Penafiel e Miguel Sousa Tavares, um amor correspondido

23 OUTUBRO, 2017 -

Penafiel festejou entre 16 e 22 de Outubro o 10º aniversário da Escritaria e a vida e obra de Miguel Sousa Tavares.
Música, Arte de Rua, Teatro, Sessões de Autógrafos, Feira do Livro, Arruada, Entrevista e Conferência juntaram muitos admiradores do autor de “Rio das Flores” e “Equador” 

Em Coimbra, bem mais de uma hora depois de o Alfa Pendular sair de Lisboa, a chuva deslizou pela janela. Lá fora, a destruição dos últimos dias. Árvores e vegetação carbonizadas, terra negra com pequenas colunas fumegantes, um cheiro intenso a queimado, e aquela chuva, sarcástica e atrasada, a molhar as cinzas.
Até Aveiro, o cenário foi similar ao de “A Estrada”, de Cormac McCarthy. O fim do mundo para quem vive ali, um horror higienizado pela distância para quem assistiu pela televisão. O país ardeu, animais e pessoas morreram queimadas. De Aveiro ao Porto, a terra foi recuperando a sua vitalidade.

Falar de literatura, ou de qualquer arte, parece irrelevante. Mas debaixo daquelas cinzas, como do silêncio, já algo brota. E se a chuva não apagou, agora está para fazer nascer. A terra regenera-se. Infelizmente, a dor também. Não há água que retire essa sujidade. Mas o homem arranca sempre algo novo do vazio. A literatura tem excepcionais exemplos. Um deles é a Escritaria, em Penafiel. Começou com a homenagem a Urbano Tavares Rodrigues. Seguiram-se José Saramago, Agustina Bessa-Luís, António Lobo Antunes, Mia Couto, Mário de Carvalho, Lídia Jorge, Mário Cláudio e Alice Vieira. Miguel Sousa Tavares é o mais recente homenageado pela cidade literária de Penafiel.

Entre 16 e 18 de Outubro, a Escritaria celebrou a sua 10ª Edição. Uma feira do livro, intervenções teatrais e apresentação de obras de diversos escritores fizeram parte da programação. Sobre a homenageada da 9ª edição, foi lançado “Escritaria 2016, Alice Vieira Vida e Obra”.
A partir do dia 19, o festival foi exclusivo de um só escritor. Desde a recepção no Museu Municipal até à conferência “Miguel Sousa Tavares, vida e obra”, o autor viveu dias inesquecíveis. As palavras, a silhueta e a arte urbana ficam no corpo da cidade; a cidade fica para sempre na memória de Miguel Sousa Tavares.
Nenhuma mulher cantou alguma vez para mim. Agora são quinze, assim agradeceu a recepção protagonizada pela tuna académica da CESPU.

Alguns cartazes e os tradicionais blocos de cartão foram retirados dos passeios e colocados no teatro, devido à chuva. Algumas performances de rua, programadas para o 5º dia do Escritaria, foram transferidas para o Museu. Foi o que aconteceu com o grupo “Cidade das Artes”. A interpretação de vários textos de autores já homenageados em Penafiel foi sucedida pelo aparecimento de personagens peculiares. Coelhos saltitaram pelos corredores do Museu e saíram para as ruas de Penafiel. Liderava Miguel Sousa Tavares de mão dada com este personagem por si criado em “Ismael e Chopin”. A tradicional arruada percorreu o trajecto entre o Museu e a Biblioteca Municipal de Penafiel.
As muitas fotos do autor nas montras das lojas da cidade permitiram associações imprevistas. No caminho até à Biblioteca, o autor viu a sua imagem numa loja de pijamas, noutra de ferragens, numa montra com “lingerie”, junto a fios de ouro e ainda em azulejos, grafites, estampas, posters e bandeiras.
Na Praça da República, junto à Biblioteca, algum público aguardou que o autor chegasse e descerrasse a silhueta e a frase:
Escrever é usar as palavras que se guardaram: se tu falares de mais, já não escreves, porque não te resta nada para dizer. As palavras escritas em “No teu deserto” fazem agora parte do corpo da cidade.
As constantes demonstrações de afecto dos penafidelenses, que tanto solicitaram Miguel Sousa Tavares, motivaram o escritor a afirmar, na entrevista com o jornalista Júlio Magalhães, que para se conhecer um país são necessários nove dias, mas para conhecer Penafiel são precisos mais.

