Penacova. “Isto teve uma propagação fora de série”

17 OUTUBRO, 2017 -

Concelho de Penacova viu um terço da área ardida entre a tarde de domingo e a noite de ontem. Balanço: três mortos diretos do fogo, outra vítima indireta e um ferido muito grave.

Foram nove minutos. Desde que vimos o fogo lá em baixo no Beco, que fica aí a uns 20 quilómetros, até chegar aqui, foram nove minutos. Não tivemos hipótese nenhuma, foi metermo-nos no carro e fugir com a roupa que tínhamos no corpo”. Eram seis e meia da tarde, Um dia depois, Anabela Dias está visivelmente abalada. A casa, enorme, num outeiro junto à estrada que segue para Silveirinho, mesmo no entroncamento para Travanca do Mondego, está completamente destruída. Caiu o telhado e um terraço, dois automóveis jazem calcinados. A uns 40 metros, outra casa, o anexo, como lhe chamou, também não sobreviveu às chamas, outros seis veículos tiveram sorte idêntica.

Não houve um bombeiro que chegasse perto. A não ser à meia noite. A casa já estava a arder. Vieram e foram-se embora”. Já não havia nada a fazer. Sem vidas em risco e incapazes de conter as chamas, os bombeiros tentaram chegar a outros lados e foram sempre manifestamente insuficientes.

O comandante de bombeiros de Penacova, António Simões, reconhece isso. “Temos consciência que deixámos arder algumas casas, mas também temos consciência que salvámos muitas”, disse ao i.

Obrigados a combater as várias frentes de fogo que lavravam no concelho apenas com meios próprios, isto é, dez carros de combate e todos os seus 100 homens, António Simões diz que “foram poucos meios”. No entanto, “num incêndio destas dimensões poderíamos ter mais meios que ardia tudo na mesma”.

Bombeiros e populares parecem incrédulos com a forma rápida como o fogo se propagou. A terra seca, o material combustível, o calor, o vento, tudo se conjugou na condição perfeita para o desastre.

Foi muito rápido, quase não tínhamos tempo para respirar”, conta Carlos Fernandes de Assunção, sentado no muro de uma casa que foi destruída pelas chamas em Portela, Travanca do Mondego. Do outro lado da estrada, outra casa atingida pelas chamas. A dele, aguentou, porque é de placa. Ao contrário do barracão, esse foi consumido. Os animais salvaram-se porque os levou para um terreno onde o fogo não chegou, mas agora não tem nada para lhes dar de comer. “O fogo provocava ondas de barulho que não têm explicação. Pareciam bois a urrar”, garante o mesmo Carlos de Assunção. “Isto teve uma propagação fora de série”, exclama.

Tenho mais de 30 anos de bombeiro, tenho formação superior de proteção civil, sou professor”, diz o comandante de Penacova, “mas num incêndio destes poderia ter mais meios que ardia tudo na mesma”.

Os nove minutos de Anabela Dias e a propagação fora de série de Carlos de Assunção surgem também na boca do comandante António Simões, para quem foi um incêndio de “muito rápida propagação” que se alimentou do combustível seco e beneficiou da humidade nula, aliada ao vento que soprou durante a tarde de domingo.

Há por aí muito treinador de bancada, sentado no sofá, mas as condições climatéricas não davam outra solução”. Para António Simões, “enquanto não se resolver o interface entre as habitações e a floresta”, enquanto os limites não forem bem definidos, o problema continuará.

Mortos e um ferido grave

Segundo o comandante dos bombeiros de Penacova, ainda é cedo para o balanço da área ardida. Até ontem a preocupação foi combater os fogos. Mesmo assim, calcula que tenha ardido um terço da área do concelho.

O que já se pode ter em conta é mesmo o balanço trágico das vítimas: às duas primeiras confirmadas ontem, juntou-se hoje mais uma direta do fogo: uma senhora que estava desaparecida na aldeia de Lagares foi encontrada sem vida dentro da sua casa. A outra morte a lamentar é que não será contabilizada no balanço geral é a de uma senhora que, em Sobral, faleceu ao cair quando fugia do fogo.

Há ainda um homem de cerca de 70 anos que sofreu queimaduras graves e está internado na unidade de queimados do Hospital Universitário de Coimbra. “Fui eu que o encontrei no centro da aldeia que ardeu na quase totalidade”, conta o comandante dos bombeiros. “Toda a gente foi embora, mas o senhor não quis sair por causa dos tractores. Quando o encontrei estava consciente, veio a caminhar até à ambulância, mas depois… Estava muito queimado”.

