Pete Travis: ‘Como encontrar magia e não a esmagar’

22 JUNHO, 2017 -

Existem apenas duas decisões que realizadores podem tomar que fazem a diferença: sobre o que é o filme e quem entra nele” – a verdadeira citação incluiria palavrões, mas foram cortados porque Pete Travis prometeu à mulher que não os diria. Pete é o realizador de City of Tiny Lights (2016) e foi a segunda vez que esteve no FEST.

Embora o título “A Relação entre realizador, atores e editor” o fizesse antecipar, ontem não se falou de edição no auditório do Multimeios de Espinho. Logo nos primeiros minutos, Travis introduziu o tema da direção de atores e as suas noções sobre o assunto em que, “ao que parece”, é muito bom.

A função do realizador não é dizer aos atores o que fazer. O trabalho do ator é uma forma de magia e o seu, enquanto realizador, é o de “criar as melhores condições para que essa magia possa acontecer”. O processo divide-se em duas etapas. Primeiro, Pete deixa os atores confortáveis, incentiva a criação de laços e estabelece confiança. Depois, nos ensaios, permite-lhes explorar o texto e as personagens. Quando o ator sabe quem é a personagem e entende a sua história, a interpretação enriquece: “os olhares podem dizer algo diferente das palavras e a câmara tem o poder de captar isso.” A compreensão do arco narrativo parece-lhe particularmente importante devido à filmagem anacrónica das cenas.

Em pouco tempo, a ortodoxa masterclass deu lugar a um momento interativo próximo do workshop. O realizador pediu voluntários: – “Preciso de um homem e de uma mulher e de alguém para os dirigir”. Dois realizadores, um de cada vez, tentaram a sua sorte, sob a mentoria de Pete Travis.

O realizador sublinhou que o primeiro passo consiste em dar espaço à interpretação e sugestões do ator, p explorar quaisquer ambiguidades que daí resultem. “Ser realizador começa depois, no momento de decidir o que fica” e no moldar do material que existe. Esse trabalho de modelação, explicou, deve ser feito com a utilização de verbos e atribuição de ações, visto que as indicações emocionais são um conceito subjetivo e, por esse motivo, inúteis.

O ator quer desesperadamente satisfazer o realizador”, sentimento que não deve ser abusado. Travis interrompeu os exercícios sempre que sentiu existir algum tipo de desconforto e deu orientações no sentido de o contrariar. Apresentou à plateia a ideia do ator como um elemento muito frágil, mas dono de um poder feroz. É uma criatura mágica que exige do realizador uma interação ponderada e cuidadosa e nenhum aspeto técnico salvará um filme de uma má interpretação.

O ator é “o elemento mais importante da equipa”, peça fundamental de um processo longo e árduo, em que não podem existir dúvidas: – “Se não gostas tanto (do filme) no fim, como no início, faz outra coisa. Tudo o resto na vida virá em segundo lugar e se não vier, devias fazer outra coisa.

Texto de Inês Lebreaud

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