Peter Greenaway faz apologia da pintura. Cinema “é chato e limitado”

3 JULHO, 2016 -

Para o realizador britânico Peter Greenaway, o cinema tal como o conhecemos, tem os dias contados, é “muito chato e limitado“, porque parte sempre de um texto, quando o verdadeiro poder da sétima arte vem da imagem.

Embora continue a filmar, há muito que o realizador tem esta posição de insatisfação em relação ao cinema, defendendo-a em palestras em várias cidades, em contexto académico, como a que fará hoje, em Lisboa, no final da Lisbon Summer School, uma escola de verão organizada pela Universidade Católica Portuguesa.

Temos um cinema muito pobre e insatisfatório, insiste em ser apenas texto, e não temos um cinema baseado na imagem. Todos os filmes, que você e eu vemos, começam a partir de um texto e eu acho isso mau. O cinema devia ser de imagens, imagens, imagens. Não queremos um cinema de argumentistas, mas um cinema de pintores“, disse, em entrevista à agência Lusa.

Peter Greenaway, 74 anos, que rodou filmes como “O livro de cabeceira“, “O bebé de Macon“, “O contrato do desenhador” e “O cozinheiro, o ladrão, a sua mulher e o amante dela“, é também um artista visual, autor de instalações vídeo e multimédia, mas é na pintura que vê a maior das virtudes artísticas e culturais.

Há tantos outros meios artísticos que podem dar um significado a um texto escrito, como o teatro, temos 400 anos de romance europeu, temos pelo menos 5.000 anos de poesia lírica, porque é que não podemos ter um meio que se foque em transmitir um significado apenas através da imagem?“, perguntou o realizador.

Para o Greenaway, o cinema devia ser o meio natural para ensinar as pessoas a olhar, e cita Rembrandt: “Lá por terem olhos não quer dizer que consigam ver“.

Hoje, Peter Greenaway falará sobretudo para uma plateia de estudantes e investigadores, uma geração mais nova que vive a cultura digital de outra forma.

O vocabulário do cinema digital é extraordinário, podemos fazer o que quisermos. (…) Encorajo os jovens a envolverem-se nisso, a irem a festivais, porque acho que o cinema está morto, as pessoas não vão ao cinema como iam. Todos veem cinema em casa, sozinhos, em ‘smartphones’, em DVD. Isso é cinema? Acho que não“, disse à agência Lusa.

O realizador sugere ainda que as pessoas, em particular as crianças, passem bastante mais tempo a ver pintura.

Esqueça o cinema, porque é muito chato, muito limitado. Sugiro que vá ver pintura. Temos 8.000 anos na Europa no campo do pensamento através das imagens. A mais importante e mais sofisticada atividade sempre foi a pintura. Daqui para a frente, tem de levar a sua filha todos os domingos à tarde para ver pintura. Torne isso num hábito e aproveite! As pessoas da cultura mais interessantes que nós tivemos e temos são os pintores“, afirmou à Lusa.

Apesar de declarar a morte do cinema, pelo menos desde que foi inventado o controlo remoto, Peter Greenaway continua a filmar. Esteve há uns anos a rodar uma curta-metragem em Portugal, a propósito de Guimarães – Capital Europeia da Cultura, e está envolvido em vários projetos, entre os quais uma trilogia focada no cineasta soviético Sergei Eisenstein.

Ainda assim tem outro indicador, mais pessoal, do estado de saúde do cinema: “O cinema que eu faço é pouco visto e sei que a audiência dos meus filmes é cada vez menor e, por isso, sei que o cinema está a morrer“.

Peter Greenaway admite ser uma pessoa contraditória – “as mais interessantes são cheia de contradições, temos de defender duas ideias ao mesmo tempo” -, mas extraordinariamente feliz, alimentada pela curiosidade.

Sou um privilegiado, porque tenho muitas oportunidades para poder pintar, escrever e fazer filmes“, rematou.

Texto de Lusa | Fotografia de Gareth Cattermole/Getty Images

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