Por precaução chegou a ser evacuado o lar de idosos de Miro e cerca de 150 pessoas passaram a noite de domingo para segunda no pavilhão municipal e no quartel de bombeiros de Penacova. No entanto, ontem à noite já os idosos foram instalados de novo no lar, passado o perigo.

Dezenas de casas arderam, mais de uma dezena delas era de primeira habitação. Uma fábrica e uma bomba de gasolina em Silveirinho também sofreram a mesma sorte.

Salvos por uma botija de gás

O que sobreviveu inteiro foi o hotel da Quinta da Conchada numa curva do rio Mondego. Estoicamente quatro funcionários conseguiram evitar que a unidade hoteleira fosse consumida pelas chamas que cercaram o edifício e ainda fizeram estalar os vidros por causa do calor.

António Almeida, diretor do hotel desde a inauguração, exclama ao i “um graças a Deus” pelo primeiro fim de semana de taxa de ocupação baixa desde há muito tempo. “Foi o primeiro domingo em que a taxa de ocupação não foi de 100% em muitas semanas”, explica, com alívio, “porque seria muito difícil gerir 20 clientes” e combater o fogo.

Os quatro hóspedes que estavam no hotel foram colocados numa ilhota no Mondego enquanto os quatro funcionários usavam toda a água que tinham à disposição, incluindo a do jacuzzi, para evitar que as chamas chegassem ao hotel.

Mas não fosse a explosão da botija de gás do salão de eventos, que se transformou num pastiche multicolor de chapas retorcidas, e tudo poderia ter sido diferente e hoje pouco restaria da Quinta da Conchada.

Estivemos a segundos de abandonar o hotel. Se não fosse a explosão da garrafa de gás teríamos fugido. Estivemos mesmo até à última”, conta António Almeida. O trabalho estóico dos quatro funcionários nota-se no verde que ainda resta ao redor da casa que contrasta com o cinzento fuligem que marca toda a paisagem. Cada um defendeu o seu lado dasa situada na encosta com vista para o Mondego, o IP3 lá ao fundo e um sol vermelho fogo que se punha por entre o ar carregado da neblina dos fogos.

Para o proprietário, António Dias, foi a única boa notícia de uma tarde fatídica para a sua família. Depois da destruição da casa no outeiro de que falamos neste texto e de uma outra. Foi aqui na Quinta da Conchada que a família passou a noite, depois de finalmente terem tido notícias da filha, para a qual não conseguiam ligar.

“Pedi a Deus que tivesse cuidado comigo”

As telecomunicações sofreram imenso com a destruição dos incêndios, deixando muitas vezes as pessoas a meio de mensagens de urgência ou de planos de fuga. Até a enorme torre de transmissão do rádio-amador António Santos, mesmo à beira do IC6, ali no entroncamente para o Silveirinho.

Passou a noite a tentar proteger a casa que ainda se mantém em pé com algumas mazelas menores graças ao seu esforço: “Fui-me deitar às seis da manhã”. Só quando viu que já não podia fazer nada fugiu e foi ter com a mulher que já estava a salvo. Foi aí que se entregou a outras providências: “Levantei as mãos a Deus e pedi que tivesse cuidado comigo”.

Além do fogo que veio rápido, António Santos teve ainda o azar de ver um camião despistar-se quase à porta, o que contribuiu ainda mais para o propagar do incêndio. O camião, completamente devorado pelas chamas, ainda fumegava junto ao IC6. A carga, pranchas de cartão praticamente reduzidas a cinzas, ainda soltava um fumo branco e de vez quando reacendia pequenas chamas. O motorista que escapou ileso terá cometido a imprudência de continuar viagem mesmo quando as informações já davam conta da propagação das chamas de ambos os lados do IC6. Quer tenha sido pelas chamas ou pelo denso fumo, a verdade é que se despistou, destruiu os rails laterais e acabou numa pequena ribanceira. No chão, ainda se notam as marcas da borracha que as rodas já não têm. Explodidos os pneus, o tanque e tudo que deixou o veículo como uma carcaça quase irreconhecível, cuja cor se confunde com a fuligem da paisagem.

A ironia das ironias é que por aqui água não falta. Com o Mondego inteirinho ali ao pé e a barragem da Aguieira mesmo ao lado. Desde o alto, onde as árvores se confundem na estreiteza de cores, onde do solo ainda brotam pequenas nuvens de fumo, vê-se a barragem – o nível está baixo, mas ainda dava para combater muitos fogos. Numa placa queimada pela intensidade dos fogos, mesmo ao pé de um monte de garrafas deformadas pelas altas temperaturas, adverte-se do perigo: “Zona perigosa – Não navegar. Não pescar. Não banhar”.

Artigo escrito por António Rodrigues 
Fotografia de Beatriz Rato

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