PJ Harvey contamina-nos com a realidade

17 ABRIL, 2016 -

Quem conhece só agora a obra de PJ Harvey estará longe de imaginar que tem o dom de cantar o amor que nunca foi e o amor que deixou de existir. Também achará estranho que pôs o público do Festival Sudoeste, no final do milénio, em lágrimas e que recordará esse concerto até hoje. Quem conhece PJ Harvey desde o álbum Dry, que sofreu em To Bring you My Love e que bateu o pé ao som do pop perfeito de Stories from the City, Stories from the Sea poderá ter alguma dificuldade em acompanhar esta faceta, este despojo do “eu” e o foco no mundo que o rodeia.

Seis anos depois do seu último álbum Let England Shake, alguns meses depois da publicação do livro de poemas e fotografia “The Hollow of the Hand”, em colaboração com o fotojornalista Seamus Murphy, PJ Harvey volta com The Hope Six Demolition Project. E se em Let England Shake versava sobre o governo de coligação no poder no Reino Unido na altura e sobre a força militar de antigamente, em The Hope Six Demolition Project derruba fronteiras e traz-nos temas que nos são tão actuais como a crise dos refugiados ou a pobreza mundial.

Durante três anos, PJ Harvey visitou o Kosovo, Afeganistão e Washington (EUA) assumindo quase uma função de “repórter de guerra musical”. Esta missão é desvendada em The Orange Monkey, onde revela a inquietude que tem marcado os trabalhos de PJ Harvey nos últimos anos (“A restlessness took hold my brain”) e a acção (“I took a plane to a foreign land/ And said, I’ll write down what I find”) e a partir daqui percebemos que embora este não seja um trabalho tão carregado de emoções humanas como os primeiros eram, é carregado pelos males e dramas de uma sociedade capitalista, egoísta e passiva. É esse o caminho que PJ Harvey quer agora dar a conhecer através das sua força lírica, despojada de pudores ou limitações, exigindo que os seus ouvintes entrem num mundo marcado pela desigualdade e pela debilidade humana em locais de conflito e em sociedades ditas avançadas. Como seria expectável, estes temas nem sempre são inócuos e a crítica tecida à comunidade de Ward Seven (em Washington) ao cantar “OK, now this is just drug town, just zombies/ But that’s just life … And The Community of Hope/ They’re gonna put a Walmart here” foi controversa, porém a crítica transcende Ward 7 e é transversal a toda a sociedade.

Por todo o álbum as temáticas remetem e assumem novas facetas. A passividade da sociedade e os seus vícios (em Medicinals); o drama dos refugiados e de quem os ajuda em A Line in the Sand e The Wheel; a crítica às massas e à sociedade de consumo em Near the Memorials to Vietnam and Lincoln e a fragilidade humana perante as necessidades monetárias em Dollar Dollar. PJ Harvey conta histórias duras e cruas de realidades que, como sociedade, nem sempre queremos ver, que esquecemos, que menosprezamos. A sonoridade vem muito na linha de Let England Shake, com o saxofone quase em lugar de destaque, com a voz tão característica de Polly Jean e com coros dos parceiros habituais da cantora. No final da audição deste álbum vem-nos à cabeça a frase “This is how the world will end” que ouvimos em The Ministry of Defense. Teremos dúvidas?

PJ Harvey estará mais uma vez em Portugal no Nos Primavera Sound. The Hope Six Demolition Project está disponível em LP, CD e nos serviços de streaming habituais.

Texto de Linda Formiga

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