dicções, nos 55 poemas reunidos no volume, revela a editora.

A obra é também “um legado sobre a beleza múltipla da vida, onde passado e presente, guerra e paz, cidade e campo, amor e morte são testemunhas da infinita riqueza de tudo quanto existe”, lê-se na contracapa do livro.

As angústias do poeta e a sua transposição para a poesia poderiam ser traduzidas por um trecho do poema “Noite na repartição”, em que uma pomba diz: “Não grites, não suspires, não te mates: escreve”.

Carlos Drummond de Andrade nasceu em 1902 em Itabira, no Estado de Minas Gerais, e morreu aos 84 anos no Rio de Janeiro.

Apontado com um do mais importantes poetas da língua portuguesa do século XX, estreou-se na literatura em 1930 com a publicação de “Alguma poesia”.

Texto de Lusa

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