Pode a ‘Supressão dos Partidos Políticos’ ser uma solução?

19 JULHO, 2017 -

Simone Weil foi, sem dúvida, uma das personalidades mais marcantes do século XX, descrita inclusive por Camus como “o único grande espírito do nosso tempo”. Professora de Filosofia de profissão, foi sobretudo como activista política e humanista que se destacou, juntando a isso a peculiaridade de ter sido uma das poucas activistas de esquerda que, nascida numa família agnóstica, se converteu ao catolicismo, ainda que rejeitando a Igreja Católica como organização. Foi neste contexto, doando parte do seu salário de professora a associações operárias, estando ao lado dos anarquistas na Guerra Civil Espanhola, e chegando até a trabalhar como operária nas fábricas da Renault para melhor compreender a vida das classes baixas (neste caso, dos operários) que acabou por falecer aos 34 anos em Inglaterra, enquanto ajudava a resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial, vítima de uma tuberculose que, tudo indica, terá sido facilitada pela pouca quantidade de alimento que ingeria em solidariedade com os colegas submetidos ao racionamento.

Foi nestes últimos anos em Inglaterra que a maior parte dos textos chave de Simone Weil foram escritos, muitos só publicados e descobertos pelo público postumamente. Um deles é este Nota Sobre a Supressão dos Partidos Políticos, publicado agora pela Antígona, onde, descrevendo os partidos políticos como organizações apenas capazes do mal devido à sua própria essência de devoção ao poder e de subjugação a uma doutrina interna que impede o pensamento pessoal de cada um dos seus membros, argumenta que só poderão existir políticas no sentido do bem comum quando os partidos forem suprimidos.

Simone Weil sente, em relação aos partidos políticos, o mesmo que sente em relação à Igreja Católica enquanto organização. Vê, na forma como esta influencia o pensamento religioso e místico, um paralelo com a forma como os partidos políticos influenciam o pensamento acerca da vida pública. Ambos armados com poderes como a excomunhão, têm em si o poder de ditar quem está fora ou dentro, sendo por isso totalitários e levando a que as pessoas se sintam, mais do que inclinadas para pensar individualmente acerca de determinado assunto, inclinadas para tomar partido, sendo ou a favor ou contra.

Tudo isto impede cada um de chegar à verdade, que Weil considera ser apenas e só uma, impossível de alcançar se o nosso pensamento estiver amarrado pelas doutrinas dos partidos. Mas quem nos garante que essa verdade é, de facto, verdadeira? E, tendo-a encontrado, como partilhá-la não sendo, então, um messias e um pregador? Julgaremos a verdade encontrada e consideraremos as opiniões de todos os outros erradas. Mas o mesmo poderão os outros afirmar em relação a nós. Qual será, então, a verdadeira verdade? Como saber a veracidade da mesma?

Weil refere-se a revistas, no sentido de locais onde são expostas posições ou reflexões políticas, como uma possível solução para o pensamento em conjunto acerca do bem público, após a supressão dos partidos. Diz Weil que ninguém se sente obrigado a subscrever ao pensamento expresso numa revista, coisa que teria de fazer se fizesse parte de um partido. No entanto, compara movimentos artísticos, como o cubismo e o surrealismo, aos partidos, dizendo que o seu modo de funcionamento é semelhante. Mas qual é, afinal, a diferença destes movimentos para com as tais revistas que Simone Weil afirma serem um modelo diferente dos partidos? Ou qual é mesmo a diferença das revistas em relação aos partidos? A única diferença parece ser Weil considerar que se pode ler uma revista sem fazer parte da mesma, mas o mesmo pode ser dito em relação aos partidos.

Nota Sobre a Supressão dos Partidos Políticos é sobretudo relevante enquanto aviso acerca das limitações dos partidos políticos inerente à forma como estão organizados, e de como essa mesma organização limita a própria democracia. Talvez com essas limitações presentes possamos, mais do que acabar com os partidos políticos, afastarmo-nos das doutrinas pré-estabelecidas para nos aproximarmos da verdade, ou, pelo menos, da nossa verdade.

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