‘Perguntem ao Porteiro’: A história de um porteiro alegre, mas com amargura na boca

5 JUNHO, 2017 -

“Perguntem ao Porteiro” é uma produção do GrETUA  (Grupo Experimental de Teatro da Universidade de Aveiro) e está até dia 4 de Junho no espaço do próprio grupo. A peça, que estreou a dia 26 de Maio e esgotou quase todas as noites (8), já não tem lugares disponíveis, mas falemos dela.

O espetáculo é inspirado na morte de  Tyrelle D. Shaw, um habitante de Nova Iorque que em 2015 se enforcou prendendo-se ao fundo do elevador e esperando depois que alguém o chamasse. O corpo ficou por vários dias esmagado no fundo do poço do elevador, sem que ninguém notasse. Bruno dos Reis pegou na história e com a ajuda do irmão Nuno dos Reis (que a protagoniza), escreveu “Pergunta ao Porteiro”.

O cenário é ilusório, parecem existir duas retas diagonais que convergem (fazendo a alusão à pintura) num “ponto de fuga”. Duas retas e cinco níveis, o do porteiro, o nível mais perto do público, e outros quatro que tanto são os andares do prédio onde o porteiro é porteiro, como os degraus para o elevador, que é a zona do “ponto de fuga”, onde existe uma corda para enforcamento. Prático e metafórico, o cenário comunica muito bem e serve a peça em todos os momentos. A acompanhar o início, música de jogos dos anos 90 e uma luz fraca – um ambiente com um “quê” de humor, ainda que sombrio.

A história é a de um porteiro alegre, mas com amargura na boca, ou, a história é a de uma pessoa que gosta de pessoas e que talvez até gostasse de saber mais coisas, mas que nunca é visto pelos outros e tem falta de motivos para sair de onde está, e para viver.

Órfão do avô (também porteiro) que era a sua única companhia, o Porteiro é um rapaz de conversa solta e bem-disposta, cómica até. Gosta inventar diálogos e histórias e submergir nelas como se fossem reais. Nas suas fantasias, cruza-se com as pessoas dos vários andares do prédio que o ajudam a ir vivendo. Tudo poderia ser quase perfeito, se ele não tivesse a consciência da sua solidão, se ele não soubesse que esse seu universo é “faz de conta”. Mesmo que fosse um universo de isolados e derrotados, como ele o inventa, era bom poder partilhar vida com outros. Invisível para todos, o porteiro, encontra, por fim, no seu “ponto de fuga”, uma forma de finalmente existir.

O texto, com comédia e tragédia, é muito rico e encontra-se na perfeição com a encenação. Tudo está feito com pormenor e fluidez. Destaca-se a interpretação cativante do protagonista Nuno dos Reis e um monólogo muito bem interpretado por João Pantaleão.

A peça peca por ser (talvez) um pouco longa demais, e o desconforto das cadeiras da plateia não ajuda, mas é, sem dúvida, uma obra que é arte – completa, entrosada, que envolve quem vê e nos faz sentir empatia e proximidade com a história e sobretudo com as personagens. Esperamos que circule e esgote outras salas.

Ficha Técnica:
Direcção – Bruno Dos Reis e Nuno Dos Reis
Assistência de direcção – Rute da Silva
Produção – GrETUA _ Grupo Experimental de Teatro da Universidade de Aveiro
Argumento – Bruno dos Reis
Interpretação – Andreia Silva, Bernardo Almeida, Iury Santos, João de Pantaleão, João Tarrafa, Nuno dos Reis, Pedro Sottomayor, Sheila Carneiro, Teresa Queirós
Música original – Hugo Correia
Sonoplastia – Bruno dos Reis, Inês Luzio
Desenho de luz – Bruno dos Reis, João Valentim
Operação de luz – João Valentim
Desenho de cenografia – Bruno dos Reis, João Miguel
Execução cenográfica – Carlos Conde, Filipe Sarabando, Vítor Pereira
Maquinaria de cena – António Quaresma, Carlos Conde
Design e comunicação – Nuno dos Reis, Francisco Ribeiro, Tatiana São,Inês Margarido
Figurinos – Patricia Shim
Fotografia – Carlos Teixeira, Teresa Queirós

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