“A crítica tem por mim um infinito desprezo.”

Os cerca de 400 lugares da sala do Museu foram ocupados para ouvir o homenageado conversar com Júlio Magalhães sobre jornalismo, redes sociais, os processos de escrita, a literatura e a relação com a crítica literária.
A opinião negativa sobre as redes sociais é conhecida por quem segue, minimamente, o comentador da SIC.
O jornalismo está a ser vampirizado pelas redes sociais. Hoje- ao contrário do que afirmou outrora- não serve somente para namoricos. A autoria esbate-se, a verdade da informação é cada vez mais incerta, as “fake news” são uma realidade. Chegámos a uma situação em que tudo se inverteu. É a comunicação social que informa sobre algo que aconteceu nas redes sociais de forma viral. As partilhas dão importância ao conteúdo. Por ser viral, torna-se notícia, afirmou Sousa Tavares.
A mudança do jornalismo para o romance causou-lhe apreensão.

“O romance é o grande salto literário no escuro”

A parte mais agradável da escrita é a da investigação. As frequentes visitas aos locais foram essenciais para a escrita de “Equador” e “Rio das Flores”. Sobre o seu último romance, o autor disse que o ia matando. “Foi investigação a mais”. As folhas, ordenadas por temas, acumularam-se no chão. Depois veio a escrita e – o pior para o autor- a revisão.
“Equador” teve 11 revisões. E sobre este romance um desejo especial. Sophia de Mello Breyner Andresen pediu para que o personagem principal não morresse.

“Se calhar ela própria estava a antecipar a sua hora da morte”

Apesar da preferência da mãe pela poesia, esse não seria o caminho escolhido. Cresceu numa casa onde se escrevia e recitava poesia, mas foram os escritores russos, Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco e o americano Ernest Hemingway que viriam a influenciá-lo.
A biblioteca dos pais seria essencial na sua formação como leitor e escritor.

“Havia a estante da minha mãe e havia a estante do meu pai. A estante da minha mãe dividia-se em duas partes: “os livros de que eu gosto e os livros de que eu não gosto”. É uma divisão absolutamente extraordinária. Hoje em dia, eu já pratico. A do meu pai era lógica: Direito, Economia, Política, História… E depois havia os romances, que iam sendo colocados por altura conforme as idades, ou seja, para chegar aos livros semi-eróticos do Jorge Amado era preciso ter, pelo menos, 1m70 de altura.”

A produção literária depende da vontade do autor. Nunca aceitou nem aceitará adiantamentos por conta de livros por pensar que tal situação cria uma “subsidiodependência” e transforma um escritor num funcionário da editora. A maior quantidade de publicação, devido a obrigações contractuais, influencia negativamente a qualidade. Em consequência, os leitores serão cada vez menos. E Miguel Sousa Tavares considera que um escritor deve ter preocupações com o leitor.

“A crítica detesta-me. Não é cordialmente; é mesmo obsessivamente. A crítica tem por mim um infinito desprezo. (…) Tenho péssima crítica. (…) “Não escrevo para mim, nem para os meus amigos ou para a minha rua. E sobretudo não escrevo para os críticos. Escrevo para os leitores. Sou um escritor de leitores. Eu quero ter leitores. Jamais direi como o Lobo Antunes que me basta um leitor. Jamais.
Considero a escrita como um serviço prestado aos outros. E é cada vez mais importante porque há cada vez menos gente a ler.”

Observando o Museu Municipal com tanta gente, as constantes solicitações na “arruada” para tirar fotos, dar um abraço ou um beijo, e a mais de uma hora que o escritor esteve a dar autógrafos, dá para concluir que Penafiel é uma cidade com muitos leitores de Miguel Sousa Tavares.

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